Entre crises e polêmicas, Bolsonaro enfrenta o pior momento na presidência

Queda na popularidade, CPI e polêmicas tomam conta do Palácio do Planalto

Legenda: O presidente Jair Bolsonaro desfilou em motocicleta ao lado de simpatizantes no Rio de Janeiro. O ato gerou aglomerações
Foto: Alan Santos/PR

As últimas notícias que chegam ao Palácio do Planalto não são nada animadoras para o presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo com o desgaste da crise econômica e das polêmicas envolvendo a condução da pandemia no País, nada havia preocupado tanto o governo quanto a CPI da Covid no Senado. 

Somado a dificuldades recorrentes, o governo enfrenta hoje o seu pior momento no ano de véspera da eleição. E a reversão do quadro parece cada vez mais longe da realidade.

Na sequência, a coluna pontua elementos que têm fragilizado o governo federal.

CPI 

Pela primeira vez, nomes que integraram a espinha dorsal do primeiro escalão do governo Bolsonaro  confrontados a falar ao País dos atos ligados à administração pública. 

É necessário ressaltar que falar à CPI é diferente de falar à imprensa. A tensão pública e a pressão do regimento parlamentar são elementos que tornam o episódio atípico. Entre os ex-ministros que foram ao Senado, alguns deles já estão rompidos com o governo, o que causou ainda mais preocupação. 

A CPI, que o Planalto não conseguiu evitar a instalação — o que é considerado já uma derrota inicial —, pode causar consequências não apenas ao presidente da República, mas também aos integrantes do governo.

A ida de aliados do presidente ao Supremo Tribunal Federal pelo direito de se calar em algum tipo de abordagem “perigosa” tem sido uma estratégia para evitar o pior.  

O clima de apreensão se acentuou na semana passada quando os ex-ministros Ernesto Araújo (Ministério das Relações Exteriores) e Eduardo Pazuello (Ministério da Saúde) foram confrontados pelos senadores.

É bom deixar claro que o depoimento em uma CPI é algo extremamente delicado. O depoente pode se autoincriminar ou incriminar aliados. Em caso de mentira comprovada, pode deixar a comissão com voz de prisão.
 

Uma CPI tem autorização para solicitar a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da testemunha. Pode solicitar documentos internos que comprovam ou refutam a fala do depoente. Qualquer declaração inconsistente pode ser devastadora para o governo. Este, portanto, é o maior momento de exposição do governo Bolsonaro. 

Polêmicas 

O presidente não deu trégua aos desgastes na gestão. No último domingo (23) organizou um passeio de motos no Rio de Janeiro. Por conta da pandemia da Covid-19, o episódio foi duramente criticado. 

No mesmo local, e no mesmo dia, o presidente discursou aos apoiadores ao lado do ex-ministro Eduardo Pazuello. Considerado como ato político, o general da ativa corre o risco de ser punido pelo Exército, já que o regulamento veda participação de militares em manifestações políticas. É mais um episódio de desgaste entre o Planalto e os militares.

Nos últimos dias o presidente provocou aglomeração no Maranhão, terra governada pelo opositor Flávio Dino (PCdoB). Inclusive chegou a ser multado pelo Governo do Estado — o que causou repercussão negativa. 

A recorrência de episódios com esse tipo de repercussão em um momento de fragilidade é fator que contribui para o desgaste do governo perante a opinião pública. 

Popularidade 

Levantamento mais recente do Instituto Datafolha aponta que a aprovação do governo do presidente Jair Bolsonaro está no nível mais baixo desde janeiro de 2019, quando iniciou a gestão. 

O governo foi avaliado como ruim ou péssimo por 45% dos brasileiros, segundo pesquisa realizada uma semana depois do início da CPI. Em comparação com a avaliação anterior, de março deste ano, a aprovação caiu 6 pontos percentuais e a reprovação cresceu um ponto. 

Fator Lula 

Com a liberação da candidatura do ex-presidente Lula para o ano que vem, Bolsonaro tem, de fato, um adversário praticamente definido para 2022. Antes da liberação do petista, o único adversário mais sólido era Ciro Gomes ou, provavelmente, João Doria.  

Os dois nomes, porém, ainda não estavam estabelecidos com demais partidos e lideranças. Portanto, havia uma incerteza de quem seria o principal adversário do governo. Essa indecisão era favorável ao Planalto que vinha construindo a sua narrativa. 

Na corrida por esse lugar de principal opositor, o ex-presidente Lula esteve em Brasília e se reuniu com dezenas de lideranças. Tem fotos nas redes sociais com Guilherme Boulos (Psol), José Sarney (MDB) e até com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) — o que causou um burburinho político na semana passada. 

O esforço do petista por uma frente ampla é mais uma péssima notícia para o governo Bolsonaro, que, aos poucos, está se isolando politicamente, além do acúmulo de desgastes. 

Sem uma reação contundente e rápida, fica cada vez mais distante um segundo governo de Jair Bolsonaro.