Os acumuladores emocionais e os compulsivos: a necessidade de aprender a se libertar

Geralmente esse comportamento gera tristeza, solidão, ansiedade, e em alguns casos depressão

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Os acumuladores compulsivos possuem uma necessidade intensa, forte e persistente de guardar objetos independente do seu valor financeiro.

Ao longo da vida construiremos relações com os objetos: ideias, sentimentos, memórias, experiências. Alguns objetos serão simbólicos, imateriais, outros possuirão materialidade. A forma como transitaremos entre o que guardaremos internamente e aquilo que conseguiremos oferecer aos outros dimensionará a trajetória dessas relações com os objetos, as fantasias que eles carregam e o que representam em nós. 

A realidade é sempre recortada pelas nossas fantasias, feito um filtro composto por desejos, deslocamentos e condensações, construímos olhares sobre o mundo a partir daquilo que nos habita. Desta forma, um objeto que pode parecer sem valor material ou sem significado para uma pessoa, pode ser o depositário de um vínculo profundo com pessoas queridas ou um representante da sua sensação de proteção e segurança ou depositário de aspectos do próprio eu.

O fato é que muitas vezes torna-se um enigma saber o que um determinado objeto, seja uma ideia, uma pessoa, ou uma coisa pode representar no aparelho psíquico de alguém. Algumas pessoas apegam-se a ideias de forma tão ferrenha como se aquilo compusesse sua própria razão de ser, outras destinam para  objetos a sensação de controle ou afeto nas suas vidas. 

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Educação rigorosa com pouca expressão de afeto, medo do julgamento alheio, cobrança para não falhar e ter tudo sobre controle, rigidez, perfeccionismo, dificuldade em mostrar vulnerabilidade e em lidar com as emoções- o que pode levar a fugir e evitar conflito- são alguns dos aspectos relacionados com a acumulação. 

Os acumuladores emocionais costumam guardar as emoções,  pensamentos, buscam evitar conflitos e não partilham o que sentem. Geralmente esse acúmulo gera tristeza, solidão, ansiedade, e em alguns casos depressão. A sensação de solidão e vazio interfere nas relações e pode levar a um transbordamento com potencial para se expressar no corpo em forma de doenças psicossomáticas, explosões emocionais, problemas cardiovasculares e estafa mental.

Geralmente, a contenção emocional pode envolver a dificuldade de expressar, lidar com as emoções e o medo em como o outro irá acolher ou validar o que se sente. Ao não dizer o que sente e não resolver as situações quando elas acontecem, geralmente desenvolve-se a sensação de um constante "nó na garganta" que pode interferir no sono ou deixar pensamentos e emoções presentes por muito tempo repetindo na sua cabeça. 

Os acumuladores compulsivos possuem uma necessidade intensa, forte e persistente de guardar objetos independente do seu valor financeiro. O sujeito não consegue se desapegar dos seus pertences, ou pode viver angariando objetos encontrados nas ruas ou no entorno e levá-los para casa. Ao  não se desfazer, pode vir a ter inúmeras complicações: problemas de saúde, questões financeiras, dificuldades com vizinhos e conflitos familiares. 

A desorganização passa a ser expressão de questões mais sérias como quadros obsessivos e compulsivos. Ao pensar em se desfazer de algo, a ansiedade gerada pode ser tão intensa que desencadeia crises como falta de ar. Em algumas situações o comportamento acumulador surge como compensação diante de situações de perda, como uma forma de manter um controle ilusório sobre a posse do objeto perdido. Além disso, podem advir problemas financeiros decorrentes dos gastos desnecessários com a compra de objetos, que muitas vezes produzem culpa após a aquisição excessiva. 

A acumulação pode produzir vergonha em receber as pessoas em casa e denota a existência de imenso sofrimento psíquico. Não é somente uma diversão; a acumulação apresenta consequências graves para si e para os outros, com impactos na saúde coletiva quando se trata por exemplo, do acúmulo de animais sem adequadas condições de higiene e cuidados. Os cuidados podem envolver participação em grupos de apoio, psicoterapia, medicação, mudança no estilo de vida e ampliação da rede de suporte social.

Em um contexto que valoriza a acumulação de bens e recursos, que torna difícil lidar com perdas e manejar emoções, com elevados indicadores de violência e endurecimento de cobranças e planejamento de sucesso, os índices correlatos de sofrimentos psíquicos aumentam e torna-se fundamental perguntar: o que você deseja guardar quando guarda um objeto, qual memória ou afeto reside na fantasia daquele objeto, o que ele contém, que compensações oferece, que emoções você tem medo de enfrentar e expor? O que faz com o seu lixo interno? Como você lida com as perdas e o que você teme perder ao deixar ir aquele objeto? 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.