Gilmar de Carvalho, o intelectual das minorias e das camadas populares

Gilmar de Carvalho segurando livro entre estantes
Legenda: Devotado à escrita, sua paixão cotidiana, Gilmar nos deixa como legado cerca de 54 livros
Foto: Thiago Gadelha

Conheci pessoalmente Gilmar de Carvalho em um evento em Juazeiro do Norte, cidade tão significativa em seu trabalho. Diante de nós, uma plateia composta por povos indígenas, em processo de ressurgência étnica, artistas populares, estudantes dos diferentes níveis de ensino e agentes culturais da cidade. 

Essa assistência dizia bem para quem Gilmar escreveu, falou, pesquisou, trabalhou em toda sua vida de intelectual brilhante. O escritor, jornalista, advogado, nascido em Sobral, no ano de 1949, tornou-se um grande pesquisador no campo da sociologia, da antropologia, da etnografia, da comunicação social. 

Devotado à escrita, sua paixão cotidiana, Gilmar nos deixa como legado cerca de 54 livros, seis deles no campo da literatura, dos quais destaco Parabélum (1977) e Pequenas Histórias da Crueldade (1987), e um livro que reúne seus escritos para o teatro. Sua produção acadêmica se estende, ainda, por 36 capítulos de livros e 33 artigos publicados em periódicos científicos.

No entanto, nada se compara a sua produção para a imprensa escrita de seu estado. Graduado em Comunicação Social, pela UFC (1972), com doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (1998), sendo professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, Gilmar nunca deixou de militar na imprensa e nos meios de comunicação de seu estado. 

Nos deixa cerca de 625 artigos escritos nos diferentes periódicos do Estado e de outros estados do país. Neles trata de seus temas favoritos, temas que foram objeto de seus estudos e pesquisas, pioneiras e inovadoras: a literatura de cordel; a xilogravura; as artes populares; a música popular, seus instrumentos como a rabeca e seus artistas, como Ednardo. 

Foi o biógrafo e estudioso da obra de Patativa do Assaré, a quem dedicou inúmeros escritos e de quem reuniu e publicou parte da obra poética. Mas também deu visibilidade e dignidade acadêmica a artistas como Noza, Severino do Horto, Expedito, Moisés Matias de Moura, Rangel, Manoel Caboclo, Neco Martins. 

Foi um homem que dedicou a vida ao estudo e divulgação do que nomeava de mestres do povo, das artes da tradição, das tradições populares e da cultura cearense.

Foi também um estudioso e um crítico da propagada e do marketing veiculadas pelos meios de comunicação, notadamente da relação entre propaganda, discurso publicitário e linguagem regional, com destaque para a utilização da linguagem do cordel como veículo de propaganda comercial. 

Seu livro “O gerente endoidou: ensaios sobre publicidade e propaganda no Ceará” é uma referência na área. Foi também um estudioso da expressão gráfica popular e da televisão no estado do Ceará. Dedicou livros a importantes artistas cearenses, pouco abordados quando se trata das histórias das artes no país, como o pintor, desenhista e crítico de arte Estrigas (Nilo de Brito Firmeza) e o pintor, desenhista e gravador Antônio Bandeiras.

Esse intelectual tão importante era um homem gentil, de fala mansa, de cuja generosidade intelectual e pessoal muitos tiveram a felicidade de partilhar. Mas foi também um homem marcado pela injustiça e pelo preconceito. 

No voo que fizemos de Juazeiro do Norte a Fortaleza, retornando do evento em que estivemos juntos, recordo ele me falando de como o fato de ser um intelectual negro e homossexual lhe custou vivenciar muitas situações de discriminação e até gestos de agressão e violência simbólica. 

Talvez, por isso, tenha levado uma vida muito discreta, tenha construído um estilo de vida muito modesto e contido. Diferentemente do que era comum à sua geração, Gilmar de Carvalho nunca escondeu a sua condição de homossexual, sendo uma referência na cidade para quem queria pesquisar ou escrever sobre essa temática. 

Por ser um intelectual que representava uma minoria no campo da orientação sexual e a maioria discriminada dos afrodescendentes, vítimas do racismo estrutural da sociedade brasileira, Gilmar desenvolveu esse olhar de identificação e empatia com os homens e mulheres do povo, com aqueles que, mesmo deserdados da fortuna, vivendo na pobreza, não tendo pleno acesso ao mundo das letras eram capazes de criar e de inventar beleza, eram capazes de fazer da madeira, da cerâmica, do gesso, da pedra, do papel matrizes da criação e do trabalho artístico.

Rendo minha homenagem ao intelectual insubstituível, a pessoa do querido Gilmar de Carvalho, mais uma vítima inocente do genocídio em curso. Ele que um dia me presenteou com um verdadeiro tesouro, uma caixa com muitas de suas obras, todas dedicadas aquele que era seu admirador a distância e que se tornou seu amigo desde esse primeiro encontro, desde nossa primeira mesa juntos, desde aquela viagem onde partilhamos nossas vivências da homofobia acadêmica e intelectual, pequenas histórias de crueldade. 

Querido Gilmar, cordel, cordão e coração, todas as rabecas fazem um tirinete em sua homenagem. Fostes grande ao olhar para os pequenos gigantes da cultura do povo, fostes um mestre entre mestres, alguém que foi matriz e marco na vida de quem teve a sorte de te ler, de te ter como professor e orientador. 

Estás agora voando junto à ave da poesia, fazendo dupla e cantoria, por aí, nas terras e ares. Fica tudo que deixastes escrito, esses restos de munição, que sobreviverão a toda tentativa de queima de arquivo, pois tantos e plurais, não deixarão que tua presença se desvaneça entre nós.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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