Padre Júlio e dom Hélder seguem juntos pelas ruas

Padre Júlio Lancellotti coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo
Legenda: Padre Júlio Lancellotti é coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo
Foto: Reprodução/TV Globo

Vejo o padre Júlio Lancelotti em ação, no amparo a homens de rua sob o frio mortal de São Paulo, e só me lembro de um cearense que passou a vida inteira nessa mesma dedicação aos desvalidos: dom Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo emérito de Olinda e Recife. “Se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostro por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista”, dizia.

Pela mesma razão, o padre Júlio é atacado em 2022. Recebe críticas até por distribuir comida e cobertores, como na campanha difamatória organizada recentemente pelo deputado cassado Arthur Mamãe Falei (Podemos), político do grupo MBL, o Movimento Brasil Livre. O ex-parlamentar o chamou de “cafetão da miséria”.

Alguns playboys também costumam xingar o padre quando passam com os seus carrões e o encontram nas ruas do centro da cidade, quase sempre na companhia de mendigos, desabrigados, catadores de papel e outras pessoas vulneráveis. “Padre fdp, protetor de nóia”, abrem o berreiro.

Dom Hélder era perseguido pelos admiradores da Ditadura, que o chamavam de “bispo vermelho”. Por quatro vezes foi indicado a receber o Prêmio Nobel da Paz. O governo do general Médici (1970-75) montou uma força-tarefa de relações exteriores para impedir a premiação ao “comunista”, como o religioso era tratado em Brasília — estes documentos oficiais do Itamaraty foram revelados pela Comissão Nacional da Verdade.

As ações humaníssimas do bispo cearense foram lembradas na mensagem de Natal de 2020 do papa Francisco. No mesmo período, o papa telefonou ao padre Júlio, pedindo para que ele não desanimasse, apesar dos ataques e contrariedades.

Sob sensação térmica de –2º graus na madrugada, a situação nesta semana em SP foi dramática para os moradores de rua. Houve o registro da morte de Isaías Faria, 66 anos, e muitos atendimentos nos hospitais. Demonstrando um certo cansaço em relação ao poder público, o padre Júlio chorou entre os sem-teto. “Estou desgastado emocionalmente com tudo o que vi”, disse.

Um tempinho depois, seguiria firme para socorrer outros humilhados e ofendidos. Parecia recitar uma das filosofias de dom Hélder: “É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”.

Em uma metrópole carregada de aporofobia — essa aversão permanente aos mais pobres e indesejáveis —, o trabalho do padre Júlio é o maior sinal de que ainda podemos ter alguma esperança na humanidade.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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