O presidente licenciado da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF), Paulo Silvio dos Santos, tentou intimidar árbitros para que não o contrariassem, no início deste ano. A ameaça foi feita pelo dirigente em reunião com o quadro de árbitros cearenses, realizada no dia 22 de janeiro, no Cuca do Pici, em Fortaleza. O Diário do Nordeste obteve áudios que registraram o encontro.
A reunião extraoficial foi organizada pelo próprio Paulo Silvio e ocorreu em resposta a um protesto realizado por um grupo de árbitros junto a FCF, contestando a conduta da Comissão de Arbitragem.
Paulo Silvio não teria gostado do protesto e, então, reuniu 84 profissionais, entre árbitros, árbitras e assistentes, totalizando praticamente todo o quadro cearense para rebater os críticos. Em determinado momento da reunião, o dirigente direcionou as falas às árbitras e avisou que elas deveriam ter "cuidado".
Acompanhe a cobertura do caso:
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"VÃO BATER NUMA PAREDE PESADA"
"Estão querendo usar a arbitragem feminina contra mim, mas beleza. Vão bater numa parede pesada. Meninas, cuidado. Cuidado. Cuidado com o que vai chegar para vocês. Da mesma forma que alguns árbitros não estão aqui porque receberam ligação para não vir, porque me disseram. Meninas, cuidado. E valorizem o trabalho de vocês, porque, se vocês estão onde estão, é por mérito de vocês. Não é porque são mulheres. Não é porque o presidente de vocês assediou vocês. Se valorizem, porque todo mundo acha que as mulheres só chegaram na CBF porque o presidente [da arbitragem] assediou", disse ele.
Nesta semana, quatro árbitras denunciaram o chefe da arbitragem no Ceará por assédio sexual e estupro. As queixas foram registradas na última terça-feira (14), na 1ª Delegacia de Polícia Civil da Defesa da Mulher, em Fortaleza, que deu abertura à investigação criminal.
No mesmo dia, Paulo Silvio solicitou afastamento temporário do cargo e avisou que não pretendia voltar, após o período de 30 dias.
Na última sexta-feira (10), o mesmo grupo de árbitras já havia denunciado o caso à FCF. Também na terça-feira, a entidade iniciou uma sindicância para investigação interna.
TOM AMEAÇADOR
Em determinado momento da reunião realizada em janeiro, o então presidente da arbitragem questionou se alguém possuía medo dele.
"Se eu tiver que sair da comissão, é porque parei de entregar. E não é agora, para 'felicidade' de alguns. Eu vou continuar, eu vou continuar. Sabe por quê? Aqui tem 84 árbitros que foram representados, sem saber, por dois. Foi dito que todos vocês estavam insatisfeitos com o nosso trabalho, e que eles estavam lá representando vocês, e que vocês só não estavam lá porque não têm coragem de me enfrentar, porque vocês têm medo de mim", disse Paulo Silvio.
O dirigente, então, tentou desqualificar a legitimidade do grupo de árbitros que protestou, questionando se representavam a categoria.
"Esse foi o recado que foi dado lá. Presidente ouviu e vai tomar a decisão dele. Vocês passaram procuração? Quem aqui passou procuração? Essas pessoas representam vocês?", indagou.
Para uma das árbitras denunciantes, a postura na reunião exemplifica um comportamento comum do dirigente. "Ele não aceitava ser contrariado de jeito nenhum. Dizia que árbitro não deve ir contra a comissão. 'Se não estiver satisfeito, que peça pra sair'".
RESPOSTA EM COLETIVA
Contactado pelo Diário do Nordeste se deseja comentar o teor dos áudios da reunião realizada em janeiro, Paulo Silvio informou que responderá em entrevista coletiva.
ENTENDA O CASO
Quatro árbitras de futebol acusam Paulo Silvio de assédio sexual e estupro. As queixas foram registradas na última terça-feira (14), na 1ª Delegacia de Polícia Civil da Defesa da Mulher, que deu abertura à investigação criminal.
Além dos episódios de assédio moral e sexual, uma árbitra informa em BO que, em 2023, durante uma confraternização entre os profissionais, o presidente da comissão de arbitragem tentado forçar relações sexuais sem consentimento, e após isso teria tocado em suas partes íntimas.
O dirigente licenciado negou as acusações, em nota enviada na quarta-feira (15). "O Sr. Paulo Silvio nega, de forma veemente, as alegações que lhe são atribuídas e afirma que jamais praticou qualquer conduta de assédio sexual, importunação sexual, violência sexual ou qualquer outro ato ilícito".
Em nota, a Polícia Civil informa que "investiga denúncias de crimes contra a dignidade sexual" contra árbitras de futebol desde a última terça-feira (14), quando foi registrado BO pelas denunciantes.
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Créditos
André Almeida, Repórter | Brenno Rebolças, Repórter | Crisneive Silveira, Repórter | João Bandeira Neto, Supervisor de Esportes | Rafael Luis Azevedo, Coordenador de Esportes e Edição da reportagem | Gustavo de Negreiros, Gerente de Esportes | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo