Quando a aceitação do outro se torna a perda de si
Há alguém a quem se teme, mas também de quem se espera amor e validação.
Quando escrevemos, o fazemos para alguém, no desejo de que nos leiam e possam pensar ou sentir algo a partir do percurso da escrita. Semana passada, um interlocutor querido, Reginilton, através do programa "Bom Dia Nordeste", brilhantemente apresentado por Daniella de Lavor na Verdinha FM, me propôs uma pergunta que dá origem ao texto da coluna dessa semana.
É uma pergunta complexa, densa e que alicerça os fundamentos de como nos constituímos enquanto sujeitos. No início da vida, estamos em desamparo profundo e seremos sustentados psíquica, física e socialmente por aqueles que irão se dispor a cuidar de nós. Neste momento, nossa existência encontra-se alienada ao desejo do outro.
Ainda não nos pertencemos, ainda não falamos, ainda não temos controle sobre nosso corpo, ainda nem integramos o corpo com nossa mente, ainda não temos amigos e nenhuma independência. O que sabemos do mundo depende daquilo que quem cuida de nós irá nos apresentar.
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À medida em que nos desenvolvemos, vamos nos percebendo, descobrindo que temos uma existência própria e construindo pequenas diferenciações de quem nos cerca. Existir se torna pertencer e se diferenciar, feito uma dança que se perde somente quando o desequilíbrio entre uma ponta ou outra se exacerba.
Se tudo der certo, conseguiremos ser capazes de nos perceber, nos escutar, produzir nossos desejos e constituir as fronteiras entre o que nos pertence e aquilo que é do outro; seremos capazes de negociar, colocar limites, dizer não, acatar quando o outro tem razão, identificar nossas emoções, negociar que nem tudo será como desejamos, tolerar frustrações, sustentar o laço social, perceber o que nos violenta, maltrata, buscar ajuda quando não conseguirmos nos proteger e cuidar sozinhos, e principalmente, entender que não somos posse do outro e que podemos desagradar e frustrar sem significar perda do amor nem do nosso valor.
No entanto, diante de um ambiente onde impera a tirania do desejo do outro, a violência, a manipulação, o medo da rejeição, do abandono, o autoritarismo, a chantagem, a ameaça, o conflito se torna inadmissível, porque escalona das ideias para a violência física e as fantasias de abandono se tornam reais.
Em ambientes assim, torna-se muito difícil discordar, perceber o próprio valor, confiar e apossar-se dos próprios desejos. Esse sujeito fica então à deriva, orbitando em torno daquele diante de quem se submete, pois não considera ser capaz de sobreviver distante, não se considera portador de valor e nem de existência.
Para o outro, tudo - porque é grandioso, poderoso, valioso. Para mim, as migalhas, o que sobrar, uma vida na aceitação do resto, do que vale menos, pois o menos é a dimensão do meu valor.
A baixa autoestima alimentada pelo abandono, pela precarização da vida, pelas humilhações, pelos gritos, pelos açoites, ou pelas palavras que fulminam o respeito por si, transforma-se em algemas invisíveis que aprisionam o desejo de ter voz própria e desejo.
Nesta dinâmica, o sujeito se rende ao outro, aceita tudo o que o outro diz, se diminui e se perde. O outro se torna mestre, algoz, alguém de quem se teme, mas também alguém de quem se espera amor, e validação - e sem o qual se acredita não ser possível sobreviver, em uma revivência e manutenção da dependência infantil e na sustentação de aspectos sadomasoquistas.
O amor por si necessita de voz, ser visto, necessita de construção e respeito. Quando no início isso não existiu, ainda temos muitas oportunidades. Elas podem ser dada pelas políticas públicas, por relações íntimas amorosas, por amizades, por ambientes de trabalho e até pela constatação da necessidade de ousar romper para se preservar…
Porém, quando o continuum da existência é a elegia do silenciamento e da submissão, seja à lideranças autoritárias, ou a relacionamentos que se alimentam da repetição da submissão, o preço torna-se muito alto, pois o pagamento da ilusão das submissões é o desaparecimento de si, daquilo que poderia ter sido e não foi, uma pessoa que poderia sonhar, amar, desejar, mas não teve a chance de ser.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.