É possível ter fim a violência que vitima negros/as no Brasil?

As narrativas comuns dos violadores do direito à vida de negros/as tem sido ou de culpabilizar as vítimas, justificar seus atos como engano e/ou acusar de racismo reverso.

Congolês Moïse
Legenda: Moïse Kabagambe, congolês de 24 anos, foi morto espancado e com pauladas por ter ido cobrar o pagamento do seu trabalho numa barraca da orla do Rio de Janeiro
Foto: Reprodução

A sociedade brasileira não tem a unanimidade de que é racista, embora seja estruturada pelo racismo. Prega a crença numa suposta superioridade branca e inferioridade daqueles que descende de África, identificados como classe perigosa.  

Nas últimas semanas assistiu-se nas redes sociais casos de racismo que culminaram com mortes. Como a de Moïse Kabagambe congolês de 24 anos, espancado com pauladas por ter ido cobrar o pagamento do seu trabalho numa barraca da orla do Rio de Janeiro; Durval Teófilo Filho morto ao chegar em casa, confundido com um ladrão, segundo narrativa do vizinho o sargento da marinha Aurélio Alves Bezerra que disparou os três tiros e encontra-se preso. 

Esses e outros assassinatos foram motivados pelo racismo. Isso leva a crer que a maioria dos afrodescendentes, no planeta, habitam a zona do não ser, são desumanizados no trabalho com relações precarizadas, experimentam violências sobrepostas que determinam o nível de vida degradante, e em toda e qualquer situação são elementos de suspeição. E não se enganem são alvos do racismo estrutural.  

As narrativas comuns dos violadores do direito à vida de negros/as tem sido ou de culpabilizar as vítimas, justificar seus atos como engano e/ou acusar de racismo reverso. Como se pode notar as justificativas das violências constantes, e não esporádicas, escondem as raízes da desigualdade e exclusão naturalizadas e legitimadas. 

A preocupação se amplia quando diante dessas violências prolifera discurso de ódio com toda as forças de retrocesso, como a atitude do atual Presidente da Fundação Cultural Palmares ao nomear a vítima com expressão discriminatória, provando que não honra o cargo. Acrescem tentativa de classificação do crime como culposo sem intenção de matar, depois revertido para doloso, o medo de represália por parte de pessoas que viram o crime e poderiam ser testemunhas; identificação da tortura como medida corretiva dentre outros. Fica evidente que a prática do racismo está cada vez mais autorizada

A tentativa de desqualificar a luta dos movimentos sociais negros e antirracista é grande, e tem como objetivo desgastar a força política contidas nos slogans - Vidas negras importam, “parem de nos matar”. Essas palavras de ordem precisam ecoar verdadeiramente na vida social brasileira. Os afrodescendentes denunciam a negação dos seus direitos e reivindicam reconhecimento étnico, justiça racial e modelo de desenvolvimentos que os incluam. 

Faz-se necessário maior consciência por parte da população brasileira para desconstruir essa estrutura de poder apoiada no mito do Brasil como paraíso racial, cessar o desprezo pelo debate crítico e propositivo sobre as tensões e conflitos raciais, parar de confundir esse grupo étnico com o marginal que põe em perigo a ordem pública e consolidar políticas públicas de promoção da igualdade racial. Só então poderemos ter um novo pacto civilizatório com base na igualdade e justiça. 

“Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor”. 

Professora da UECE e Assessora Especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais do Estado Ceará. 



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