Esposa não é mãe do esposo

As palavras indicam o lugar do desejo, da dinâmica da relação e de quem vai com você para a cama.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Muitas mulheres se sentirão infelizes porque desejarão mais do que podem viver, e podem ser julgadas e culpadas por isso.
Foto: Gary Barnes/Pexels.

Um dos efeitos do machismo é a ideia de que as mulheres devem servir e estar à disposição do homem, sempre em posição inferior e submissa às vontades. Tal construção não se deu ao acaso.

Inicialmente, o patriarcado necessitava controlar os corpos femininos para garantir a manutenção do patrimônio, a permanência das terras na família, a transmissão aos herdeiros, e a partir disso, outras necessidades de poder.

O respectivo controle ajudou a construir as próprias instituições que definiam quem poderia casar, estudar, votar, ter direitos, trabalhar e decidir sobre o próprio corpo, baseado no fortalecimento da autoridade masculina.

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Assim, o controle do corpo, da reprodução, da propriedade, da herança e do trabalho doméstico passa a organizar e construir a sociedade, entrelaçando-se à organização da propriedade, da herança, do trabalho, da família e do poder com a sexualidade e a política. 

Neste contexto, segundo Maria Lugones, articular-se-á ainda gênero, raça e colonialidade na modernidade. Pois, além de pensar sobre como os homens passaram a controlar as mulheres, é preciso entender que existiram diferenças entre as mulheres e os tipos de controle a que foram submetidas, visto que uma mulher branca europeia, uma mulher indígena e uma mulher negra escravizada, por exemplo, não foram submetidas ao mesmo regime de controle corporal.

Isso torna o corpo também um território racial com implicações sobre o que será  destinado às mulheres e mães negras. 

Essa articulação, que envolve também religiões e sistemas morais, passa a ditar o que pode e o que deve uma mulher e a produzir um discurso sobre o que seria "uma mulher respeitável", pautando formas de comportamento que enfatizam o lugar da mulher restrita à casa e para cuidar da família e dos filhos. 

Assim, a família patriarcal não se estruturou somente por questões afetivas, mas historicamente como uma instituição econômica e de poder; pois, ao definir o lugar de homem como provedor e a mulher como esposa, mãe e cuidadora, estruturam-se relações assimétricas de autoridade que terão efeitos sobre a dinâmica afetiva das relações: quem pode sair, quem ficará em casa, o que será permitido aos homens,  o que será permitido às mulheres, os julgamentos e as culpas.

Quando os homens ficam no lugar de provedor e as mulheres somente de mães e no espaço familiar, elas ficam afastadas de determinados espaços públicos, como a política, a educação, o acesso a bens e propriedades, ou seja, o controle do corpo também controla o acesso da mulher à participação social.

Desta maneira, muitas mulheres foram sendo "encaixotadas" nesse lugar que esquarteja o corpo feminino; como se o corpo da esposa fosse o da mãe, não somente dos filhos, mas do próprio esposo. 

Sob esta ótica, a mulher desloca-se do lugar de desejo e erotização e passa a ocupar o lugar daquela que irá cuidar da saúde, da roupa, da comida, da limpeza, como uma substituta da mãe, deixando o corpo erótico para outras mulheres, fora do casamento.

Quando a esposa se torna mãe do esposo, as cobranças são pela comida, pela feira, pela roupa limpa, pela casa arrumada, pelas educação dos filhos, pela obediência, para que esteja sempre disponível.

Para que faça companhia como um adereço, como uma mãe que precisa estar disponível para um homem adulto, geralmente sem habilidades emocionais nem percepção refinada de desejos, ausente de interesse pelo desejo no outro, na busca apenas da própria satisfação dos desejos e em uma postura infantilizada diante de uma mulher vista como cuidadora da casa, dos filhos e dele próprio.

Infelizmente, algumas mães reproduzem na educação das filhas os padrões internalizados pela cultura, pela educação e pela reedição das repetições de submissão e sofrimento, formando homens e mulheres identificados com essa cultura patriarcal.

Essa dissociação - das mulheres que serão mães, esposas e das que exercerão a sexualidade - cria armadilhas profundas para homens e mulheres. Os homens porque acham que não precisarão desenvolver recursos emocionais e poderão se portar de forma infantilizada, mesmo quando casados e pais, destinando a sobrecarga da família apenas para as mulheres, as quais, além de criarem os filhos, terão que "criar" os próprios esposos. 

Muitas mulheres se sentirão infelizes porque desejarão mais do que podem viver, e podem ser julgadas e culpadas por isso: por não se contentarem com uma vida para o "lar".

Quando os homens buscam uma mãe, esperam compreensão infinita, agrados e submissão permanente e sacrificam o desejo e o erotismo na relação, inúmeras vezes envidando esforços mais para agradar amigos que as esposas.

Desejam uma mulher que lave, cozinhe, não reclame, cuide, compreenda, aceite tudo, suporte as irresponsabilidades, e ame incondicionalmente, sem críticas,  reclamações, nem demandas.

Se a esposa for vista como mãe do esposo, não tem jantar romântico, viagens a dois,  não há participação com iguais responsabilidades na educação e cuidado dos filhos, não há interesse em seduzir, cuidar de forma recíproca e agradar a esposa, e prevalece a tendência de reproduzir as demandas e carências destinadas à mãe, que mobilizam ambivalências, repressões, perde a parceria adulta, fortalece a assimetria de poder e esfriam a relação sexual.

Por isso, preste muita atenção antes de chamar o seu amor de "paizinho" ou de "filhinho" ou de aceitar ser chamada de "mãe" ou "filha" pelo seu esposo,  pois as palavras indicam o lugar do desejo, da dinâmica da relação e de quem vai com você para a cama.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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