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Estupro, trauma e desejo de abandonar a profissão: árbitra detalha episódio em denúncia

Quatro árbitras da FCF denunciaram Paulo Silvio Santos por assédio e estupro

16/07/2026 - 16:52 (Atualizado em 16/07/2026)

Aviso ao leitor: o conteúdo a seguir aborda relatos de assédio e violência sexual, que podem ser sensíveis para algumas pessoas.

“Eu só quero trabalhar sem esse tipo de perseguição. Sem alguém falar assim: Ah! Ela chegou porque deu para alguém. Eu quero ser reconhecida pelo meu mérito, não porque dei para alguém”.

O trecho é parte do relato de uma das quatro árbitras que denunciaram Paulo Silvio Santos, presidente afastado da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol. Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, a declarante descreve o dia em que foi estuprada por ele, em 2023. Outras três pessoas também estavam no local e tomaram conhecimento do ocorrido depois. Além disso, ela destaca o abalo psicológico e a espera por justiça.

Acompanhe a cobertura do caso: 

- FCF cria comissão para apurar denúncias de assédio sexual e estupro contra chefe da arbitragem

- Chefe de arbitragem no Ceará é investigado por assédio e estupro após denúncia de 4 árbitras de futebol

- Exclusivo: Árbitras de futebol relatam rotina de assédios cometidos por chefe de arbitragem no Ceará

 

Relato do abuso

Após uma pré-temporada da arbitragem, o grupo decidiu ir a um restaurante. Além dela, estavam Paulo e outras três pessoas. Quando o local fechou, foram a um motel, local onde ocorreu o crime. 

“A gente só queria ir para outro local; quem estava bebendo, continuar bebendo. Eram só pessoas que eu confiava demais. Então, jamais imaginei que fosse acontecer o que aconteceu. Embora a gente tenha ido para esse tipo de local, a gente não combinou nada de ninguém ficar com ninguém.”, contou. 

“Chegamos nesse local, enquanto as outras pessoas iam para o frigobar, olhavam o quarto. Ele me colocou na cama, ficou tentando me agarrar, e eu tentando me soltar. Até dizendo: "Sai, eu não quero. Para!" E ele insistindo. Até que eu consegui ir para o banheiro. Ele foi atrás de mim. Nesse quarto tinha uma vidraça, e as pessoas foram se dispersando para a piscina”, relatou. 

Fui ao banheiro, apavorada já. Nem imaginei que ele fosse. Nem tranquei a porta. Então ele chegou a ir lá. Ele chegou a tocar por baixo do meu short. E eu dizendo que não queria. E ele insistindo, tentando me agarrar. Eu estava de short e top o tempo inteiro. A gente vinha de pré-temporada, então a gente estava com roupa de jogo, suada. E ele tentou me tocar por baixo do short. Depois a gente conseguiu sair do banheiro. Cheguei à borda da piscina lá, vi as pessoas, falei com uma das pessoas que estavam. Eu nem sabia o que dizer. Eu estava desesperada. Só queria sair do local. Não contei nada para ninguém na hora.
Vítima de estupro

“Antes de eu ir embora e ficar desesperada, fui para o chuveirão, tomei uma ducha. Ele foi atrás no chuveirão também. E ficou ainda tentando me tocar, e eu tentando sair. E fui para a piscina porque tinha mais gente. E ele não ia fazer nada. Mas aí não parou. E eu, gente, por favor, vamos embora. Eu queria sair dali. E a gente veio embora. Meu amigo me deixou”, finalizou.

Abalo psicológico

Outra denunciante, que também foi vítima de assédio de Paulo, estava no local e lembrou como estava a amiga após vê-la deixar o quarto e se dirigir à piscina, onde o restante do grupo estava. Os demais só tomaram conhecimento da situação muito tempo depois.

“Ela estava assustada, pálida, muito nervosa e pedindo para sair do ambiente. Eu não entendi, pedi para ela falar alguma coisa. Ela não falou nada, só pediu pra ir embora. E nós fomos. Foi desesperador e angustiante não poder reagir porque ela não queria se expor, foi difícil. Eu já sabia o que tinha acontecido, que era estupro, que era crime, mas ela não queria falar. A partir do momento que a mulher fala “não”, é “não”. E se ele insistir isso é estupro”, afirmou. 

A árbitra relata que não havia entendido que o ato forçado era crime de estupro. A vítima também conta sobre o abalo psicológico e o receio de fazer uma denúncia formal e de contar a outras pessoas. 

“A partir do momento que eu disse não, já era para ele ter saído. E ali já é um estupro porque não consenti. Eu demorei a entender isso. Eu tenho vergonha dessa história. (...) Passei muito tempo me culpando por essa história. A gente tem medo. Eu não tinha entendido isso como estupro apesar de saber a definição. (...) E aí  o medo de denunciar. Nem todas as pessoas vão acreditar”.

Desde esse dia que eu venho tentando esquecer, mas é muito difícil. Eu não podia falar isso para todo mundo, né? Eu não estava sabendo lidar. Parei de ir para a física com frequência, e eu não faltava. Mas passei a nem me importar. Eu não queria encontrar com ele, porque eu ficava nervosa, revivendo aquilo tudo de novo sem poder falar nada com ninguém. E eu falava que não aguentava mais aquilo, que não conseguia esquecer a história, que não estava dormindo direito.
Vítima de estupro

“Mas eu também não queria sair da arbitragem. Apesar de despertar gatilhos da minha ansiedade, a arbitragem é o que me salva. Já tive de ir para o jogo muito mal pela ansiedade. Quando estou no jogo, esqueço tudo. Quando acaba o jogo, volta de novo. Quando vi que conversar com minha amiga não estava dando certo, fui para a terapia tratar isso. Melhorou, lógico. Mas, todo canto, por ele ser meu superior, eu sabia que ia ter que encontrá-lo em todos os locais”, reforçou. 

Futuro na arbitragem e trauma

“É muito difícil. Até tinha comentado que ia sair do quadro. Depois dessa história, passei a não dar tanta disponibilidade para as escalas. Antes, eu colocava os jogos a frente de tudo. Depois que isso aconteceu, eu perdi o gosto. Para o jogo eu vou com gosto porque sei que não vou encontrar com ele. Mas cada vez que tem um vento que tem o quadro todo, que a gente sabe que vai se reunir, sofro com isso”, afirmou. 

As quatro mulheres decidiram se unir para realizar uma denúncia formal contra Paulo Silvio Santos por assédio sexual e estupro. Duas das vítimas relatam que o comportamento desrespeitoso era rotineiro com o quadro de árbitras da FCF, algo comentando entre pares. 

Eu escutava que ele prometia coisas às meninas, que ele assediava as meninas. Sempre escutei bastidores. "Fulana liberou". Infelizmente as coisas acontecem dessa forma lá. Vai ver, essas meninas têm o mesmo medo que eu. Ainda tenho. Não vou dizer que não tenho medo. Desde que decidi colocar isso para frente, eu continuo com medo. Eu tenho medo do que ele possa fazer, de perseguição... Não dentro da arbitragem. Eu acho que ele já perseguiu o que ele poderia ter perseguido. (...) Ele conhece muita gente, ele tem muito poder. Não só dentro da arbitragem, mas fora também. Tenho medo também que ele comece a fechar portas também.
Vítima de estupro

“Eu só lamento e penso no que pode vir pela frente. A gente tinha que colocar um basta nisso. Diante de tanta coisa errada acontecendo, eu queria dizer sim com 100% de certeza que acredito na Justiça. Estou esperançosa, mas não acredito totalmente. Acredito que ele vá mexer muita coisa para dizer que é mentira nossa, despeito”, afirmou em entrevista ao Diário do Nordeste.

“Dentro da arbitragem, eu só quero trabalhar sem esse tipo de perseguição. Sem alguém falar: Ah, ela chegou porque deu para alguém. Eu quero ser reconhecida pelo meu mérito, não porque dei para alguém. Os meninos sabem tanto que isso acontece, que ficam fazendo piada com a gente. Na outra semana, teve árbitras que foram promovidas sem passar no teste físico. Que são essas árbitras que cedem. Um dos meninos falou assim: tu é muito besta. Se eu tivesse um b****, já estava na CBF. Respondi: pois vou morrer na FCF. Não menosprezando, quis dizer que não vou fazer isso para chegar onde eu queria chegar. Não vou dizer que não quero ser CBF. Eu quero. Eu queria. Não sei se ainda dá tempo. Eu entrei querendo ser. Mas se não for, tudo bem. Eu quero ser boa pelo menos no meu estado. Eu quero poder trabalhar em paz, e chegar onde cheguei porque eu me esforcei para isso. Não porque eu dei. É isso que espero”, finalizou.

RELEMBRE O CASO

Quatro árbitras de futebol acusam Paulo Silvio de assédio sexual e estupro. As queixas foram registradas na última terça-feira (14), na 1ª Delegacia de Polícia Civil da Defesa da Mulher, que deu abertura à investigação criminal.

Além dos episódios de assédio moral e sexual, uma árbitra informa em BO que, em 2023, durante uma confraternização entre os profissionais, o presidente da comissão de arbitragem tentado forçar relações sexuais sem consentimento, e após isso teria tocado em suas partes íntimas.

O dirigente solicitou afastamento temporário do cargo de presidente da Comissão de Arbitragem da FCF por 30 dias, na terça-feira (14). Após o período da licença, no entanto, Paulo Silvio já informou que não retornará ao cargo que exerceu durante nove anos na entidade.

DIRIGENTE NEGA

O presidente licenciado da Comissão de Arbitragem nega as acusações. "O Sr. Paulo Silvio nega, de forma veemente, as alegações que lhe são atribuídas e afirma que jamais praticou qualquer conduta de assédio sexual, importunação sexual, violência sexual ou qualquer outro ato ilícito".

INVESTIGAÇÕES

Em nota, a Polícia Civil informa que "investiga denúncias de crimes contra a dignidade sexual" contra árbitras de futebol desde a última terça-feira (14), quando foi registrado BO pelas denunciantes.

Nessa quarta-feira (15), a FCF instaurou um procedimento interno de apuração. Um canal de comunicação foi criado para que possíveis novas denúncias possam ser registradas. O e-mail sindicancia@futebolcearense.com.br será o endereço eletrônico para receber mais relatos.

Acompanhe a cobertura do caso:

Créditos

André Almeida, Repórter | Brenno Rebolças, Repórter | Crisneive Silveira, Repórter | João Bandeira Neto, Supervisor de Esportes | Rafael Luis Azevedo, Coordenador de Esportes e Edição da reportagem | Gustavo de Negreiros, Gerente de Esportes | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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