Vítima de latrocínio inspira criação de escola filantrópica em Fortaleza com foco em mudar vidas

Escola Andrea Pescia está localizada no bairro Serrinha e transformou a dor de um luto em amor.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 07:58)
Legenda: Andrea Pescia, à esquerda, e atividades na escola que leva o nome do filantropo, à direita.
Foto: Arquivo pessoal/Kid Júnior.

O muro colorido apinhado de personagens da Turma da Mônica anuncia: ali funciona a Escola Filantrópica Andrea Pescia. Localizada no bairro Serrinha, em Fortaleza, poderia ser mais uma instituição de ensino, não fosse a história que carrega. Tornou-se testemunho de como o luto pode se transformar em amor ao próximo e, assim, mudar a realidade de centenas de crianças e famílias na periferia da cidade de forma gratuita.

A primeira parte dessa jornada é triste. Em 2001, após viagem a passeio à capital cearense, o italiano Andrea Pescia apaixonou-se tanto pelo lugar que resolveu ficar. Mais que isso: desenvolveu senso de acolhimento e voluntariado com fortalezenses, sobretudo crianças em situação de vulnerabilidade social. Havia carisma, entrega e amor, características logo absorvidas por todos. Um fato, porém, mudou tudo: durante assalto, Andrea foi assassinado.

A comoção geral chegou aos pais do jovem, que prontamente vieram de Pádua, na Itália, ao Brasil para cuidar da despedida do único filho. O relato poderia parar aqui, mas ganhou novo capítulo quando o casal decidiu transformar a narrativa. Torná-la carinhosa.

O pai, Bruno Pescia, ao refazer os passos de Andrea, visitou comunidades carentes da cidade e quis imprimir os gestos do rebento nelas. Foi como criou a Associação Italiana Andrea Pescia.

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A instituição tornou-se mantenedora de uma entidade, o Centro Comunitário Vila Garibaldi, onde Bruno conheceu aquela que viria a seguir com o legado de altruísmo e beleza semeados por Andrea e já cultivado pela própria senhora desde 1994.

Maria Auremir Medeiros Almeida, hoje com 75 anos, assumiu como bandeira da existência o trabalho comunitário, e imediatamente tomou para si a missão de perpetuar o legado de Pescia, tão afeito ao dela.

Na imagem, fotografia em plano médio mostrando um homem jovem sorrindo abertamente enquanto segura uma criança pequena no colo. O homem tem cabelos escuros presos para trás, barba rala e veste uma camiseta azul com a estampa do logotipo da Tommy Hilfiger no peito. A criança, à esquerda, é uma menina loira com cabelos cacheados e volumosos, vestindo uma regata clara. O fundo está escuro e desfocado, sugerindo um ambiente noturno ou interno com pouca iluminação.
Legenda: Andrea Pescia com o filho, André, no começo dos anos 2000.
Foto: Arquivo pessoal.

“De repente, toda aquela dor da perda dele foi transformada em amor pelas crianças atendidas na escola desde 2009, quando ela foi fundada”, celebra a diretora da instituição. Por sinal, sempre que retorna ao Brasil, Bruno Pescia nunca deixa de visitar o lugar – o financiamento das atividades é por conta dele e da família, além de contar com subsídios da Prefeitura de Fortaleza – e vibrar pelos feitos. 

Escola atende crianças na primeira infância e conta ainda com atividades no contraturno, como reforço, futebol e balé.
Legenda: Escola atende crianças na primeira infância e conta ainda com atividades no contraturno, como reforço, futebol e balé.
Foto: Kid Júnior.

São muitos, a começar pelo modo como ele é chamado pelos pequenos: “Nonno” – “avô”, em italiano. Depois, tem a coisa bonita da aderência geral da população do entorno onde a escola está. Famílias que celebram a dedicação da instituição em prover o melhor aos pequenos.

Não à toa, esses próprios familiares também oferecem ajuda ao núcleo gestor – mediante campanhas, bingos e rifas – para que tudo continue funcionando em ordem. 

220 crianças são impactadas pelo trabalho da escola.
Legenda: 220 crianças são impactadas pelo trabalho da escola.
Foto: Kid Júnior.

“A gente atende crianças de dois a cinco anos de idade. Quando completam seis anos, elas vão para a escola pública e, no contraturno, voltam para cá pra fazer reforço, futebol, balé e outras atividades. Aqui, recebem lanche e almoço, pela manhã, e lanche e jantar, à tarde”, descreve a diretora.

Além disso, o projeto oferta suporte especializado para crianças neurodivergentes, servindo como porto seguro contra a vulnerabilidade social e a violência.

Acolhimento é prática essencial da instituição, tanto para as crianças quanto para seus familiares.
Legenda: Acolhimento é prática essencial da instituição, tanto para as crianças quanto para seus familiares.
Foto: Kid Júnior.

Todos são acolhidos com muito amor e diversidade educacional. As professoras são preparadas – têm curso de pós-graduação na área da neurodivergência – e isso só reforça a qualidade do acompanhamento. Essa é a diferença da nossa escola para outras: aqui, a criança aprende não somente o conteúdo, mas a viver”.

Cada experiência testemunhada pelas paredes do lugar comprova a tese. Em uma delas, uma criança, no instante de oração realizado pela escola, disse que não agradeceria a Deus naquele dia porque tinha vindo para a aula sem almoçar.

Sem demora, professores a chamaram para conversar, compreenderam toda a questão e acabaram fornecendo almoço não apenas para o estudante, mas para todos os membros da família dele.

Escola está localizada no bairro Serrinha, em Fortaleza.
Legenda: Escola está localizada no bairro Serrinha, em Fortaleza.
Foto: Kid Júnior.

Outro indício da luminosidade da instituição é o fato de acolher pessoas da própria comunidade, outrora estudantes da escola, para atuar como professoras, cozinheiras e no almoxarifado, transformando muitas vezes a trajetória de quem poderia seguir outros rumos na vida. Resultado: 220 crianças impactadas pela ternura.

Maria Auremir Medeiros Almeida, diretora da escola.
Legenda: Maria Auremir Medeiros Almeida, diretora da escola.
Foto: Kid Júnior.

Se a questão for os sonhos para o lugar, dona Auremir – carinhosamente chamada de Vovó Mimi – é ágil: “Que a Prefeitura nos doasse um terreno para construirmos uma escola maior e, assim, acolher mais crianças, passando também a atuar no Ensino Fundamental”.

Por sua vez, sobre o amor, não duvida: “É formado de lágrimas e de risos. Na hora que a gente partilha o sofrimento, também partilhamos o progresso, a alegria”.

O próximo passo desse amor será quando, ainda neste ano, André, o filho de Andrea Pescia, visitará mais uma vez a escola, diminuindo a distância entre passado, presente e futuro. Jeito valioso de afirmar, com todas as letras, que amar, além de doação, é deixar legado. “Às vezes, sinto que mais recebo mais do que dou”.


Esta é a história de amor de Andrea Pescia pelo voluntariado e como esse amor fecundou a Escola Filantrópica Andrea Pescia. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.

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