Cearense reúne em casa 141 mil itens antigos sobre Fortaleza e o Brasil por amor à memória
Jornalista Nirez acumula raridades no próprio museu e se diz ‘maníaco por coleções’.
É injusto chamar de casa o imóvel na Rua Professor João Bosco, 560. Trata-se de um museu de um homem só: o jornalista, colecionador e pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo. Conhecido por Nirez, é nesse recanto no bairro Rodolfo Teófilo, em Fortaleza, que ele reúne volumoso resultado do amor nutrido pela memória. Carinho longo e antigo.
São mais de 141 mil itens, dispostos entre diferentes cômodos e categorias. Cada relíquia – de discos de vinil a gramofones, passando por coleção de perfumes, caixas de fósforo, lápis, canetas, entre outros – desafia o componente individual do lugar. Tornam-se herança de uma cidade.
“A história de Fortaleza chegou na minha cabeça aos poucos, gradativamente”, inicia o memorialista, mente fresca e lúcida aos 92 anos de idade.
No alvorecer da infância dele, o pai – o fotógrafo, pintor e poeta Otacílio Ferreira de Azevedo (1892-1978) – levava-o pela mão para onde ia. Os caminhos eram valiosos: Praça do Ferreira, Praça José de Alencar, Rua Major Facundo, todo o centro histórico da Capital. “Ele tinha muitos amigos. Passava por um e conversava por 10 minutos; dava dois passos e encontrava outros, e assim ia. Eu ouvia essas conversas e via as coisas”.
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Ao completar 20 anos de idade, em 15 de maio de 1954, o próprio Nirez tomou decisão a partir desse apreço pelo que observava: ele mesmo iria alavancar coleções. Discos de vinil foram o primeiro alvo; junto a eles, dada a curiosidade em saber o rosto dos artistas que tanto embalavam os dias, vieram fotografias, revistas, jornais e toda a riqueza contida neles – incluindo diversos registros de uma Fortaleza de tempos ainda mais remotos.
“Quando eu tinha número suficiente de fotos, comecei a guardá-las por logradouros, pra ficar mais fácil de encontrar. E meu pai sempre me ensinando. Muitos endereços eu já sabia, outros fui conhecendo a partir dali”, recorda.
Não sem motivo, dois anos depois, Nirez passou a colaborar como autor de textos para jornais da Capital com temas sobre História, Memória e Cidade. Na sequência, começou a formar, em casa, o que hoje intitula "Arquivo Nirez".
Ao longo dessas e das décadas vindouras, o pesquisador se valeu do contato com pessoas da cidade, do Estado e de todo o País para fortalecer o acervo – ora no esquema de compra e venda, ora no sempre bem-vindo escambo.
Discos raríssimos de Carmen Miranda, Vicente Celestino e Augusto Calheiros, por exemplo, dividem espaço com elegantes gramofones e jóias do quilate de uma câmera fotográfica datada de 1918.
Tudo é encontrado de modo rápido e fácil por alguém que precisou se adaptar ao avanço da tecnologia no tracejar do tempo. Fichas catalográficas, antes escritas à mão, há anos ocupam pastas e pastas nos computadores do escritório em que, além de pesquisar e atualizar o acervo, Nirez também se dedica, feito o pai, à pintura, à leitura e a outras atividades.
“Trabalhei no Dnocs [Departamento Nacional de Obras Contra as Secas] durante mais de 20 anos. Era desenhista. Primeiro fui desenhista publicitário, depois fui desenhista técnico. Foi durante esse tempo lá que eu também me tornei jornalista”, elenca. “Com o tempo, ajustei a casa e derrubei paredes pra ter mais espaço pro museu. Além de receber pessoas e dar entrevista, tenho ainda outros afazeres: escrever, organizar, analisar, digitalizar”.
Sim, há muito o que se fazer. Para se ter ideia, o patrimônio memorialístico do estudioso, já grande, cresceu ainda mais quando a emissora de rádio Uirapuru resolveu atualizar a própria discoteca com LPs, e passou adiante os discos de 78 rotações. Veio tudo para Nirez.
Outra aquisição de peso envolveu imagens históricas de Fortaleza e municípios do Ceará quando o estúdio fotográfico Abafilm se desfez dos arquivos da sede no centro da Capital.
Tanto conhecimento gerou resultados profundos. Nirez assina, com outros três pesquisadores – Alcino Santos, Grácio Barbalho e Jairo Severiano – os cinco volumes do livro “Discografia Brasileira – 78 rpm: 1902-1964", publicado em 1982 pela Funarte. Até hoje é maior referência para pesquisadores e interessados no assunto.
Além disso, ao longo da vida, recebeu diversas distinções importantes, entre elas o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e o Troféu Sereia de Ouro.
Se você questionar a ele qual o item mais valioso da coleção, a resposta é rápida: “Encaro tudo na mesma altura. Mas existe uma coisa na fotografia e na gravação de música que se equivale: você bate uma foto e nunca mais vai bater outra igual. A gravação original de um disco também ninguém repete. Essa coisa da exclusividade, de algo ser tão único a ponto de não se repetir mais, é o que explica meu amor pela memória”.
Amor que se multiplicou em legado humano. Do enlace com Maria Zenita de Sena Rodrigues, companheira e incentivadora, nasceram a bibliotecária Terezinha de Azevedo, o radialista e técnico de som Otacílio de Azevedo Neto – responsável pela digitalização de todo o acervo sonoro do pai –, o escritor Nirez de Azevedo e Mário de Azevedo. São eles que transmitirão às próximas gerações o espólio sentimental e intelectual do patriarca.
Algo que Fortaleza toda pode conferir de duas formas: agendando visita ao Arquivo Nirez mediante contato com o equipamento por meio do e-mail arquivonirez@gmail.com; e por meio de duas exposições em cartaz neste momento.
Na Caixa Cultural, está “Fortaleza por Otacílio de Azevedo e Nirez”, com visitação até 25 de outubro; no Museu da Imagem e do Som, “Arquivo Nirez no MIS CE”. Em ambas, um trajeto visual pela Capital e pela saudade.
Mais que isso: pelo gênio criativo e agregador de alguém que se autodefine “maníaco por coleções”. E que, frente à autoridade que possui, explica a relação do fortalezense com a memória. Algo em diálogo com um componente histórico e social.
“Existem pessoas de boas intenções na cidade mas, muitas delas, vieram de outras terras. Quem vem de outras terras não ama Fortaleza. Quem vem do interior do Estado também não ama. As lembranças delas ficaram em Aracati, em Sobral, no Juazeiro, no Iguatu etc. Acho que Fortaleza não guardou a própria memória por conta disso. As pessoas fugindo da seca vieram para a Capital e, aqui, aqueles que podiam adquiriram bens. Os que não podiam foram pros campos de concentração. Como é que esse pessoal podia ter amor por Fortaleza?”, diz.
“Mas Fortaleza andou. Hoje, as autoridades têm leis de tombamento para proteger o passado recente – já que aquele, colonial, nós derrubamos tudo. É preciso estar imbuído do sentimento de preservação. Pena que existe muita falha, como existem em outras áreas. Quando dá fé, entra um sujeito e autoriza um derrubamento que não devia ter autorizado, e assim por diante. Outro se vende, faz olho cego e acontece o pior”.
Da parte de quem se apaixona todo dia pelos vestígios da História, a defesa pelo sublime continua. Prossegue com a graça de quem sabe ser isso maior que o tempo. “Quando mando um e-mail pra alguém, tem uma frase na assinatura: ‘A saudade mostra que valeu a pena’. Você só tem saudade do que gostou. Quero continuar encaminhando tudo isso”.
Esta é a história de Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, pela memória. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.