Três ex-funcionárias de concessionária de motos acusam chefe de arbitragem de assédio sexual

Uma das mulheres ouvidas pelo Diário do Nordeste já havia procurado a Polícia Civil, nesta semana

01 de Agosto de 2026 - 11:00 (Atualizado às 11:04)
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Legenda: Paulo Silvio, ex-presidente da Comissão de Arbitragem da FCF
Foto: Pedro Chaves/FCF/Divulgação

Os relatos se repetem entre mulheres que nunca trabalharam juntas. Comentários de cunho sexual, piadas sobre partes íntimas, convites impróprios e insinuações de vantagens profissionais em troca de aproximação pessoal compõem os denúncias de três mulheres ouvidas pelo Diário do Nordeste. Em entrevista exclusiva, elas afirmam terem sido vítimas de assédio sexual e moral supostamente praticados por Paulo Silvio dos Santos, presidente licenciado da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF), quando trabalharam em uma concessionária de motos, em Fortaleza.

Uma dessas mulheres registrou Boletim de Ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia Civil da Defesa da Mulher, em Fortaleza, na última terça-feira (28). Outra mulher também procurou a Polícia Civil, no mesmo dia, para denunciar situações semelhantes.

Na véspera, dia 27 de julho, Paulo Silvio havia sido indiciado por importunação sexual e assédio sexual, depois que quatro árbitras da FCF buscaram a Delegacia da Mulher, no dia 14 de julho, para denunciar atos que teriam sido praticados pelo dirigente, responsável pelas escalas de jogos do futebol cearense entre 2017 e julho de 2026, contra as profissionais.

As ex-funcionárias da empresa de venda de motos trabalharam com Paulo Silvio em períodos distintos, entre 2012 e 2023. O chefe de arbitragem atuou na concessionária como gerente geral de vendas, até 2025. As entrevistadas terão as identidades preservadas.

NOVOS RELATOS

“Quando cheguei, ele já era gestor da loja. Tinha as mesmas brincadeiras, as coisas com segundas intenções. Os abraços forçados, esfregando o peito dele no peito da gente. Dizendo que naquele dia a gente estava mais cheirosa, mais gostosa. Sempre a brincadeira de cunho sexual”, revelou uma das ex-funcionárias.

“Ele nos chamava para assistir filme na casa dele. Ele vinha com as mãos insinuando pegar nos nossos seios. A brincadeira dele era chegar por trás e dizer às meninas: 'E aí, vamos tomar uma e fazer uma orgia lá em casa?'", revelou uma das mulheres. 

“Ele sussurrava no corredor, a gente andando na frente e ele atrás, sussurrando coisa no ouvido da gente. Ele assediava, mas sabia os lugares das câmeras. Por isso, não temos provas. Ele sabia que a maioria das câmeras da empresa não funcionavam na época. Quando você não dava abertura para ele te tocar, ele te massacrava em reunião, te chamava de incompetente”, reforçou.

“Quando ele fazia alguma coisa lá na empresa, ele sabia onde eram os pontos cegos das câmeras. Então ele não fazia nada próximo à câmera e também não movimentava Whatsapp ou Instagram para que não ficasse nenhuma prova. Ele sabia disso”, completou outra entrevistada.

“No dia que eu fui à empresa porque eu tinha sido demitida, eu disse no departamento pessoal que estava sendo ameaçada por ele. Mas essas coisas de abraçar, de chamar pra dançar, de se esfregar, continuaram com mais força. Eu tenho medo do que ele pode fazer. Ele anda armado”, continuou.

“Até o dia que eu saí, ele foi me assediando constantemente. Ele foi dando abraços por trás sem que a gente esperasse, encoxando mesmo, beijando o pescoço, pegando nos ombros como se fosse fazer massagem.  Começou a falar coisas como 'eu estava vindo lá da minha sala e vi que tua calcinha não é pequena o suficiente. Da próxima vez coloca uma que te valorize mais'", relembrou a outra.

“Tinha um banheiro que era da loja e servia de apoio aos funcionários. Eu tomava banho e, às vezes, lavava o cabelo, e ele fazia piada, como se eu tivesse voltando de um motel, porque havia um próximo lá. Sem contar as outras brincadeiras, insinuando que se ficasse com ele eu teria alguma regalia”. 

“Começou a oferecer para ir almoçar, para ir jantar depois do horário do trabalho. Começou a oferecer pra trocar o celular, para não precisar mais andar de ônibus, porque ele podia proporcionar uma vida melhor, mais tranquila e confortável”, completou.

Ao confrontá-lo sobre o comportamento ofensivo, ela conta que teria sido intimidada.

“Eu disse que ele estava me assediando e que eu gostaria que ele me demitisse, pelo que ele estava me ocasionando e ele disse que eu podia ir em frente, que eu ia estar lidando com uma muralha muito grande, não era só com ele que eu estaria lidando, eu estaria lidando com pessoas por trás dele, que nada ia acontecer, que não iam acreditar em mim, quem era eu na frente dele e de todos os anos que ele vem colaborando com a empresa?”, finalizou.

FAVORECIMENTOS

Uma das entrevistadas afirma que o comportamento era conhecido de todos na empresa. Inclusive, dois dos funcionários de Paulo eram também árbitros da Federação Cearense de Futebol e seriam favorecidos por ele. 

“Todo mundo sabia, mas a loja ficava calada. Tinha duas pessoas da arbitragem, que trabalhavam na loja com a gente. Em nenhuma outra empresa eles conseguiriam ter disponibilidade para viagens como eles tinham na loja. Eram protegidos do Paulo”, reforçou.

“Eu me calei muito tempo porque eu precisava trabalhar. O clima da loja era ruim. É tipo assim: ela é minha protegida e tu não. Ela vendia muito porque ele passava tudo pra ela, e dificultava sua vida como vendedora. Eu ia emperrar as tuas vendas. Isso é assédio também”, acusa.

Uma conta ainda que algumas mulheres pediram demissão por causa do suposto comportamento. No fim de 2024, relata uma das entrevistadas, um funcionário homem pediu demissão. Ele também teria sido assediado por Paulo, dessa vez moralmente. 

“A gente tava entendendo que aquilo não era brincadeira, que aquilo era assédio sexual pesado. E que aqueles gritos que ele dava, aquelas broncas, não eram carão e nem grito para chamar atenção, eram assédio moral.” 

Em abril de 2025, o gerente geral foi demitido sem justa causa pela concessionária. 

BUSCA POR JUSTIÇA

“Quando você diz que não quer, ele vai te massacrar até você ceder. Ou então ele vai dificultar a sua vida na empresa até te colocar para fora. Alguém tem que parar ele. Se não, ele vai continuar fazendo isso. Uma mulher abusada fica com isso para o resto da vida”, afirmou uma das entrevistadas. 

“Espero que seja feita justiça. Por mim e por todas as outras que sofreram isso na federação, na loja e na vida. Em qualquer lugar que ele esteja, ele vai fazer isso. Espero que ele não saia impune”, completou. 

"Gostaria que fosse feita justiça, que o Paulo Silvio fosse preso. Não quero ele com tornozeleira, solto, andando e vivendo a vida como se não tivesse feito nada. Não fomos nós, mulheres, não fui eu, não foram as árbitras ou vendedoras, que causamos tudo isso, que destruímos a reputação do Paulo. Foi o próprio Paulo que plantou e colheu, que fez o mal e está colhendo o que ele causou durante esses anos”, reforçou a outra entrevistada.

“Tive que ouvir recentemente que a gente estava estragando a vida dele, que a gente estava acabando com a reputação do Paulo. Mas, na verdade, ele acabou com a reputação dele. O Paulo não pensou na família dele, não pensou nas ações e nas consequências que isso poderia ter. Na verdade, ele achava que nem consequência teria e eu quero que ele seja preso, porque a justiça tem que ser feita. Outras pessoas que fazem esse tipo de coisa que ele faz precisam ver que realmente a justiça é feita, precisam ter medo e começar a repensar suas atitudes’, finalizou.

OUTRO LADO

Em contato com os advogados de Paulo Silvio, o Diário do Nordeste ouviu que a defesa se manifestará em momento oportuno, pois aguarda o oferecimento da denúncia para saber como o processo vai tramitar.

ENTENDA O CASO

Quatro árbitras de futebol acusaram Paulo Silvio de assédio sexual e estupro. As queixas foram registradas no dia 14 de julho, na 1ª Delegacia de Polícia Civil da Defesa da Mulher, que deu abertura à investigação criminal. Menos de duas semanas depois, a Polícia Civil indiciou o dirigente por importunação sexual e assédio sexual, mas não incluiu crime de estupro no indiciamento.

Em nota, a Polícia Civil informou que "concluiu o inquérito policial instaurado para apurar denúncias de importunação sexual e assédio sexual supostamente praticados contra árbitras de futebol no Estado do Ceará. Após a realização das diligências investigativas e a análise dos elementos colhidos ao longo da apuração, o investigado, de 55 anos, foi indiciado pelos crimes de importunação sexual e assédio sexual. O procedimento foi encaminhado ao Poder Judiciário para as providências cabíveis."

Paulo Silvio dos Santos pediu licença do cargo de chefe de arbitragem na última terça-feira (14)
Legenda: Paulo Silvio dos Santos pediu licença do cargo de chefe de arbitragem na última terça-feira (14)
Foto: Reprodução

AFASTAMENTO DO CARGO

Paulo Silvio solicitou afastamento temporário do cargo de presidente da Comissão de Arbitragem da FCF por 30 dias, no dia 14 de julho. Após o período da licença, no entanto, o dirigente já informou que não retornará ao cargo que exerceu durante nove anos na entidade, entre 2017 e 2026.

Na ocasião do registro dos primeiros BOs, o presidente licenciado da Comissão de Arbitragem negou as acusações. "O Sr. Paulo Silvio nega, de forma veemente, as alegações que lhe são atribuídas e afirma que jamais praticou qualquer conduta de assédio sexual, importunação sexual, violência sexual ou qualquer outro ato ilícito".

INVESTIGAÇÕES

No dia 15 de julho, a FCF instaurou um procedimento interno de apuração. Um canal de comunicação foi criado para que possíveis novas denúncias possam ser registradas. O e-mail sindicancia@futebolcearense.com.br é o endereço eletrônico para receber mais relatos.

Acompanhe a cobertura do caso:

 

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