Caminhando e cantando e seguindo a vacinação

O futuro me enche de esperanças e sonho com o dia que estarei em cima do palco novamente

Legenda: A classe artística é, por essência, um ato de aglomeração. Porém, também somos uma categoria educativa, que gera consciência, discussão, pensamento, provocação
Foto: XArtProduction / Shutterstock

Depois de dois anos, finalmente, voltei ao teatro como espectador. Era o musical Donna Summer, em São Paulo, numa casa para mais de mil pessoas. O equipamento seguiu todos os protocolos possíveis, desde o já aplicado distanciamento de cadeiras e uso de máscaras durante toda a apresentação até público reduzido e, sobretudo, exigência de carteira de vacinação na entrada, comprovando a aplicação das duas doses de vacina contra a Covid-19.. Tudo para garantir uma experiência cultural com segurança.

Confesso que foi emocionante reviver isso. Depois de tanto tempo longe de teatros, ter a possibilidade de entregar o meu ingresso, sentar na poltrona, ouvir os sinais de aviso de que a peça vai começar, ver as luzes apagando aos pouquinhos e sentir aquele frio na barriga de quem está prestes a passar por uma experiência transformadora foi incrível. Parecia, de fato, que eu estava indo pela primeira vez assistir a uma peça. Para quem é ator, ser espectador também é excitante.

Muito me chamou a atenção os cuidados realizados pela produção, pelos funcionários do espaço e, principalmente, pelos espectadores. Junto da alegria de ver o musical, havia um sentimento de responsabilidade do público, de cuidado com o outro no olhar das pessoas, uma consciência geral sobre a importância de seguir todos os protocolos e fazer do teatro, um espaço seguro, acolhedor e vivo para todas as pessoas. Me senti abraçado.

A classe artística é, por essência, um ato de aglomeração. Vivemos de interagir, de chegar até o espectador não apenas pelo viés do sentido, do intangível, mas também pelo toque.

Ansiamos pelo abraço, o olho no olho, o ouvir das impressões, as vozes, as reações. Porém, também somos uma categoria educativa, que gera consciência, discussão, pensamento, provocação - essencial para a construção da sociedade, impossível de ficar sem.

Ainda levaremos muito tempo para sairmos da pandemia, mas é notório que estamos um pouco mais preparados para lidar com a atual realidade, para restabelecer a vida de outra forma e não há outro caminho senão o do cuidado mútuo.

Com o avanço da campanha de vacinação nos últimos meses no Ceará e a redução de óbitos, casos e centros de tratamento específicos para a Covid-19, sinto que o Estado se prepara para a retomada das atividades e, desde já, aguardo ansioso para o reencontro com o público.

O futuro me enche de esperanças e sonho com o dia que estarei em cima do palco novamente e poderei estar frente à frente com a minha plateia vacinada, que sorri com os olhos, que não deixa de usar máscaras, consciente do nosso fazer artístico, cuidadosa e respeitosa com o outro, feliz de retornar ao teatro e abraçada pela oportunidade de reviver essa experiência, assim como me senti ao ver o musical Donna Summer.

Ooh, I feel love, I feel love I feel love, I feel love I feel love I feel love I feel love
​(Donna Summer)

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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