Editorial: O risco da evasão

Dos cenários projetados para o futuro próximo, antes mesmo que se possa chamar de pós-pandemia, é particularmente trágico o que se refere à educação. Dos jovens matriculados na educação básica, 28% pensam em não continuar os estudos, por razões relacionadas à crise da Covid-19. O dado é da pesquisa "Juventude e Pandemia do Coronavírus", realizada em conjunto por Unesco, Conselho Nacional da Juventude (Conjur), Aliança em Movimento e Fundação Roberto Marinho.

O levantamento ouviu uma amostra da população com idades entre 15 e 29 anos. Um quarto daqueles que podem não voltar às salas de aula nos próximos meses são alunos em idade escolar obrigatória. O impacto se fará sentir no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ainda sem data para realização, com 49% dos potenciais candidatos considerando desistir do certame.

O principal elemento motivador para a evasão escolar, nesse caso, é de natureza econômica. Metade dos jovens ouvidos disse que a renda familiar teve redução durante a vigência das quarentenas, indispensáveis para que fosse possível conter a rápida disseminação do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2). O índice daqueles que pensam em largar os estudos está bem próximo de outro, o dos jovens que, na nova realidade, precisaram buscar alguma maneira de complementar a renda. São 33% do total.

A pandemia também deverá impactar o ensino superior. Na pesquisa "Coronavírus e Educação Superior", realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e pelo Educa Insights, encontrou-se um quadro de razões similar. Um descompasso entre aqueles que querem seguir com o estudos e os obstáculos, de natureza financeira, em sua maioria.

Entidades públicas e privadas, ligadas à pauta da educação, têm emitido recomendações para minimizar a evasão. Considera-se, nesse caso, outros fatores, psicológicos e sociais, por exemplo. Aumento da violência doméstica, no período de isolamento, gravidez na adolescência e doenças de ordem emocional estão entre os fatores que se somam à necessidade de trabalhar.

Os dois levantamentos tangenciam outro problema, o da qualificação profissional. A desistência dos estudos, ainda na fase do ensino básico, se dará por ocupações, em regra, de baixa especialização. Advinha-se a saída para trabalhos de vínculo formal precário ou inexistente. No caso do ensino superior, a descontinuidade de uma qualificação implica na perda de oportunidades potencialmente mais rentáveis e estáveis.

Apesar de os jovens terem visões próprias sobre seus destinos educacionais e laborais, e que uma parcela deles tenha poder decisório sobre isso, eles não podem são os responsáveis por esta situação - ou, em muitos casos, não os únicos. Não podem, portanto, ser deixados à mercê de uma crise sem precedentes. O problema é sistêmico. De nada adiantará adotar medidas apenas no âmbito escolar, sendo necessárias medidas que amparem os mais necessitados, que contornem, de alguma forma, problemas financeiros. A educação, afinal, está para além do imediato. É fundamental para o futuro, não apenas destes estudantes que estão no inglório impasse, mas para toda a sociedade.


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