Com poesia e música, Maciço de Baturité pede socorro urgente
Foi lançado ontem o movimento SOS Guaramiranga, que lutará pela preservação da Área de Proteção Ambiental do Maciço de Baturité, hoje sob ameaça
Está no Ceará um restinho do que foi a Mata Atlântica, a gigantesca floresta que emoldurava e esverdeava o Brasil no tempo do seu Descobrimento. Ele se localiza no Maciço de Baturité e envolve toda a geografia dos municípios de Palmácia, Pacoti, Guaramiranga, Mulungu, Baturité, Redenção, Aratuba e Capistrano, os quais integram a primeira e mais extensa Área de Preservação Ambiental (APA) deste estado, criada pelo governador Tasso Jereissati em setembro de 1990. É um presente com que a divina natureza prodigalizou os cearenses. Pois esse paraíso de belezas naturais está rápida e gravemente ameaçado pela antropização, que é a ação humana, interesseira e desrespeitosa.
A APA do Maciço de Baturité – cuja área é de 32 mil hectares – vem sendo destruída por desmatamentos, alguns dos quais para a construção de projetos imobiliários – condomínios horizontais e verticais. Consequência: uma parte da montanha que integra a APA perdeu sua flora e sua fauna por causa do avanço da caatinga, como revelou o biólogo Fábio Melo, presidente da Aquasis, a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos, que abriu ontem à noite, no hotel Gran Marquise, o ato de lançamento da Associação SOS Guaramiranga, uma entidade que – reunindo grandes empresários e até autoridades da área ambiental, como a secretária estadual do Meio Ambiente, Vilma Freire – promete lutar para salvá-la.
E o que de tão valioso há na floresta baturiteense? – pode perguntar um desinformado.
A biodiversidade do Maciço de Baturité impressiona. Sua fauna, segundo Fábio Melo, é riquíssima – ela tem veado-mateiro, bugio (um macaco uivador), preguiça, serelepe, quati, jararaca, cascavel, coral e suçuarana, além de raríssimos e belos pássaros, como o periquito cara suja. E sua flora é mais rica, ainda: tem samambaia-açu ou xaxim, uma espécie ameaçada de extinção pela desenfreada exploração; figueira, jacarandá-paulista, canela-incenso, embaúba, tapiá-mirim, pau-jacaré, palmito-doce, açoita-cavalo, cedro-rosa, bambu, araucária, helicônia, jequitibá-branco, vassourão-branco, cabreúva, pata de vaca e bromélias.
Com o objetivo de defender esse abençoado patrimônio das ameaças de um, digamos assim, libera-geral para a ação deletéria do homem, o SOS Guaramiranga está chegando e mobilizando moradores da região, sitiantes, amantes da natureza e militantes de movimentos de preservação ambiental.
A iniciativa tem, entre seus objetivos, propagar as boas práticas de educação ambiental, a realização de eventos e palestras para um debate sobre temas de interesse da coletividade do Maciço, tudo voltado à promoção do bem-estar social e da qualidade de vida das comunidades locais, por meio da colaboração com os organismos municipais, estaduais e federais que têm a ver com políticas de preservação ambiental da APA de Baturité.
Alguns integrantes do SOS Guaramiranga são empresários que, com sítios nos municípios do Maciço, desenvolveram projetos que hoje são elogiados pelos organismos que cuidam do meio-ambiente.
Por exemplo: José Carlos Pontes, presidente do Grupo Marquise, transformou sua quinta em Guaramiranga numa área florestal com plantas escolhidas pelo saudoso Burle Marx, dentro da qual instalou um jardim zoológico, com várias espécies de bichos, incluindo Lhamas andinas, pássaros e águias. Pio Rodrigues – líder de recente iniciativa que, para celebrar os 40 anos de vida de sua C. Rolim Engenharia, plantou 40 mil árvores no Parque do Cocó e em outras áreas de Fortaleza – também investiu no seu sítio de Guaramiranga, plantando nele centenas de árvores de diferentes espécies – incluindo ipês – que hoje alcançaram a idade adulta, tornando mais verde o Maciço de Baturité.
Carlo Porro, sócio e CEO da Agrícola Famosa, anunciou à coluna que está ampliando de 50 hectares para 150 hectares a área de sua gleba de Guaramiranga, “para exclusiva preservação ambiental”. E seu colega empresário Wagner Montenegro também disse que está comprando mais 50 hectares naquele município para reflorestá-los.
José Carlos Pontes, Pio Rodrigues, Antônio José Melo, Assis Machado Neto, Wagner Montenegro e Ricardo Wagner Oliveira são os integrantes da primeira diretoria da Associação SOS Guaramiranga; Ivan Bezerra Filho, Lúcio Alcantara e Roberto Macedo integram o seu Conselho Consultivo. Eles foram empossados ontem sob palmas.
O SOS Guaramiranga ergue-se como tonitruante voz de quem, naquela bela região, se alarma diante da crescente possibilidade de prefeituras do Maciço, em conluio com adversários do meio ambiente, darem partida a projetos imobiliários condominiais danosos à sua APA. Mas isso será difícil, porque no evento de ontem à noite estavam juntos, lado a lado, os representantes da superintendência estadual do Ibama, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) e da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), que prometeram apertar a fiscalização em toda a geografia do Maciço de Baturité para evitar quaisquer tentativas de infração aos rígidos códigos e leis federais e estaduais que tratam da defesa do meio ambiente.
Houve um discurso que foi ouvido com muita atenção pelas 300 pessoas presentes ao lançamento da Associação SOS Guaramiranga – o de Pio Rodrigues, que começou lendo uma poesia, de sua autoria, de louvor à mata: “Tu que passas e ergues para mim o teu braço, antes que me faças mal, olha-me bem! Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno. Eu e meus frutos são a frescura apetitosa que te sacia a sede nos caminhos”.
Na sua fala, Pio disse que é “impossível ficar impassível aos mais de 100 autos de infração aplicados pelo Ibama em uma área tão pequena, frágil e vulnerável em menos de seis meses”. E acrescentou: “Guaramiranga pede socorro e estamos unidos para acudir a esse grito com a Associação SOS Guaramiranga. Inicia-se aqui uma longa jornada não circunstancial, mas atemporal, na qual seremos movidos pelas forças do bem e vigiados pelos espíritos da floresta. Não estamos movidos por conveniências e sim por convicções. Não temos nada contra ninguém e temos tudo a favor da serra”.
O final do ato de lançamento do SOS Guaramiranga foi musical. O genial Adelson Viana – um dos melhores músicos do Brasil – empunhou sua sanfona e brindou os presentes com músicas de Dominguinhos e Anastácia, Fagner, Manduca, Fausto Nilo, Nonato Luiz e de sua própria autoria.
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