Marília Mendonça: a “sofrência” das tiranias do corpo, do gênero e do mercado

Marília Mendonça
Legenda: Ainda não existem conclusões acerca do acidente que matou a “rainha da sofrência”
Foto: MAURICIO FIDALGO / GLOBO TV (BRAZILIAN TV CHANNEL) / AFP

No dia 5 de novembro, morreu a cantora goiana Marília Mendonça, aos 26 anos de idade. A sua morte trágica, fruto de um acidente aéreo, ocorrido nas proximidades do aeroporto da cidade de Caratinga (MG), vem se somar a outras mortes trágicas, que levaram prematuramente estrelas da música sertaneja (João Paulo, em 1997; Cristiano Araújo, em 2015; Gabriel Diniz, em 2019; Henrique, em 2020). Será que ninguém se pergunta pelos motivos dessa série de mortes? Será que Deus não gosta de música sertaneja ou quer que eles se apresentem exclusivamente para Ele? 

A resposta está no verdadeiro moedor de carnes e corpos em que se transformou a indústria do entretenimento, a indústria fonográfica, o mercado midiático. O segmento da música sertaneja atrai cantores e cantoras cada vez mais jovens, vindos, quase sempre, de camadas sociais desprivilegiadas, que veem no sucesso na carreira musical a única possibilidade de ascensão social. 

Muito inexperientes, são contratados por empresários e produtores que, em grande medida, dirigem as suas carreiras e procuram extrair delas a maior rentabilidade possível. Quando alcançam o sucesso, como ele pode ser fugaz e passageiro, dada a enorme competitividade e rotatividade num mercado completamente dominado pela racionalidade neoliberal, onde impera a precariedade dos vínculos e contratos, se submetem a uma rotina insana de trabalho, visando acumular o máximo possível, em pouco tempo.

Marília Mendonça era representada pelo escritório Work Show, o mesmo do cantor Henrique, da dupla Henrique e Neto, que sofreu um grave acidente em março de 2020, no município de Santa Fé do Sul, quando o automóvel que dirigia se chocou com a traseira de outro veículo e pegou fogo, vindo a falecer poucos dias depois no hospital. 
Ela fazia, antes do período de pandemia, uma média de vinte e cinco shows por mês, tendo apenas cinco dias para descanso ou mesmo para fazer deslocamentos mais longos, a cada mês.

Os shows são a grande fonte de renda nesse mercado, já que, com as novas tecnologias e a internet, a venda de CDs ou DVDs deixou de ser a principal forma de ingresso, tornando-se apenas um chamariz para os espetáculos ao vivo, a ponto de muitos deles serem registrados nesses dois formatos, visando servir de meios de divulgação desses eventos. 

É comum os deslocamentos feitos em aviões fretados, de pequeno porte, pertencentes a empresas que nem sempre fazem manutenção nas aeronaves ou contratam o melhor pessoal para operar os voos, visando potencializar os lucros. 

No caso do acidente aéreo que matou o cantor sul-mato-grossense Gabriel Diniz, com apenas 18 anos, no povoado de Porto do Mato, no município de Estância (SE), a sindicância concluiu que, além do mau tempo, a atitude imprudente e a indisciplina do piloto foram decisivas para a ocorrência do acidente. 

Ainda não existem conclusões acerca do acidente que matou a “rainha da sofrência”, mas sabe-se que a aeronave voava abaixo do que era indicado para o trecho onde se chocou com a fiação de alta tensão e caiu sobre uma cachoeira. Muitos acidentes ocorrem quando, após uma noite estafante de shows, alguns cantores vão para a estrada para voltarem para o município onde moram, quando a distância permite, dirigindo seus veículos: foi o caso de Cristiano Araújo, que bateu o carro no km 614 da BR-153, entre os municípios de Morrinhos e Ponta Linda (GO), quando, após fazer um show em Itumbiara (GO), retornava para Goiânia. Cansaço, alta velocidade e até consumo de bebidas alcoólicas podem se somar para ceifarem a vida desses artistas, prematuramente.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Marília Mendonça se queixou da rotina exaustiva, dizendo que, antes do sucesso, não pensava na rotina de viagens, nos problemas constantes de logística, no estresse constante e na falta de liberdade. 

Como revelou em entrevista ao jornalista Leo Dias, do portal Metrópoles, ela fabricou um personagem, ela se tornou um produto, e isso lhe custava muito caro. A Marília Mendonça que, com o nascimento do filho Leo, se descobriu uma conservadora, querendo se enquadrar de vez nas normas de gênero e assumir o papel de mãe e até de esposa, tinha que lidar com a necessidade de desmontar a figura da cantora do feminejo, que a levou ao estrelato: a mulher forte e rebelde, que não tinha pejo de beber em público, de falar abertamente de temas como a infidelidade, o adultério, a prostituição, os relacionamentos amorosos considerados fora do padrão, a partir de um ponto de vista feminino. 

Ela que se rebelou contra a sugestão de seu empresário, Wander Oliveira, de gravar músicas românticas açucaradas, preferindo cantar as experiências de dor, desamor e sofrimento das mulheres, numa sociedade machista, misógina e sexista, terminando por estabelecer uma enorme ligação com o público feminino, das camadas populares, que passaram a ter nela a sua voz, confessava nessa entrevista que, agora, sonhava em cantar no especial de Natal, de Roberto Carlos, o que seria o seu auge, sabendo que, para isso, tinha que reinventar seu personagem e seu produto, sem saber se o mercado receberia bem.

Marília Mendonça começou a carreira muito cedo, compondo desde os doze anos de idade. Filha de mãe solteira, começou a cantar na igreja, na Assembleia de Deus, religião que ainda frequentava, se inspirando em cantoras como Cassiane e Aline Barros. Como o sertanejo era um gênero musical dominado pelos homens, Marília começou compondo para outros cantarem e atuando nos bastidores, onde ganhou certa experiência. 

Desde o início de sua carreira foi vítima de gordofobia e teve seu comportamento, seu jeito de vestir, seus gostos criticados. Ainda quando de sua morte, o colunista da Folha de São Paulo, Gustavo Alonso, a chamou de “gordinha” e falou de seu mau gosto e desleixo quanto aos figurinos; outro colunista do mesmo jornal, Tony Goes, a chamou de “cheinha”. Nas redes sociais, sua morte provocou um espetáculo de elitismo, por parte de intelectuais ditos de esquerda que, como sempre, falam no povo e do popular, mas não suportam a verdadeira face de nosso povo e muito menos procuram pelo menos entender por que músicas como a da “rainha da sofrência” calam fundo na sensibilidade popular.

Ela que dizia pouco entender teoricamente do feminismo, dizia vivê-lo na prática, na carne de mulher que teve que se virar sozinha e conquistar espaço num ambiente dominado por machos, realizando aquilo que queria, apesar de todos aqueles que cercam um artista famoso e tentam dirigir as suas vidas. Mas as pressões para que se enquadrasse, se normalizasse vinham de todo lugar, principalmente à medida que passou a representar várias marcas, passou a ser um produto de venda no mercado. 

A pandemia, paralisando os shows, a tornou mais dependente do mercado publicitário e de streaming, fazendo com que estivesse procurando ser a mulher magra, bem vestida, mais conservadora, que dela era cobrado, inclusive pela mídia. Ao morrer, estava fazendo uma dieta em que ficava períodos em jejum (comia as oito da noite e só ia comer ao meio-dia), estava praticando boxe, malhando. 

Como a cantora Solange, da banda Aviões do Forró, estava se vergando à tirania do corpo perfeito, a tirania das identidades de gênero, deixando de beber e de aparecer em público em meio à farra, procurando se enquadrar no politicamente correto nas redes sociais, após inúmeros episódios de linchamento por causa de declarações suas (como quando fez afirmações de caráter transfóbico) ou por falta de declarações (ao não vir a público manifestar sua opinião acerca do governo Bolsonaro), procurando ser a mãe que o Leo esperaria, sem deixar de contestar, segundo ela, o machismo.

Para termos uma ideia do grau de manipulação a que esses artistas estão expostos, sua assessoria chegou a divulgar uma nota, depois do acidente, dizendo que ela se encontrava bem, assim como ocorreu com o cantor Henrique, resgatado em chamas num carro e levado entre a vida e a morte para um hospital.

Na entrevista para Leo Dias, Marília Mendonça afirmou que “sabia que era foda”, que tinha uma voz excepcional, que cantava um repertório composto em sua maioria por ela mesma (chegava a compor duas músicas por dia, em períodos de tristeza e estimulada pelo contato com o público), que dava voz a sentimentos e sofrimentos femininos (e masculinos, embora muitos homens não o confessem), transmitidos numa linguagem simples, que tocava e afetava multidões. 

Caetano Veloso, sempre mais antenado e menos preconceituoso que muitos daqueles pertencentes às chamadas elites intelectuais, fez, sem saber, a homenagem derradeira à cantora sertaneja - como fazia questão de se afirmar, para enfrentar o preconceito existente contra esse gênero de canção -, cantora que se inscrevia na longa tradição brega-romântica da canção popular brasileira, a nomeando de “Maravilha Mendonça”, em sua canção “Sem Samba não Dá”. 

A cantora das “sofrências” dos corpos e das almas femininas é também uma mulher que sofreu com as tiranias dos corpos, das identidades de gênero e, sobretudo, as tiranias do mercado capitalista, essa máquina mortífera, que esmaga e despedaça vidas em seu nascedouro, em seu auge de beleza e criatividade, tudo para fazer girar a máquina calculadora de lucros e dividendos.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.