Existe racismo reverso?

Para afirmar a existência do racismo reverso, foram disseminadas não-verdades, imagens distorcidas baseadas em preconceitos

Racismo reverso não existe
Legenda: O racismo é sempre estrutural, perpetua desigualdades
Foto: Pexels

Nesses últimos dias os intelectuais da questão racial, jornalistas e ativistas da luta antirracista foram por demais provocados a reagir ao artigo de Antônio Risério sobre o racismo de negros contra brancos e o identitarismo. Repudiaram também a justificativa do meio de comunicação que veiculou a matéria, de que estava cumprindo os princípios da valorização da pluralidade de ideias e liberdade de expressão.

Para afirmar a existência do racismo reverso, foram disseminadas não-verdades, imagens distorcidas baseadas em preconceitos. Segundo Risério, esse tipo de racismo deveria ser mais publicizado. Propositadamente, visou alardear a crença de que é possível que negro/as exerçam sistematicamente relações de poder e prestígio baseados na raça, incrivelmente num país cujo projeto de nação se fez racista e antinegro.

Segundo Almeida (2018), o racismo é uma relação social, que se estrutura política e economicamente, define os lugares de homens e mulheres na estrutura de poder, distribuindo privilégios e desvantagens entre os diferentes grupos étnicos. No Brasil, em particular os povos indígenas e a população negra conformam os grupos subalternizados e desumanizados pelo racismo estrutural.

Portanto, não existe racismo reverso. O racismo é sempre estrutural, perpetua desigualdades. Por meio de tecnologia sofisticada naturaliza as desvantagens desses grupos, basta ver os índices de pobreza, desemprego, analfabetismo, violências, letalidade e dificuldade de acesso às vacinas na pandemia da covid-19.

Racismo é estrutural
Legenda: O racismo, por meio de tecnologia sofisticada, naturaliza as desvantagens desses grupos, basta ver os índices de pobreza, desemprego, analfabetismo, violências, letalidade e dificuldade de acesso às vacinas na pandemia da covid-19
Foto: Pexels

Conteúdo dessa natureza faz uso de mecanismo para disfarçar privilégio injusto, preservando a mesma narrativa colonial do “pacto de todos contra os escravizados”, do pacto entre os iguais para manter a segregação, disseminar a concepção de que a escravidão não foi violenta, de que escravizados acumularam riquezas, exploraram e oprimiram outros grupos étnicos.

Para Vera Iaconelli (2022), o racismo reverso é a nova ideologia da branquitude. É possível dizer que os “cientistas" que alardeiam tanto o discurso da neutralidade racial quanto do racismo reverso causam grandes prejuízos e injustiças a sociedade brasileira que não resolveu o problema racial e continua atribuindo sentido negativo aos afrodescendentes, como classe perigosa, incapaz, suspeito, destituído de ética e moral.

É possível crer que a branquitude demonstrou incômodo e ressentimento diante dos avanços e conquistas por reconhecimento étnico, justiça racial e políticas de promoção da igualdade racial, em particular as políticas de ação afirmativa na modalidade cotas raciais.

Estarão os/as negros/as tensionando demais a supremacia branca, em particular a elite intelectual brasileira? Carecemos de abordagem teórica e histórica que não mais coloque os grupos discriminados como mero objeto de pesquisa e sim na condição de sujeito, capaz de explicar as reais contradições do Brasil e apoiar a construção de um futuro novo com respeito à diversidade.

 

“Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora”. Professora da UECE e Assessora Especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais do Estado Ceará.