Por que ainda vale ler ‘Grande sertão: veredas’ 70 anos depois do lançamento original

Reedição da obra contou com depoimento de escritores como Itamar Vieira Junior, Mia Couto e Ana Martins Marques.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
Legenda: "Grande Sertão: Veredas" já contou com diversas edições ao longo das últimas décadas.
Foto: Divulgação/Companhia das Letras.

Estava em uma sala de aula quando me deparei com “Grande sertão: veredas” pela primeira vez. Meu professor de literatura da época, Lourenço Becco, buscava mostrar a beleza e a riqueza das obras brasileiras. De todos os livros que nos apresentou com paixão, o sertão de João Guimarães Rosa parecia ser envolvido por um fascínio especial.

Talvez não escapou ao arroubo que a experiência dessa leitura causa naqueles que o leem. Há um motivo para esse clássico brasileiro seguir ecoando, sempre com uma nova força, mesmo após 70 anos do lançamento, publicado originalmente em 1956 pela editora José Olympio.

Neste ano, ganhou uma versão especial e comemorativa pela Companhia das Letras. O projeto gráfico feito por Alceu Chiesorin Nunes, optou por deixar a costura à amostra. O livro ainda conta com depoimentos de diversos escritores, como Mia Couto, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques e Itamar Vieira Junior.

Imagem do livro Grande sertão: veredas, em novo projeto gráfico.
Legenda: O projeto gráfico foi feito por Alceu Chiesorin Nunes.
Foto: Divulgação/Companhia das Letras.

Para Érico Melo, doutor em literatura brasileira, responsável pela reedição da obra, o romance segue vivo através das distintas gerações de leitores porque se propõe a ser um símile do universo.

"Estruturado em múltiplas camadas alegóricas, o livro também é muitas outras coisas: tratado filosófico, atlas geográfico, experimento linguístico, ensaio sociológico, monólogo teatral, poema em prosa, alquimia da alma". 
Érico Melo
Doutor em literatura brasileira

Travessia pelo sertão

Na obra, os leitores acompanham a travessia de Riobaldo pelo sertão. Ele, já envelhecido, recebe um visitante da cidade em sua fazenda e relembra dois ou três anos de suas aventuras enquanto jagunço no sertão de Minas Gerais. Érico destaca as proezas bélicas e as desventuras amorosas. 

"Setenta anos, depois ainda não conseguimos entender plenamente sua estrutura, seus metabolismo e sua capacidade de emocionar. Esse é seu mistério e sua forma de perdurar", afirma o pesquisador.

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E essa obra oferece ainda uma interpretação do Brasil e da brasilidade. Mesmo sendo uma história ambientada no sertão mineiro, ela consegue ecoar em outras partes do País

No Ceará, por exemplo, Érico cita que a vida dos jagunços de Rosa compartilha experiências dos cangaceiros do Nordeste.

"As armaduras de couro, a conhecimento minucioso do terreno, as táticas guerrilheiras, as escaramuças com as volantes policiais. Ao dizer 'o sertão é o mundo', Rosa unifica todos os povos sertanejos numa só nação literária".

Conselho para quem vai embarcar na primeira leitura

Pode causar um certo receio se deparar com a escrita de Guimarães Rosa. Cheio de palavras inventadas, parágrafos corridos e ausência de marcações de capítulos, ele é um desafio por sua estrutura. 

Por isso, Érico compartilhou a valiosa dica de consultar os mapas da travessia de Riobaldo. Isso porque as cartas geográficas ajudam a situar o universo da obra na bacia do Rio São Francisco e seus afluentes. 

"Também nunca é demais reiterar a importância de ler em voz alta as passagens mais difíceis – e, por que não?, todo o livro, como faz Caio Blat no audiolivro recém-lançado –, de modo a ressaltar a natureza eminentemente vocal e teatral do périplo riobaldiano".

Trecho do livro

"Algum dia, depois de hoje, hei de esquecer aquilo. Arruado que era até bem largo, mas mal se enxergavam aquelas casas. Ao demais rezando, ao real vendo - eu vim. (...) A reza ganharei com um fervor. Aquela travessia durou só um instantezinho enorme. Mesmo que os cavalos nossos indo íam devagar, que é como se vai, quando todos rezando sozinhos em cima deles, devagar duma procissão. Não se pertubou palavra".

Outras obras para enriquecer a leitura

Para os que se interessam em se aprofundar mais nesse universo de Guimarães, cabe a leitura de outras obras, como a primeira grande biografia do escritor. O livro passa pela infância de Guimarães em Cordisburgo, em Minas Gerais, até a súbita morte no Rio de Janeiro, em 1967. 

O volume publicado pela editora Nova Fronteira, com quase 800 páginas, é fruto de uma pesquisa cuidadosa e atenta do jornalista e historiador Leonencio Nossa. Para ir costurando essa vida tão plural, ele se amparou em documentos raros, depoimentos reveladores e mais de uma década de pesquisa. 

Há ainda o livro "Para ler Grande sertão: veredas", publicado pela Autêntica, que se debruça justamente sobre as páginas do romance. Nele, o crítico Italo Moriconi tenta decifrar o feitiço que ronda esse clássico, detalhando o enredo e as diversas particularidades da obra.

Imagem de livros que ajudam a desbravar a leitura de Grande Sertão: Veredas.
Legenda: Livros ajudam a entender a riqueza da obra de João Guimarães Rosa.
Foto: Divulgação.

Já para quem deseja se aprofundar nos bastidores da adaptação para a televisão, cabe buscar o livro "Diário do Grande Sertão". Nele, a atriz e escritora Bruna Lombardi, que interpretou Diadorim, atravessa o norte de Minas Gerais para percorrer o mesmo caminho que fez Guimarães Rosa durante a feitura do livro. 

Enquanto atravessa paisagens, a atriz compartilha impressões, sentimentos e reflexões sobre o clássico, considerando inclusive sua experiência durante as gravações.

Ao ser questionado sobre experiências de leituras que podem enriquecer a obra, Érico afirma que apesar de ser carregada de acontecimentos extraordinários, a biografia, por si só, ainda é incapaz de explicar a grandeza da obra de Guimarães. 

Ele sugere um outro caminho: "mergulhar na geografia, na botânica, na hidrografia, na geologia e na zoologia do sertão rosiano: quanto mais compreendermos os menores detalhes dos ambientes naturais descritos por Riobaldo, mas perto estaremos da metafísica e da transcendência".

Serviço

Livro "Grande sertão: veredas (Edição especial 70 anos)"
Quanto: R$ 209,90
Onde comprar: Companhia das Letras.

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