O município de Paraipaba, a 100 quilômetros (km) de Fortaleza, completará 40 anos de emancipação em fevereiro de 2025. Desde seu surgimento, a cidade no litoral oeste está intimamente relacionada com o desenvolvimento da cadeia produtiva do coco, o que levou o Ceará a se tornar o principal produtor nacional do fruto.

Mesmo assim, o cultivo do coco em Paraipaba é algo relativamente recente, e ainda foi beneficiado pelas condições climáticas e geográficas do município, como explica Jamison Moura, engenheiro-agrônomo, mestre em fitotecnia e especialista na cadeia produtiva do coco.

"A questão da Paraipaba é uma coisa cultural da região, porque lá tinha muito canavial, as empresas de cana quebraram e o pessoal foi para o coco por ser uma cultura mais rústica que aguenta mais estresses, como um solo com baixa fertilidade, além de ser uma região com muito vento e calor", defende.

Essa é a segunda reportagem da série “A revolução do coco de Paraipaba” que traz uma perspectiva sobre como o plantio e a produção na cidade revoluciona a economia local. O segundo conteúdo trata da produção rural e os impactos no dia a dia dos cidadãos.

Quem entende bem o cenário é Maurício Nunes, conhecido como "Lobão do Coco" na cidade. Nascido e criado no município, ele vem de uma família de produtores rurais, que chegaram a cultivar outros produtos, tais como tomate e cana-de-açúcar, mas entraram de vez na produção de coco com o passar dos anos. Na época, Paraipaba ainda pertencia à vizinha Paracuru.

Com uma plantação que ele considera de médio porte, com cerca de 9 mil coqueiros, Lobão explica que a produção dele, representada pelos cocos verdes para aproveitamento da água, também fica no mercado local de Paraipaba. O maior aproveitamento dos frutos, entretanto, fica por conta das indústrias de beneficiamento.

"A renda familiar que temos vem só do coco. Estou com 9 mil pés de coqueiro. Planto e cuido do coco verde e vendo para as indústrias. Carrego caminhões para demais cidades do Nordeste também para ser beneficiado", pontua.

Ele é o proprietário das terras, e tem contrato com trabalhadores informais, que também utilizam faixas do terreno para agricultura de subsistência, como plantação de feijão, banana e macaxeira. Para Lobão, "dá para sobreviver" do coco. A situação é "complexa", pois, segundo ele, o mercado ainda é muito atingido pelas variações no plantio.

"As empresas geram muito empregos para o pessoal de Paraipaba, a renda principal aqui é coco. Quando cai o preço, atinge forte o mercado aqui em Paraipaba. Mesmo com o preço barato, ainda dá para gente sobreviver", relata Maurício Nunes.

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Plantio do coco encontrou condições "perfeitas" em Paraipaba

Para Adriano Gonçalves Bastos, técnico em agropecuária e especialista em cocoicultura (como é chamado o cultivo do coco), Paraipaba tem as condições climáticas e geográficas "perfeitas" para a prosperidade do fruto.

Paraipabense nascido e criado assim como Maurício Nunes, Adriano atualmente é especialista em fertilizantes para a cadeia produtiva do coco, e classifica que "Paraipaba é onde tem mais produtores, porque são vários lotes pequenos". 

Mesmo antes de ser emancipada, nos anos 1970 e 1980, Paraipaba era conhecida como a capital do coco no Ceará. Mas a situação mudou ao longo dos anos. O município, entre idas e vindas, continua na liderança como o principal produtor do fruto do País.

Produção de coco em Paraipaba
Legenda: Produção de coco em Paraipaba é atrelada aos moradores do município desde o início da vida
Foto: Davi Rocha

Em 2023, a produção foi colhida no território cearense ao longo de mais de 42,7 mil hectares (ha) de coqueirais, distribuídos principalmente no litoral do Estado. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Conforme a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) do Governo do Ceará, o Ceará tem quase 23% de toda a plantação de coco do País. O Estado, além de ser o maior produtor do fruto, é ainda o maior exportador de água de coco, segundo a pasta.

Apesar da concorrência do perímetro irrigado do Baixo Acaraú, também no litoral oeste, que segundo Jamison Moura produz o dobro de coco do que Paraipaba, o município da Região Metropolitana continua na liderança pela alta concentração de pequenos produtores.

Maurício Nunes comercializa a produção de coco com as empresas de Paraipaba que beneficiam o fruto há 30 anos: "Já passamos por várias agriculturas (cana-de-açúcar, tomate, melão, melancia). Depois do coco, ninguém sabe o que vamos produzir", frisa.

Agricultura familiar atesta que "sempre teve coco" em Paraipaba

A instalação de empresas que beneficiam o coco, isto é, aproveitam os produtos, na região de Paraipaba tornam a cidade destaque nacional e internacional na cadeia produtiva do fruto. A Dikoko é uma das representantes que atestam o cenário.

Fundada em 2003 por Raimundo Dias, a empresa familiar é gerida em conjunto por ele e pelo filho, Bruno de Almeida, que exalta com orgulho o título de "capital do coco do Brasil" para Paraipaba.

"Sempre produziram coco aqui. Quando a fruta ainda não era muito difundida no Brasil, sempre se teve em Paraipaba. Os primeiros pés de coqueiro anão se concentraram em Paraipaba. Foi aí que o meu sócio, há mais de 30 anos, começou a plantar os primeiros pés de coco", declara.

Produção de coco em Paraipaba: Dikoko é a maior empresa cearense de beneficiamento do fruto
Legenda: Produção de coco em Paraipaba: Dikoko é a maior empresa cearense de beneficiamento do fruto
Foto: Davi Rocha

Mesmo assim, com o passar dos anos, técnicas mais modernas no cultivo fizeram demais estados do Nordeste, região considerada a principal na produção de coco, ganhar a liderança. A Bahia, com o município Rodelas, assumiu a ponta da produtividade até 2019, quando Paraipaba retomou o protagonismo.

"Somos a capital do coco, nos orgulhamos disso e acredito que isso se deve principalmente à qualidade da nossa água de coco, que é a mais saborosa do mundo", celebra Ariana Aquino, prefeita de Paraipaba.

"Paraipaba está produzindo milhões de frutos e a qualificação daqui do município é que tem bastante Sol e água. O coqueiro é uma planta muito exigente em água e, principalmente, sol. Tendo sol e água, é a área escolhida. Essa região do Nordeste toda, especificamente essa parte aqui do litoral oeste do Ceará", define Jairo de Almeida, gerente agrícola da Dikoko.

Políticas públicas para o coco

Letreiro Paraipaba
Legenda: Letreiro do município de Paraipaba. Destaque para o coqueiro no lugar da letra 'i'
Foto: Reprodução

A principal porta de entrada de Paraipaba é pela CE-085, conhecida como Via Estruturante. Logo no início do município, é possível avistar o letreiro da cidade diferenciado, com o "i" sendo modificado para ficar similar a um coqueiro.

Todo o trajeto conta com vastos coqueirais, que se adensam na bifurcação a partir da sede do município. Quem segue rumo ao litoral, encontra a praia da Lagoinha, famoso destino turístico cearense. Para quem vai para áreas mais internas de Paraipaba, encontra novamente plantio do fruto e diversas fábricas, como a própria Dikoko.

Vale lembrar que a empresa é a maior do Ceará no aproveitamento do coco, tanto em formato verde (que vira água e o bagaço é utilizado como adubo nas plantações) e seco (que vira coco ralado, óleo, leite de coco, entre outros).

Ariana Aquino relembra que, durante a gestão, foi necessário realizar a criação da chamada "Rota do Coco", justamente para facilitar o trânsito dos caminhões carregados de frutos das plantações para as indústrias, além do caminho inverso: levar os produtos já fabricados de volta para escoamento.

"Investimos em infraestrutura viária, pavimentando vias de acesso principais, onde circulam os caminhões que transportam as produções. Além do que, temos parcerias com a agroindústria na capacitação e geração de empregos, e apoiamos projetos sociais que fomentam o coco como ator principal da nossa história", define.

Dikoko Paraipaba
Legenda: Beneficiamento do coco seco na Dikoko, em Paraipaba
Foto: Davi Rocha

Mais de 90% dos profissionais que atuam da Dikoko moram em áreas próximas da empresa, vindo geralmente de famílias de agricultores e demais funcionários e ex-funcionários da indústria. Um deles é Marcos Souza, atual gerente de irrigação da companhia e agricultor de formação. "Me sinto no paraíso. Chego aqui pela manhã, passo o dia inteiro, tem água, sombra e coco. Tudo o que um trabalhador do campo precisa, a gente tem. A gente trabalha com alegria, sobrevivem muitas famílias daqui. Me sinto privilegiado", disse.

Créditos

Beatriz Irineu e Luciano Rodrigues Repórteres
Davi Rocha Produtor Audiovisual
Hugo R Nascimento e Germano Ribeiro Supervisores de Jornalismo
Karine Zaranza Coordenadora de Jornalismo
Ivila Bessa Gerente de Jornalismo
Gustavo Bortoli Diretor de Jornalismo e Esporte