Álbuns de fotografia registram transformações e contam a história de Fortaleza
A piscina de mar formada em frente ao Estoril não existe mais. Foi embora com o aterramento de parte da faixa oceânica da Praia de Iracema. No Grande Jangurussu, o Campo do Coritiba também desapareceu. No lugar dele, agora existe a Areninha do Santa Filomena. São partes sumidas da cidade que poderiam existir apenas na boca da memória.
Felizmente, existiu um tempo em que fotos moviam-se das câmeras para o papel e ganhavam álbuns, resguardando lembranças capazes de contar histórias não apenas de famílias, mas de toda uma cidade. As brochuras guardadas por Ivoneide Gois são assim. Numa rápida consulta a páginas repletas de registros carinhosos, é possível encontrar outras Fortalezas.
“Essa aqui, ó, era a ‘Piscininha’, um equipamento que fazia o lazer não apenas do Poço da Draga, mas de todo mundo que vinha até aqui”, diz, apontando para a fotografia em mãos. “Quando a maré enchia, formava uma espécie de lago, e a gente ia lá tomar banho. Só que aterraram, fizeram o calçadão da Beira-Mar, e tudo ficou só no pensamento e nas fotos”.
Na semana em que Fortaleza celebra seus 300 anos, o Diário do Nordeste publica uma série de reportagens multimídia que ajudam a entender como a capital cearense chegou aos três séculos de existência, das disputas políticas aos marcos econômicos, das mudanças urbanas às memórias afetivas que atravessam gerações. Neste texto, o DN Ceará mostra como fotografias guardadas em álbuns são documentos sobre a história da Capital.
O tom é de lamento, mas também de certo orgulho. Difícil encontrar outra pessoa em posse desse tesouro – os retratos impressos de um tempo que já foi, mas insiste em permanecer. É onde talvez resida a importância e a virada de chave dos álbuns de família: mais que afetividade do sorriso cúmplice entre pares, podem cravar na superfície física novas rotas de compreensão sobre o lugar onde se vive e se envelhece.
A mesma Ivoneide, por exemplo, mantém na própria parede do lar aconchegado no Poço da Draga série de imagens dos pares. Formaturas, aniversários e coisas muito prosaicas – um dos registros mais bonitos é o da mãe sentada nas pedras próximas à Ponte dos Ingleses na década de 1980. Para ela, com mais de 40 álbuns espalhados pela casa, isso é meio de assegurar que nada do que é relevante suma, mas chegue, renovado, a quem quiser conferir.
“Desde pequena sempre gostei de fotografia. Quando tinha 15 anos, ganhei uma câmera polaroid do meu tio – azulzinha, ainda lembro – e comecei a bater fotos. Se nascia uma criança na comunidade, eu fazia uma imagem; quando ia ao Centro, revelava, trazia e guardava. Tenho muitas fotos. Você começa a construir uma história assim, uma travessia”.
No que diz respeito a transformações na Capital, o acervo de Ivoneide é raro. Além da já citada “Piscininha”, há imagens de outros tempos da Ponte Velha, do terreno anterior ao Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC) e de muitas outras partes da Praia de Iracema – localidade próxima ao lugar onde a autônoma reside.
Hoje ela fotografa menos. Gosta de captar sobretudo o pôr do sol em meio ao mar. Ao mesmo tempo, quando há alagamento na rua em período de chuva, registra também. Converte em prova, denúncia, documento. “Agora, quando quero fotografar, pego o celular e faço com ele mesmo. Fica tudo na galeria, e às vezes eu imprimo”.
Álbuns evitam o apagamento de lugares
Fato é que álbuns são certidões da vida cotidiana, sobretudo quando fontes históricas não são capazes de guardar e armazenar realidades específicas ou não se interessam por aquelas de determinadas comunidades.
A perspectiva é do pesquisador Rodrigo Lopes. Mais que manter e conservar esses acervos em papel fotográfico, ele acredita que o ato de dirigir o olhar para eles contribui para o entendimento não apenas da formação de uma família, mas de um bairro, uma cidade, um Estado ou até de um país – neste caso, principalmente diante de fluxos migratórios, a exemplo dos ocorridos no Nordeste em direção ao Sudeste do Brasil em outros tempos.
“É muito comum pensar nos álbuns como arquivos pessoais, com qualidades afetivas e emocionais. Mas eles também podem ser pensados a partir de outras questões”, situa. Para ele, guardar registros impressos é também tarefa política, especialmente quando o assunto são comunidades historicamente marginalizadas.
“Quando pensamos em comunidades negras e indígenas, por exemplo, são arquivos que, em geral, não foram possíveis de serem feitos no fim do século XIX e começo do século XX porque a fotografia era algo muito custoso. Logo, aspectos econômicos se revelam mais fortes quando pensamos nessa questão”.
Os primeiros álbuns de fotografia datam da segunda metade do século XIX, e quase todos dessa época são europeus. Nesse tempo, conforme Rodrigo, fotografias serviam para demonstrar não exatamente a relação amorosa entre membros de uma mesma família, mas para testar linhagem, atestando a força da questão financeira no segmento.
“Esse costume da burguesia europeia é importado para o Brasil no fim do século XIX, e é a partir dessa noção de construir um arquivo, uma memória familiar, capaz de sobreviver ao tempo, que famílias brancas escravocratas aqui residentes ficam fascinadas. O álbum foi criado nesse movimento, e ganha o formato de livro devido ao caráter perecível das imagens em papel impresso. Antes, as fotos eram guardadas em gavetas, caixas ou em livros mesmo”.
O poder do antes e depois de um bairro
No Santa Filomena, comunidade do Grande Jangurussu, a última coisa que imagens desejam é ficar guardadas. Preferem ganhar o mundo e, de quebra, contar a história do território. Muito dessa predisposição nasce com o cineasta, fotógrafo e pesquisador Léo Silva. Idealizador do projeto Acervo e Museu Uma Filomena (AMUF), ele reúne pelo menos duas mil fotos de arquivos, com futuro trabalho de catalogação.
São cenas diversas: do outrora Campo do Coritiba, hoje Areninha do Santa Filomena, a partir dos diferentes times e jogos; de ruas e travessas da comunidade; e também, sobretudo, do mutirão para construção do bairro.
“Aqui no território, a partir de entrevistas com moradores, entendemos que existe uma nuance muito interessante relacionada ao próprio nascimento do lugar – desde a ocupação de terra até a questão sociopolítica”, explica o estudioso.
Boa parte dos moradores não lembra as datas oficiais dos acontecimentos, mas recordam quem eram os prefeitos que vez ou outra apareciam ou aqueles candidatos que se aproximavam da população. Ficaram marcados. E, então, entra na memória de todos como era um endereço ou outro naquele tempo, e como ele está hoje
Um caso recente, inclusive, envolve uma rua que interliga quatro territórios. Após 40 anos sem reforma, neste ano foi transformada em grande avenida. Ao conversar com moradores do Santa Filomena, Léo diz que todos trazem outro entendimento da história do local a partir de uma mudança tão significativa na vida prática da comunidade.
“Ou seja, ao acessar esses álbuns de família, a gente acessa memórias pessoais, mas elas se ampliam para uma certa coletividade porque as histórias vão se conectando”.
Formar museus com fotos de família
Não à toa o desejo de seguir. É vontade de Léo Silva a fixação de um museu comunitário com registros do Santa Filomena ao longo dos anos. A casa abrigaria exposições, mas também seria espaço de catalogação e formação a partir da realização de cursos.
Além disso, no ano passado, um projeto aprovado para a construção da Escola de Cinema e Fotografia Antônio Formiga – com nome em homenagem a um famoso comunicador do bairro – jogou luz nova ao lugar. A ideia é que a entidade amplie os tentáculos e seja ambiente não apenas de preservação de memórias, mas de criação de novas.
“Nossa ideia é fazer com que crianças e adolescentes da comunidade tenham acesso à fotografia e ao audiovisual, para que eles mesmos possam investir nisso. Nisso, existe também uma discussão política. Estamos dentro do Grande Jangurussu, discutindo a possibilidade de virarmos bairro. O museu comunitário vem, assim, também para discutir questões sociopolíticas e culturais com as quais estamos diretamente envolvidos”.
Ivoneide Gois, por sua vez, além de continuar fotografando pores do sol, quer investir na segunda edição de um projeto idealizado por ela e lançado na Bienal do Livro do Ceará em 2019. O livro “Territórios da memória” reúne imagens de santinhos de moradores do Poço da Draga de forma a preservar o legado deles.
Neste ano, a colecionadora já acumula dezenas de novos santinhos e, por isso, prevê uma segunda leva do livro já publicado. “Também pretendo fazer um trabalho sobre a ‘Piscininha’. É um equipamento que nos tiraram e, quem a alcançou, sabe que era uma coisa maravilhosa. Garantia um banho gostoso. Só dava pra fazer isso quando a maré enchia. Ainda pretendo fazer um projeto com essas fotos, tipo um memorial”.
Há também ação envolvendo registros de mulheres participantes de sarau realizado no Poço, a fim de, com o mesmo intento de Léo Silva, promover novas memórias sobre pessoas, lugares e experiências. A metrópole em si. “Gosto muito desse movimento porque, às vezes, tô aqui sem fazer nada, e vou lá e fico folheando os álbuns. Volto à minha memória”.