Vítima de latrocínio inspira criação de escola filantrópica em Fortaleza com foco em mudar vidas
Escola Andrea Pescia está localizada no bairro Serrinha e transformou a dor de um luto em amor.
O muro colorido apinhado de personagens da Turma da Mônica anuncia: ali funciona a Escola Filantrópica Andrea Pescia. Localizada no bairro Serrinha, em Fortaleza, poderia ser mais uma instituição de ensino, não fosse a história que carrega. Tornou-se testemunho de como o luto pode se transformar em amor ao próximo e, assim, mudar a realidade de centenas de crianças e famílias na periferia da cidade de forma gratuita.
A primeira parte dessa jornada é triste. Em 2001, após viagem a passeio à capital cearense, o italiano Andrea Pescia apaixonou-se tanto pelo lugar que resolveu ficar. Mais que isso: desenvolveu senso de acolhimento e voluntariado com fortalezenses, sobretudo crianças em situação de vulnerabilidade social. Havia carisma, entrega e amor, características logo absorvidas por todos. Um fato, porém, mudou tudo: durante assalto, Andrea foi assassinado.
A comoção geral chegou aos pais do jovem, que prontamente vieram de Pádua, na Itália, ao Brasil para cuidar da despedida do único filho. O relato poderia parar aqui, mas ganhou novo capítulo quando o casal decidiu transformar a narrativa. Torná-la carinhosa.
O pai, Bruno Pescia, ao refazer os passos de Andrea, visitou comunidades carentes da cidade e quis imprimir os gestos do rebento nelas. Foi como criou a Associação Italiana Andrea Pescia.
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A instituição tornou-se mantenedora de uma entidade, o Centro Comunitário Vila Garibaldi, onde Bruno conheceu aquela que viria a seguir com o legado de altruísmo e beleza semeados por Andrea e já cultivado pela própria senhora desde 1994.
Maria Auremir Medeiros Almeida, hoje com 75 anos, assumiu como bandeira da existência o trabalho comunitário, e imediatamente tomou para si a missão de perpetuar o legado de Pescia, tão afeito ao dela.
“De repente, toda aquela dor da perda dele foi transformada em amor pelas crianças atendidas na escola desde 2009, quando ela foi fundada”, celebra a diretora da instituição. Por sinal, sempre que retorna ao Brasil, Bruno Pescia nunca deixa de visitar o lugar – o financiamento das atividades é por conta dele e da família, além de contar com subsídios da Prefeitura de Fortaleza – e vibrar pelos feitos.
São muitos, a começar pelo modo como ele é chamado pelos pequenos: “Nonno” – “avô”, em italiano. Depois, tem a coisa bonita da aderência geral da população do entorno onde a escola está. Famílias que celebram a dedicação da instituição em prover o melhor aos pequenos.
Não à toa, esses próprios familiares também oferecem ajuda ao núcleo gestor – mediante campanhas, bingos e rifas – para que tudo continue funcionando em ordem.
“A gente atende crianças de dois a cinco anos de idade. Quando completam seis anos, elas vão para a escola pública e, no contraturno, voltam para cá pra fazer reforço, futebol, balé e outras atividades. Aqui, recebem lanche e almoço, pela manhã, e lanche e jantar, à tarde”, descreve a diretora.
Além disso, o projeto oferta suporte especializado para crianças neurodivergentes, servindo como porto seguro contra a vulnerabilidade social e a violência.
“Todos são acolhidos com muito amor e diversidade educacional. As professoras são preparadas – têm curso de pós-graduação na área da neurodivergência – e isso só reforça a qualidade do acompanhamento. Essa é a diferença da nossa escola para outras: aqui, a criança aprende não somente o conteúdo, mas a viver”.
Cada experiência testemunhada pelas paredes do lugar comprova a tese. Em uma delas, uma criança, no instante de oração realizado pela escola, disse que não agradeceria a Deus naquele dia porque tinha vindo para a aula sem almoçar.
Sem demora, professores a chamaram para conversar, compreenderam toda a questão e acabaram fornecendo almoço não apenas para o estudante, mas para todos os membros da família dele.
Outro indício da luminosidade da instituição é o fato de acolher pessoas da própria comunidade, outrora estudantes da escola, para atuar como professoras, cozinheiras e no almoxarifado, transformando muitas vezes a trajetória de quem poderia seguir outros rumos na vida. Resultado: 220 crianças impactadas pela ternura.
Se a questão for os sonhos para o lugar, dona Auremir – carinhosamente chamada de Vovó Mimi – é ágil: “Que a Prefeitura nos doasse um terreno para construirmos uma escola maior e, assim, acolher mais crianças, passando também a atuar no Ensino Fundamental”.
Por sua vez, sobre o amor, não duvida: “É formado de lágrimas e de risos. Na hora que a gente partilha o sofrimento, também partilhamos o progresso, a alegria”.
O próximo passo desse amor será quando, ainda neste ano, André, o filho de Andrea Pescia, visitará mais uma vez a escola, diminuindo a distância entre passado, presente e futuro. Jeito valioso de afirmar, com todas as letras, que amar, além de doação, é deixar legado. “Às vezes, sinto que mais recebo mais do que dou”.
Esta é a história de amor de Andrea Pescia pelo voluntariado e como esse amor fecundou a Escola Filantrópica Andrea Pescia. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.