Larissa Camurça: de primeira-dama à ‘prefeita das crianças’ em Pacatuba (CE)
O PontoPoder mostra um dia na rotina da primeira mulher prefeita da cidade da Região Metropolitana de Fortaleza.
Vestido azul-claro, de cetim, com a saia rodada e o decote de babados estruturados, em formato semelhante a flores e uma faixa de prefeita, nas cores azul royal e amarelo, com símbolos municipais: a descrição talvez não seja a primeira a vir à mente quando pensamos na figura de quem toma posse na chefia do Poder Executivo municipal. O domínio masculino na política também se revela na estética vinculada ao cargo — o terno, o linho, as cores sóbrias. Mesmo quando cabe a uma mulher o comando da prefeitura.
Foi essa a escolha de Larissa Camurça (União) no dia 1º de janeiro de 2025, data em que tomou posse como prefeita de Pacatuba, na Região Metropolitana de Fortaleza – a primeira mulher a assumir o cargo em 155 anos de história.
A inspiração veio de um desenho feito por uma criança e entregue a Larissa ainda durante a campanha eleitoral, escolhido como forma de “homenagem a todas as crianças que me deram tanto carinho e amor na caminhada”, afirma a prefeita em vídeo publicado no dia em que assumiu a Prefeitura de Pacatuba.
O desenho faz parte das “milhares” de cartinhas recebidas por ela como candidata e também como prefeita, escritas por meninas e meninos pacatubanos. A coleção de Larissa Camurça tem ainda pulseiras, terços, anéis e canetas, para citar alguns dos presentes recebidos. O azul, cor adotada durante a campanha eleitoral, predomina entre os objetos, mesmo aqueles entregues meses depois da vitória dela na eleição municipal de 2024.
Na mesa do gabinete da Prefeitura, lado a lado, a fotografia da posse — com o vestido “bem princesinha mesmo” — e o vaso de vidro onde fica guardada uma parte dos presentes. Uma lembrança diária do “abraço das crianças na campanha”. “Foi surreal”, resume Larissa Camurça, em conversa com o PontoPoder. Esse carisma junto ao públco infantil não encerrou na campanha.
O PontoPoder inicia a série "Prefeitas do Ceará", que irá narrar a trajetória política de mulheres que alcançaram a chefia do Executivo municipal em cidades cearenses, a rotina como gestora municipal, os desafios enfrentados e o legado que pretendem deixar como prefeitas — muitas delas sendo a primeira mulher a alcançar o cargo.
‘A criança é a minha pauta’
Em um dia nublado de agosto, a primeira agenda de Larissa Camurça, na Escola Manoel Pontes de Medeiros, é acompanhada por um aviso: não havia como prever o horário que conseguiria sair dali. “Depende das crianças soltarem ela”, alertou um dos assessores.
Na data em que a reportagem do PontoPoder acompanhou a rotina da prefeita de Pacatuba, dezenas de novas cartas foram somadas à coleção — com direito a balas em formato de coração e mais desenhos. “Estão ansiosos desde ontem quando souberam que ela vinha”, comenta a diretora da escola sobre a intensa movimentação dos estudantes.
Reunidas na quadra, as crianças saem correndo quando Larissa chega, envolvendo a prefeita em um abraço coletivo, enquanto gritam o nome dela. Duas meninas choram quando conseguem chegar perto, enquanto muitas outras entregam cartas e desenhos.
“É dessa forma, entendeu? Não tem como não chorar, não se emocionar”, diz Larissa Camurça. O 'abraço' das crianças transformou a infância em uma das principais pautas dela como gestora municipal – “a criança é minha pauta”, resume. “É até vergonhoso ver isso aqui e não fazer nada. Eu fico me cobrando direto”, completa.
As ações na Educação, por exemplo, foram prioritárias neste início de gestão, com requalificação de escolas, reforço na merenda escolar e contratação de cuidadores e intérpretes de libras em toda a rede municipal, cita a prefeita. O foco na área é “porque, com a educação, a gente consegue atingir mais de 11 mil crianças”, diz.
A infância costuma ser uma pauta atrelada à mulher. Ainda minoria entre os cargos eletivos — hoje, são apenas 38 prefeitas nos 184 municípios cearenses —, elas acabam sendo, muitas vezes, atreladas a temáticas que correspondam ao estereótipo feminino.
Educação, saúde, assistência social e direitos humanos são algumas das áreas mais tipicamente associadas a elas, assim como temas relacionados ao cuidado — seja das crianças, dos idosos ou de outras populações em vulnerabilidade.
“Eu não me limito a algumas pautas que 'ah, é de mulher' ou 'é de homem'. (...) A gente não se limita nessas questões, até porque a gestora é para cuidar de tudo e entender um pouco de tudo”, ressalta a prefeita. “Eu sempre estou acompanhando de perto todas as pautas e tento entender um pouco de tudo, porque é dali que está saindo o recurso público das pessoas que contribuem, que precisam desse retorno, dessa prestação de contas da Prefeitura”, acrescenta.
O desafio de desenvolver uma cidade centenária
Pacatuba é a maior cidade cearense governada por uma mulher. O município é o 13º mais populoso do Ceará, com mais de 81 mil habitantes. No primeiro mandato como prefeita, e também no primeiro cargo eletivo, Larissa Camurça elenca a infraestrutura como prioridade — “apesar de ser uma 'pauta masculina'”, contrasta.
Quer construir na cidade “avenidas largas” e “obras estruturantes”, reurbanizar e revitalizar bairros e distritos do município, entre outros planos. “Só a Infraestrutura está com mais de 18 projetos para o nosso município”, aponta.
A inspiração vem da vizinha, a “cidade irmã” Maracanaú. O município é onde fica a raiz familiar e também política de Larissa Camurça. Nascida em Fortaleza, mas com a família materna sendo maracanauense. "As férias eram em Maracanaú, os domingos eram em Maracanaú”, relembra.
A carreira no Direito, curso em que é formada, também começou na cidade, com um estágio na assessoria jurídica da Secretaria de Saúde. E, na sequência, a carreira política também foi fincada no município. Primeiro, na gestão do marido Firmo Camurça (União), como primeira-dama, e, logo depois, como secretária de Bem-Estar Animal na gestão Roberto Pessoa (União).
Como primeira-dama de Maracanaú, relembra, acompanhou a “necessidade de crescimento” na cidade vizinha. “Pacatuba é uma cidade com muito mais anos de emancipação política do que Maracanaú (...) e a gente acompanha a cidade mais nova se desenvolver bem mais rápido”, diz.
A "descrença" e o "clamor" da população de Pacatuba são citados por Larissa como motor para a decisão pela candidatura a prefeita em 2024 — junto com a força do grupo político liderado por Roberto Pessoa e a vitrine do trabalho realizado em Maracanaú, principalmente nas localidades da divisa entre os dois municípios, como é o caso do conjunto Jereissati, segundo ela.
Nunca houve, portanto, um “sentimento de não pertencimento”, comumente associado a candidatos e candidatas que chegam de outras cidades. “Não é morar, não é nascer na cidade, mas sim ser acolhida e acolher aqueles que confiam na gente. A missão do político, a missão da gestora ou do gestor público é contribuir com a vida das pessoas”, completa a prefeita.
Herança eleitoral na estratégia política
A margem de votos conquistada por Firmo Camurça em Pacatuba nas eleições de 2022, quando conquistou uma cadeira para a Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), também influenciou na decisão para que o grupo político tivesse uma candidatura à Prefeitura da cidade.
Firmo Camurça foi o candidato a deputado estadual mais votado em Pacatuba, com 26,9 mil votos. “Ele era um possível candidato (à Prefeitura de Pacatuba) e ainda não existia o nome Larissa Camurça. E ele é que me incentivou a ser candidata”, relata a prefeita.
A “dobradinha” começou na campanha — quando a imagem de Firmo aparecia junto de Larissa em materiais como adesivos, bandeiras e publicações nas redes sociais — e segue agora durante a gestão. O deputado estadual está presente em diversas ações da Prefeitura de Pacatuba, conforme compartilhado nas redes sociais dos dois.
No dia da visita do PontoPoder a Pacatuba, logo na chegada, Larissa Camurça comentou que o marido até “perguntou se devia vir”, mas que ela disse que seria “uma agenda rápida”.
Durante a segunda agenda do dia – a entrega de novos fardamentos aos garis do município – o deputado estadual também foi citado. Ao elogiar a prefeita, reforçando que Larissa Camurça “nasceu pronta” para o cargo, o secretário de Infraestrutura da cidade, Márcio Martins, destacou o trabalho “junto com Firmo Camurça”, a quem Larissa se refere como "esposo, deputado e líder político".
O vínculo familiar revertido em apadrinhamento político não é novidade no cenário eleitoral cearense – e mesmo brasileiro. Marido e mulher, pai ou mãe e filhos, irmão e irmã. A ligação, garante Larissa Camurça, “nunca foi problema” e acrescenta: “Essa relação marido e mulher, prefeita e deputado fortaleceu muito o município de Pacatuba”.
A necessidade de impôr limites
O que não significa que não existiram episódios em que houve a suposição de que, sendo marido, era ele quem resolvia e decidia os rumos da Prefeitura de Pacatuba, gerida pela esposa. “Tem casos que as pessoas ligam para ele, e ele é que bota (o limite)”, narra.
“Ele é que diz 'ligue para a prefeita e fale com ela'. Se for do mínimo detalhe ao maior, ele diz: “Fale com a prefeita, nós vamos falar com a prefeita, nós vamos tomar essa decisão com a prefeita'. (...) Às vezes, estamos numa reunião, ele sempre fica ali observando, fica como coadjuvante, deixa mais que eu fique ali brilhando”.
Tudo entre os dois, admite, é bem “combinado”. A experiência como gestor público, com oito anos de mandato na Prefeitura de Pacatuba, é recebida de bom grado por Larissa Camurça em forma de conselhos, mas “eu decido se vai ser colocado em prática”. Da sua parte, ela afirma contribuir “muito com ele na Assembleia”. “Nós trabalhamos em conjunto, por isso que dá tão certo”, reforça.
A ‘prefeita da rua’
Durante a manhã em que recebeu a reportagem do PontoPoder, Larissa Camurça cumpriu quatro agendas. Além da Escola Manoel Pontes Medeiros e da entrega de fardamentos a garis, citados anteriormente, ela também acompanhou a primeira entrega do projeto “Medicamento em casa” e foi até o almoxarifado da Secretaria de Educação para conferir materiais que serão distribuídos para as escolas e os novos produtos para a merenda escolar.
No caminho, a janela do carro costumava ficar aberta, quando cumprimentava pessoas na rua – algumas pelo nome. Com uma delas, chegou a orientar sobre o que deveria ser feito para conseguir um atendimento, e indicou a um assessor que alertasse o responsável por atender a demanda.
Na cola de Larissa Camurça, dois assessores eram responsáveis pelas filmagens de todos os momentos da prefeita em cada agenda. Foram inúmeros stories postados no Instagram, além de dois vídeos direto para o feed no perfil da prefeita de Pacatuba no Instagram.
Durante a entrevista, realizada no gabinete dela, enquanto alguns secretários municipais e o vice-prefeito, Ésio de Sousa, aguardavam na outra sala, Larissa Camurça disse que a agenda costuma ser assim: intensa e diversa. “Eu sou a prefeita da rua”, arrematou.
“Da mesma forma que eu estou no tapa buraco, eu estou com os garis na limpeza, eu estou no lixão, acompanhando a nova reestruturação. (...) A gente tem essa pegada, a gente vai e acompanha”, ressalta.
“Eu estou sempre perto, ouvindo as pessoas. Sempre chego de surpresa nos postos de saúde, sempre estou perto ali da manutenção das escolas, acompanho o tapa buraco de perto, estou sempre perto da questão da iluminação pública. Acompanho de perto todos os planejamentos, todos os projetos, os índices do município, o que a gente precisa melhorar”.
Ao final da entrevista, ela responde a uma curiosidade gerada pelas cartinhas ainda espalhadas pela mesa: o que as crianças dizem para a prefeita? “Tem umas histórias, assim, que é até terapêutico ler. Às vezes eu paro, vou abrir o caixote e ler”, fala. Nas cartas daquele dia, houve quem falasse da “bola que furou”, chamasse a prefeita de “princesa” e “flor do meu jardim” ou agradecesse “a escola toda reformada”.
“Isso tudo que a gente está fazendo é por isso aqui”, diz. “Como gestora, a gente tem uma única missão que é contribuir com a vida das pessoas e deixar um legado positivo na vida delas (...) e ficar na lembrança dessas pessoas como a prefeita que não fez mais do que a obrigação dela de entregar o direito a todos os pacatubanos”.