A água invisível dos Data Centers: a nuvem pousa no semiárido
Mauro Oliveira, um cearense doutor em Tecnologia da Informação, desvenda alguns segredos do mega Data Centers que a Casa dos Ventos projeta implantar no Pecém
O texto abaixo é de autoria do professor Mauro Oliveira, doutor em informática pela Universidade de Sorbonne, na França; mestre em energia elétrica pela PUC Rio, com dois pós-doutorados em telecomunicações pela King College de Londres (Reino Unido) e pela Otawa University do Canadá e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações, um currículo de fazer inveja.
Ele escreveu para esta coluna o artigo abaixo, que aborda a importância do uso da água nos grandes Data Centers, como o que será construído na geografia da ZPE do Ceará, na área do Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
O texto é primoroso e o tema é exposto de modo a permitir o fácil entendimento. Pela sua oportunidade e atualidade – o projeto do Data Center está próximo de ser implantado – a coluna publica-o na íntegra em razão, também, de sua grande importância:
“Há um truque de mágica na palavra “nuvem”. Nós a conhecíamos pela leveza e evaporação poética, céu suspenso onde tudo flutua sem tocar o chão. No vocabulário da computação, essa metáfora sugere imaterialidade, distância, abstração.
“Quando a nuvem de servidores digitais desce, ela não evapora: pousa pesado. Vira concreto, subestação elétrica, fibra óptica, perímetro de segurança, chiller, gerador… e, sim, água.
“É nesse ponto que o debate deixa de ser retórico e fica pragmático, especialmente diante de um megaprojeto como o data center previsto para o Complexo do Pecém (ZPE Ceará), associado à ByteDance (plataforma TikTok) e à Casa dos Ventos (líder nacional em energias renováveis), com escala da ordem de centenas de megawatts e início de operação projetado para 2027.
“1) Data center “bebe” água? Depende de como ele esfria o cérebro
“Servidores são máquinas de processamento e armazenamento de dados que consomem muita energia, especialmente em data centers de Inteligência artificial, e produzem muito calor. E calor precisa sair.
“É justamente a forma de retirar esse calor que define o perfil hídrico do data center.
“No caso do data center do TikTok no Complexo do Pecém, o sistema de refrigeração tem sido descrito como uma arquitetura híbrida, que combina resfriamento predominantemente a ar com uso de água autorizado para sistemas auxiliares e operacionais, buscando reduzir — mas não eliminar — o consumo hídrico.
“De acordo com as informações públicas disponíveis, o projeto:
-
Pode incluir circuitos fechados de água em partes do sistema térmico, destinados à remoção de calor de equipamentos ou subsistemas específicos. Não há, contudo, confirmação pública de que a água seja utilizada para resfriamento direto dos servidores (direct-to-chip ou imersão) em toda a instalação.
-
Prioriza a rejeição de calor por meio do uso de ar externo, com sistemas como dry coolers ou soluções equivalentes, reduzindo a dependência de resfriamento evaporativo tradicional. Essa estratégia tende a diminuir o uso direto de água, embora não elimine completamente o consumo hídrico.
“A discussão hídrica, porém, ganhou contornos mais concretos durante o processo de licenciamento. Embora os proponentes do projeto tenham destacado o predomínio do resfriamento a ar e um uso “mínimo” de água, o Governo do Ceará autorizou posteriormente um volume de captação significativamente maior do que o inicialmente declarado.
“Reportagens indicam que a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (SRH) concedeu autorização para uso de cerca de 144 mil litros de água por dia, enquanto os documentos iniciais do licenciamento indicavam um consumo da ordem de 19,7 mil litros diários — um aumento superior a sete vezes. Parte dessa autorização baseou-se em autodeclarações de disponibilidade hídrica, o que gerou questionamentos técnicos e sociais.
“Segundo a Folha de S.Paulo (16/dez/2025), o Ministério Público Federal solicitou que o Governo do Ceará explique a concessão da licença ambiental ao data center da ByteDance. Uma perícia contratada pelo MPF concluiu que o licenciamento, baseado em um Relatório Ambiental Simplificado, é tecnicamente inadequado e insuficiente para avaliar a viabilidade ambiental do empreendimento. De acordo com o órgão, o projeto pode agravar a escassez hídrica, aumentar a vulnerabilidade climática, elevar o risco de insegurança alimentar e violar direitos socioambientais na região.
“O ponto é simples:
“Baixo consumo de água não é slogan ESG.
É decisão de projeto, baseada em engenharia térmica, química e operacional, e em governança capaz de medir, exigir e fiscalizar.
“2) A métrica que interessa: WUE (Water Usage Effectiveness)
Se o setor aprendeu a falar de PUE (Power Usage Effectiveness — a razão entre a energia total consumida pelo data center e a energia efetivamente utilizada pelos equipamentos de TI), precisa agora adotar, com o mesmo rigor, a métrica WUE, que relaciona o uso de água ao trabalho computacional entregue, normalmente expressa em litros de água por kWh consumido pela TI.
“É neste ponto que surge a principal armadilha técnica e política: água não é uma variável única.
-
Captação ou retirada: volume de água retirado de um manancial, que pode retornar à bacia hidrográfica;
-
Consumo: volume de água que não retorna ao sistema, como aquela perdida por evaporação nos processos térmicos.
A confusão entre essas duas categorias em relatórios ambientais ou ESG compromete a leitura real do impacto hídrico e transforma indicadores técnicos em instrumentos de comunicação enganosa — uma prática explicitamente desaconselhada por guias técnicos e programas de eficiência hídrica de órgãos como o U.S. Department of Energy.
“Se o Complexo do Pecém pretende se consolidar como vitrine tecnológica e ambiental, essa vitrine precisa vir acompanhada de etiquetagem técnica clara e verificável, incluindo:
-
WUE reportado mensalmente, com análise sazonal (períodos secos e chuvosos);
-
Identificação explícita da fonte da água utilizada (potável, reuso, salobra, dessalinização);
-
Percentuais efetivos de reuso, com metodologia de cálculo transparente;
-
Limites máximos contratuais de WUE e gatilhos operacionais definidos para situações de estresse hídrico.
“Em síntese:
“WUE não é um indicador decorativo. É um instrumento de governança.
“Quando corretamente definido e auditado, permite comparação, gestão e tomada de decisão informada. Quando mal definido ou apresentado de forma ambígua, apenas molha o discurso.
“Porque, no fim, água é outra soberania.
“E soberania hídrica não se proclama — se exerce com métricas claras, contratos exigíveis e fiscalização contínua.
“3) Mas é energia renovável! Ótimo. Água é outro capítulo!
“Energia renovável ajuda, e muito, na narrativa climática e na redução das emissões de carbono. Mas não zera o debate hídrico.
Eólica dedicada muda a conta da energia; não resolve a conta da água.
“Em escala, portanto, a pergunta correta não é se existe tecnologia capaz de consumir pouca água. Essa tecnologia existe.
“A pergunta real é outra:
“O contrato obriga a consumir pouco e permite fiscalizar?
“É aqui que o discurso precisa virar governança, apoiada em métricas com unidade, periodicidade e auditoria:
“No Ceará, isso é ainda mais sensível. A mesma infraestrutura que promete ‘baixo consumo hídrico’ pode, se mal desenhada ou mal contratada, virar concorrente silenciosa de água com indústria, cidades e agricultura.
“Aqui, água nunca foi detalhe técnico. Sempre foi, e continua sendo, política pública.
“4) O elefante no data hall: redundância elétrica e o ‘verde’ que ronca a diesel
“Todo grande data center precisa de redundância. E aí entram geradores. No caso do Pecém, reportagem recente do DN trouxe a preocupação do MPF com a previsão de muitos geradores a diesel, comparando o conjunto a uma “termelétrica” pelo porte indicado em laudos e documentos do licenciamento.
“Não se trata de demonização. Geradores fazem parte do padrão internacional de confiabilidade em data centers de grande escala, especialmente aqueles voltados à Inteligência Artificial. O problema não é a existência da redundância, é a falta de transparência e controle sobre seus impactos.
“5) A água também está fora do muro: pegada hídrica indireta
“Mesmo quando o consumo direto de água no site é baixo, existe a ‘água do sistema’ (cadeia de energia, infraestrutura e operação em rede). Estudos e revisões recentes vêm discutindo pegadas de carbono e água associadas ao ecossistema digital e apontam a necessidade de métricas melhores e transparência (especialmente em grandes operadores).
“E, na escala macro, relatórios robustos (como os do Lawrence Berkeley National Laboratory) chamam atenção para o crescimento acelerado do setor de data centers e a pressão crescente sobre energia e, por consequência, sobre recursos associados (incluindo água, dependendo da região e da tecnologia de resfriamento).
“Por isso, política pública madura não fica só no WUE local, mas começa por aí.
“6) O que deveria estar ‘carimbado’ no acordo com o Ceará
Se a nuvem vai morar no Pecém, ela precisa assinar o livro de regras da casa. Um pacote mínimo, bem cearense: prático, mensurável e verificável. Nada de poesia. Planilha, indicador e auditoria.
“Cláusulas e evidências mínimas:
-
WUE máximo contratual, com metas progressivas anuais e auditoria independente, tornando o desempenho hídrico obrigação verificável — não promessa.
-
Uso prioritário de água de reuso, com percentual mínimo definido e transparência total da origem da água utilizada.
-
Proibição (ou restrição severa) do uso de água potável para resfriamento, admitida apenas em situações de contingência técnica devidamente justificadas e temporárias.
-
Plano de contingência hídrica explícito, detalhando protocolos de operação em cenários de seca prolongada, racionamento ou colapso de fornecimento.
-
Relatório público mensal, reunindo dados de uso de água, consumo de energia, emissões atmosféricas locais e testes/acionamentos de geradores, com metodologia clara.
-
Contrapartidas locais estruturantes, incluindo formação técnica, pesquisa aplicada e laboratórios vivos de eficiência hídrica e energética, em articulação com o IFCE, a UECE e a UFC.
-
Criação de um Polo de Ciência Aplicada, Tecnologia e Inovação em IA (CATIA), voltado à dinamização das cadeias produtivas locais e ao fortalecimento da base científica regional, funcionando também como observatório permanente das contrapartidas acordadas, em articulação com universidades, entidades técnicas e a sociedade civil.
“O recado é claro: contrapartida não é favor, é condição.
“Sem cláusulas claras, métricas auditáveis e instituições envolvidas, o risco é repetir o velho roteiro: infraestrutura de escala global, impactos locais e benefícios difusos. ‘om regras bem ‘carimbadas’, o Ceará transformará investimento em legado, e tecnologia em política pública de desenvolvimento.
“7) A pergunta que decide o futuro
“O Ceará não pode repetir o roteiro colonial de sempre: ‘entra megainvestimento, sai recurso, fica o PowerPoint’. Data center pode ser oportunidade de desenvolvimento econômico e social, infraestrutura civilizatória: pode ser motor de autonomia ou só mais um modo sofisticado de exportar valor.
“Por isso, quando alguém afirmar que ‘o data center usa pouca água’, a resposta correta não é concordar, mas perguntar: pouca quanto? Medida como? Em que meses? Com qual fonte? Quem audita? E qual a penalidade em caso de descumprimento?
“No fim das contas, soberania também é isso: não aceitar promessas genéricas, transformar discursos em métricas, e métricas em obrigações exigíveis.
“CONCLUSÃO: meio ambiente, governança e participação como pré-condição de futuro
“A discussão sobre data centers de IA no Ceará não é apenas tecnológica ou econômica. Ela é, antes de tudo, ambiental, territorial e política. Em um estado onde água, energia e solo sempre foram tratados como bens estratégicos, não há espaço para decisões opacas nem para promessas genéricas de sustentabilidade. O desafio é garantir que infraestrutura digital de escala global não produza impactos locais irreversíveis e que, ao contrário, gere benefícios concretos, duradouros e distribuídos.
“Isso só é possível com participação qualificada desde o planejamento, e não apenas na fase final de licenciamento. Entidades da sociedade civil, universidades, institutos de pesquisa, setor produtivo local e as comunidades diretamente impactadas precisam estar sentadas à mesa desde o início, especialmente nas negociações de contrapartidas. Formação de talentos, pesquisa aplicada, transparência ambiental, eficiência hídrica e energética, e retorno social não podem ser tratados como ‘extras’: devem ser cláusulas estruturantes.
“Nesse sentido, este documento se articula com a proposta ‘Datacenters de IA no Ceará: Estratégias para Negociação, Governança e Desenvolvimento Sustentável’, apresentada como anexo. A proposta é uma iniciativa do Instituto IRACEMA Digital e teve sua motivação inicial por ocasião da palestra homônima realizada durante as comemorações dos 50 anos da UECE, a convite do reitor Hidelbrando Soares.
“O documento estará sendo entregue, em breve, ao Governador do Estado, Elmano de Freitas, e já foi apresentado ao Senador Cid Gomes, à deputada federal Luizianne Lins, ao deputado estadual Acrísio Sena e ao vereador Léo Suricate.
“Mais do que um posicionamento técnico, trata-se de um chamado à governança democrática da infraestrutura digital. O Ceará tem a oportunidade de mostrar que é possível atrair investimentos de alta complexidade sem abrir mão do meio ambiente, da transparência e da soberania territorial. Para isso, é preciso transformar métricas em obrigação, contrapartidas em política pública e participação social em método.
“O futuro digital que vale a pena construir é aquele em que a nuvem não paira sobre o território, mas se enraíza nele, respeitando seus limites, fortalecendo suas instituições e devolvendo à sociedade mais do que consome.
“Para o Ceará ter voz na era da Inteligência Artificial, precisa tratar sua inteligência como patrimônio estratégico, não como commodity. No fundo, o que está em jogo é a nossa soberania, o direito de escrevermos nossa própria história com as próprias mãos. Porque quem cede sua inteligência, cedo ou tarde, perderá sua voz.
Veja também