Visite uma aldeia. Não viva de Aldeota

Legenda: Silvero Pereira no aldeia Jenipapo, no Aquiraz
Foto: Arquivo Pessoal

Você lembra dos seus tempos de escola? Recorda de como celebrava o Dia do Índio? Bom, supondo que você tenha tido um ensino pedagógico parecido com o meu, é provável que para comemorar a data, você deva ter pintado o rosto e dançado com penas na cabeça. Talvez, nessa época, você tenha recebido um papel com um índio desenhado para colorir. Quem sabe até não se apresentou para a escola toda ao som de “Curumim iê iê”, da Mara Maravilha.

Passada a data, o que ficou?

O que te ensinaram sobre a população índigena? O que te falaram sobre a “descoberta do Brasil”? O que ficou sobre a importância de comunidades indígenas para a construção do nosso país, da nossa cultura, da nossa comida, da nossa fé? Como você analisa as desapropriações e o genocídio dos povos originários desde a invasão europeia?

Pergunto isso, porque vivi um reencontro. Dos mais bonitos, dos fraternos. Um retorno pra casa, um mergulho em uma memória ancestral, que fez eu me questionar sobre tudo isso e me trouxe até esse exato momento, onde me conecto a você. Fui à aldeia Jenipapo, no Aquiraz - Região Metropolitana de Fortaleza, conhecer Maria de Lourdes da Conceição, mais conhecida como Cacique Pequena, a primeira cacique mulher do Brasil.

Foi um dia lindo, abençoado, feliz, mas que fez eu sentir um tanto de vergonha de mim mesmo, por nunca ter buscado me aprofundar em minhas próprias raízes. Minha avó materna veio de uma aldeia do Amazonas para viver no Ceará. Sei pouco dessa história. Minha avó paterna saiu de uma aldeia em Caririaçu para viver em Mombaça, no sertão central. Tampouco sei tim-tim por tim-tim como isso se deu.

Só passei a me interessar por esse reconhecimento de origem há pouco tempo, uns cinco, seis anos. Não é perpassado como algo interessante, sabe?! Algo que te dê orgulho. Vende-se a ideia de que bom mesmo é saber se você é descendente de europeu, pra provar um suposto sangue azul, tentar uma dupla-cidadania, parecer melhor, mais gringo, menos brasileiro.

Esse sentimento de vergonha, inclusive, não é individual, é coletiva, nacional. Não buscar aproximação, compreensão e reconhecimento da luta e da resistência dos povos originários emburrece qualquer pessoa, cega para enxergar a realidade com pensamento crítico e paralisa diante dos enfrentamos da população indígena, diariamente massacrada, renegada e invisibilizada. E olha que isso já tem pra lá de 500 anos.

No Ceará, por exemplo, são mais de 26 mil indígenas, das mais diversas etnias: Anacé, Gavião, Jenipapo-Kanindé, Kalabaça, Kanindé, Kariri, Pitaguari, Potiguara, Tapeba, Tabajara, Tapuia-Kariri, Tremembé, Tubiba-Tapuia, Tupinambá... Você sabia que muitas delas estão abertas à visitação, onde são oferecidas vivências pra que se conheça a agricultura, a pesca, a comida, os rituais, o artesanato e muitas outras riquezas naturais?

Se você, assim como eu, aprendeu que índigena é aquele que só mora na mata, anda nu e com arco e flecha na mão, já passou da hora de rever seus conceitos, questionar o que aprendeu sobre história e aproveitar as facilidades das redes sociais para buscar aproximação com as aldeias próximas a você.

Fortaleça a luta indígena, seja um multiplicador das reivindicações desses povos, cobre autoridades e instituições públicas e privadas, posicione-se contra a PL do marco temporal, que altera a demarcação de terras indígenas.

Não se vive apenas de Aldeotas.

Visite uma aldeia.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.