Cemitério São João Batista proibia enterros de não cristãos

No Brasil, até o século 18 os enterros eram em sua maioria dentro das igrejas, em pequenos terrenos anexos e/ou espaços rurais, capelas e jazigos familiares dentro dos engenhos e fazendas.

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Legenda: Com a criação dos cemitérios, que deveriam ajudar a higienizar a cidade e separar os espaços do viver e do morrer algumas dessas práticas permaneceram.
Foto: Helene Santos

O Cemitério São João Batista é na minha casa um espaço bastante familiar, cresci indo visitar os parentes sepultados na parte sul do campo santo, mas, apenas adulto percebi que mais do que um lugar de despedida e saudade o cemitério é um lugar de histórias vívidas e pulsantes. Além da dor, as pedras frias dos jazigos guardam memórias, marcam períodos históricos e registram costumes de presente e do passado.

Os túmulos são vestígios históricos e dão pistas que o historiador, ou curioso atento, pode juntar às peças do quebra-cabeça da história oral, pode resgatar de uma ou outra nota perdida em um jornal esquecido criando conexões que podem fazer histórias ocultas, silenciadas e enterradas emergirem de seus túmulos (perdão, não pude evitar o trocadilho)

Os Judeus do São João Batista

Conheci a história dos túmulos judaicos do São João Batista por meio de uma funcionária, uma historiadora nata, uma memorialista sempre disposta a dividir sua paixão pelos segredos do lugar. Layane Gadelha nos ajudou em 2014 quando minha esposa escrevia sua monografia, foi ela que me contou muitas das histórias que o cemitério oculta, elas me fizeram ficar ainda mais encantado com o espaço.

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No Brasil, até o século 18 os enterros eram em sua maioria dentro das igrejas, em pequenos terrenos anexos e/ou espaços rurais, capelas e jazigos familiares dentro dos engenhos e fazendas. O próprio São João ainda tem sepulcros na base de sua capela.

Nas igrejas os não católicos – judeus, ciganos, protestantes, africanos e indígenas não catequizados – assim como os suicidas não podiam ser sepultados, então havia lugares não consagrados, fora dos templos, destinados à esses grupos e pessoas.

Com a criação dos cemitérios, que deveriam ajudar a higienizar a cidade e separar os espaços do viver e do morrer algumas dessas práticas permaneceram. É isso que podemos testemunhar no São João Batista de Fortaleza, assim como em muitos outros cemitérios do país e do mundo. Fora dos muros os indesejados continuavam sendo segregados mesmo ao morrer.

Aliás, os cemitérios eram quase que um mapa da sociedade em que estavam inseridos – em outra oportunidade da coluna podemos pensar a geografia social da morte e do morrer no Ceará; é uma visão sociológica fantástica – a lógica cemiterial nega o velho jargão que a morte torna todos iguais, isso pode até valer para o indivíduo que parte – só saberemos quando tivemos partido também – porque para os que ficam e para a sociedade em geral as desigualdades apenas se tornam permanentes nas pedras do último descanso.

Há uma hierarquia cemiterial, um status sepulcral e os sepultamos extramuros demonstravam aqueles que, pelos mais diversos motivos, estavam na parte mais baixa de nossa construção social. Quem for visitar o espaço, ainda hoje, pode ver os resquícios do muro que separava o campo santo católico do lugar dos não-crentes registrando a perigosa e violenta divisão entre o nós e o eles.

A ausência de uma comunidade judaica organizada, de sinagogas e cemitérios judaicos levou ao fenômeno dos sepultamentos extramuros aqui de Fortaleza, contar a história desses sepultamentos apartados, dos excluídos até no sepulcro é pensar nas invisibilidades e silenciamentos da história, não eram apenas judeus que não podiam descansar dentro do campo santo então quantos mais clamam do túmulo pelo resgate de suas histórias?

Os Judeus no Ceará

Mas a história dos túmulos judaicos não é apenas uma história de segregação ela também nos ajuda a contar nosso papel no acolhimento e recepção dos perseguidos e desafortunados. É preciso ler esses túmulos para além da sua obviedade excludente. O professor Nilton Melo Almeida foi além do registro desses marcos de memória, ele buscou os nomes, as origens e os caminhos dos emigrantes judeus que finalizaram sua trajetória de vida em terras cearenses.

As letras hebraicas, palavras em iídiche, símbolos judaicos talhados nas lápides do cemitério – o escudo/estrela de David, as mãos se apertando em cumprimento, ramos de oliveira cruzados – sinais que tornam inegável a presença judaica e constituem um conjunto de códigos e mensagens, prontas para serem lidas e aprofundadas. A história dos judeus no Nordeste tem várias fases e momentos (cada um mereceria um texto próprio), os cristãos novos na primeira parte da colônia pertencem à um universo, os israelitas vindos no bojo da invasão holandesa pertencem à outra lógica entre outros marcam nossa ligação com o judaísmo, mas, os túmulos do São João Batista são de outro contexto.

A história das famílias judias ali sepultadas está ligada ao antissemitismo racialista que crescia vertiginosamente entre o século 19 e 20 e que culminaria em pogroms, chacinas e no extremo do holocausto praticados pelos nazistas. O antissemitismo fez do Ceará o lar desses refugiados e como sempre ocorre eles ajudaram a fazer o Ceará, alguns eram banqueiros, muitos eram comerciantes sagazes que apesar das dificuldades usaram seu tino comercial para crescer economicamente, famílias se destacaram no beneficiamento de óleo e de algodão. Muitos eram apenas pobres refugiados, mas se integraram a nossa gente já tão miscigenada e hoje são parte de nossa cearensidade.

Fortaleza, Sobral, Aracati e outras cidades cearenses foram o destino destas famílias já suas origens aparecem em muitos dos túmulos. França, Rússia, Alemanha, cidades, vilarejos e comunidades são registrados como se pedissem pra que essas histórias não se apaguem, como se estivessem deixando a pista para um detetive reconstruir a dor e a violência que expulsou esses homens e mulheres de suas terras e os trouxe a nosso estado. Seus caminhos e descaminhos ajudam a traçar o mapa da resistência antissemita, antirracista e antifascista no mundo dos dois séculos passados.

Aqueles túmulos não servem apenas a narrativa da imigração no Estado, servem ao debate sempre pertinente e necessário sobre tolerância, democracia e respeito às diferenças, em todas as suas expressões. Brauns, Kleins, Blocs Boris, Cohens, Levys, Mathias, Cohns, Fitermans entre muitos outros, são famílias cearenses que ajudam a contar a(s) história(s) de um Ceará que vai muito além dos livros, um Ceará multiétnico, multirracial, multicultural e por isso mesmo apaixonante.


* Pogrom é uma palavra russa que significa "causar estragos, destruir violentamente". Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países. Acredita-se que o primeiro incidente deste tipo a ser rotulado pogrom foi um tumulto anti-semita ocorrido na cidade de Odessa em 1821. Disponível em Enciclopédia do Holocausto – Museu Memorial do Holocausto https://www.ushmm.org/