Lugares de Fortaleza que não existem mais e permanecem em memórias

Praça, escola, locadora e até pizzaria que já não estão mais nas ruas da cidade ainda fazem parte do que guardo nas lembranças.

Escrito por
Dahiana Araújo dahiana.araujo@svm.com.br
Legenda: Imagem da antiga Praça da Estação, na década de 1908, em Fortaleza.
Foto: Ari Lago\Arquivo Diário do Nordeste

Coleciono recordações como quem guarda histórias orais contadas na infância: cravadas na memória. Vez ou outra busco página em branco para transbordar, quando algumas das minhas lembranças chegam sem avisar, como aconteceu há poucos dias ao atravessar a Av. Sargento Hermínio, em Fortaleza, minha terra. 

A via é um lugar que na infância e adolescência muito atravessei a pé ou de bicicleta, e onde hoje constantemente trafego pra chegar e dar 'à bença' mãezinha e paizinho. Às vezes passo devagar frente a alguns espaços que me recordam a infância, como o Polo de Lazer - este ainda resiste, dentro e fora de mim. Mais à frente, porém, há um supermercado erguido em um espaço no qual, em plena década de 1990 foi um dos meus lugares favoritos. 

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A Mel’s Pizzaria (não lembro bem se a grafia correta é essa, mas assim está na parede da memória) era um estabelecimento gigante pra uma criança entre seus 8 ou 9 anos como eu. Era local agitado e tinha umas mesas coloridas com poltronas de plástico que pareciam sofás de brinquedo - pelo menos é disso que recorda minha lembrança. 

O lugar era protagonista nas promessas de minha mãe: “se der tudo certo, a gente vai pra Mel’s Pizzaria no fim de semana”; “Se vocês se comportarem, vamos todos pra Mel’s Pizzaria”. Nem sempre a gente se comportava, mesmo assim dava tudo certo, por isso fomos muitas vezes pra lá. Mãe, irmã e irmão. Pizza, refrigerante, diversão. Amor compartilhado. Mãe heroína. Crianças felizes! 

Assim como recordo-me com gosto doce de alegria daquele lugar, também permanece viva em minha mente a Praça da Estação, oficialmente chamada de Praça Castro Carreira, no Centro da Cidade. O antigo terminal de ônibus, antes de dar lugar à Estação das Artes, foi palco de uma de minhas travessuras: pegar um ônibus sozinha pela primeira vez, sem ninguém saber, para ir à escola  - e, claro, não conseguir chegar.  

Me perdi em plena Praça da Estação aos 9 anos de idade, e como coragem sempre foi meu lema de infância, não deu tempo sentir medo. Antes de buscar ajuda, fiquei maravilhada por descobrir até onde ia o ônibus do meu bairro antes de começar uma nova viagem. “Fim da linha era parar naquela praça”, finalmente eu entendi a expressão! Liberdade talvez tenha sido meu nome naquele dia. 

Depois deu tudo certo, pedi ajuda e cheguei rapidinho em um lugar que também já não existe mais: o Colégio Champagnat, que funcionava na Av. General Sampaio. Lá cursei 3ª e 4ª séries do ensino fundamental. Era a primeira grande escola onde estudei depois de passar por colégios menores de bairro. "Tão longe assim que precisa pegar ônibus?" Isso já era uma grande aventura aos 9 aos anos. 

Fui incansavelmente feliz nos recreios do pátio; audaciosa ao me candidatar a líder da escola - eleição que perdi nos votos, mas ganhei em atrevimento; e agradavelmente satisfeita nas tardes de trabalho para a feira de ciências, onde eu construí um sistema solar todo de isopor - depois de quebrar a matéria-prima principal dentro da então linha de ônibus Santa Maria Bezerra de Menezes. 

Heranças daquela escola até hoje vivem em minha mente: Tia Marta, professora de Matemática, e Tia Márcia, de Estudos Sociais. A primeira, embora fosse dos cálculos, fez-me decorar uns versos que guardo até hoje comigo - falam sobre fé, amor e silêncio. A segunda deu alguns jeitinhos pra que minha quadrilha de São João fosse um sucesso. Dia perfeito! 

Anos mais tarde. Nova fase da vida, outros cenários. A vida levou-me 3 ou 4 vezes ao Kant Bar, na Avenida Bezerra de Menezes. Quem me conhece sabe que amo cantar, agora imagine fazer isso cercada de amigos, aos vinte e tantos anos, em plena madrugada, para encerrar uma balada num bar com karaokê e sinuca, e cerveja, claro.

O Kant Bar já foi cenário de farra para curar dor de cotovelo, celebrar aniversários e até uma das despedidas que fiz de Fortaleza. Fui embora da cidade somente depois de dar um até breve em canção, e quando retornei à cidade, suas portas já estavam fechadas. Apesar de ter sido sempre conhecido como “fim de farra”, o Kant Bar foi certeiro em superar as expectativas, até porque cantar sempre curou meus males.

Interior da loja King Video durante a inauguração, em 1997. Pessoas observam prateleiras com fitas de vídeo e produtos em um ambiente comercial com balcão e equipamentos ao fundo.
Legenda: Inauguração de uma das locadoras King Vídeo em Fortaleza, na década de 1990.
Foto: Joao Justino\Arquivo Diário do Nordeste

Há muitos outros lugares de Fortaleza ausentes dos espaços físicos, no entanto, ainda presentes em minha memória, como as saudosas locadoras King Vídeo e Distrivídeo, onde aluguei algumas dezenas de vezes o mesmo filme: “10 coisas que eu odeio em você”, para ver Julia Stiles sendo revolucionária e clichê. O tempo nos salva!
 

Reviver a concretude da terra natal é também reconstruir-se entre espécies de autobiografias - e quem mais sabe de nós senão nós mesmos? Lugares nos narram porque simbolizam fragmentos do que fomos e existir inclui experimentar momentos, mas também memoriar a vida. 

Conhecer e vivenciar a cidade é uma forma de também compreender-se e dialogar com quem fomos, refletir sobre a urbe que conhecemos, lidamos, queremos, sonhamos. Estar em Fortaleza, há tempos, tem sido também escolha e, assim como acreditam algumas teorias da memória, os lugares nos marcam, porque nossas memórias sempre serão coletivas, vividas em grupos, experimentadas ao habitar espaços - e alguns deles tornam-se infinitos.