Brasil e EUA entre a flexibilidade, a rigidez e os desencontros
Aqui, as regras existem, mas sua aplicação é frequentemente flexível, negociável; lá, o problema não é a ausência de regras, mas a presença de um Estado forte.
Brasil e Estados Unidos (EUA) costumam ser comparados a partir de uma lógica simplista: de um lado, o Brasil visto como burocrático e instável; do outro, os EUA como eficientes, previsíveis e organizados. No entanto, quando analisamos o funcionamento do Estado de forma mais ampla — não apenas na construção civil, mas em políticas públicas, economia, regulação e organização social — percebemos que ambos os modelos produzem desencontros estruturais, ainda que por razões distintas. Estas opiniões são do coordenador da AJE Fortaleza, o jovem empresário Tiago Guimarães, com quem este colunista conversou ontem.
De acordo com ele, “no Brasil as regras existem, mas sua aplicação é frequentemente flexível, negociável e adaptável, porque as leis mudam com frequência, variam as interpretações, exceções são concedidas e decisões administrativas muitas vezes dependem do contexto político, econômico ou local”.
Guimarães explica que essa flexibilidade permite “ajustes rápidos à realidade social, soluções criativas para problemas urgentes e capacidade de improvisação institucional”, mas ela também gera insegurança jurídica, dificuldade de planejamento de longo prazo, falta de continuidade entre governos, baixa previsibilidade regulatória e desalinhamento entre políticas públicas”.
Tiago Guimarães, que está permanentemente se atualizando sobre os atos e fatos da economia e da política brasileiras, algo que, pela velocidade com que tudo acontece, às vezes de maneira surpreendente, conclui:
“O resultado é um Estado que tenta responder a tudo, mas nem sempre consegue coordenar suas próprias ações de forma consistente.”
Dito isto, o coordenador da AJE Fortaleza foca sua análise nos Estados Unidos, que é o que chama de “um estado forte”. Ele expõe seu ponto de vista:
“Nos Estados Unidos, o problema não é a ausência de regras — é a presença de um Estado forte, técnico e institucionalmente rígido. As normas são claras, os processos são padronizados e a aplicação da lei tende a ser previsível. Isto traz vantagens importantes: segurança jurídica, estabilidade regulatória, confiança para os investidores, continuidade institucional e planejamento de longo prazo.”
Tiago Guimarães toma o cuidado de acrescentar:
“Isso também produz efeitos colaterais: baixa capacidade de adaptação, dificuldade de inovação institucional, processos lentos para mudanças estruturais, resistência a soluções fora do padrão e padronização excessiva de políticas. Nos EUA, o Estado funciona bem dentro das regras existentes — mas mudar essas regras costuma ser um processo longo, complexo e politicamente custoso.”
Em seguida, ele retoma a análise comparativa, dizendo que há “dois caminhos, mas o mesmo desencontro”. Tiago Guimarães explica:
“Curiosamente, tanto a flexibilidade brasileira quanto a rigidez norte-americana acabam produzindo desencontros sistêmicos. No Brasil, políticas mudam antes de amadurecer. Nos EUA, políticas permanecem mesmo quando já não refletem a realidade atual. Em um modelo, falta estabilidade. No outro, falta adaptabilidade.”
Guimarães entende que, hoje, há um “desafio contemporâneo”, exigindo do mundo atual “estados previsíveis, mas também adaptáveis, além de instituições sólidas e abertas à inovação, regras claras e sensíveis ao contexto social”. E acentua:
“Assim, nem a flexibilidade excessiva nem a rigidez absoluta são suficientes para lidar com desafios como transformação digital, mudanças climáticas, desigualdade, inovação tecnológica e novas formas de trabalho. Conclusão: o Brasil peca pela flexibilidade instável, os EUA pecam pela rigidez institucional. Ambos operam com Estados fortes à sua maneira — mas ainda enfrentam dificuldades em alinhar política, sociedade e desenvolvimento de forma integrada. O verdadeiro avanço não está em escolher entre controle ou liberdade, e sim em construir instituições inteligentes, capazes de combinar previsibilidade com adaptação.”
Ele encerra, dizendo:
“Eu prefiro o modelo de Estado rígido, com regras estáveis e pouco suscetíveis a mudanças por interesses políticos ou econômicos de terceiros. A previsibilidade institucional garante segurança jurídica, continuidade das políticas públicas e protege o interesse coletivo contra pressões momentâneas.”
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