O Ceará e a construção de uma potência educacional

Comemorar resultados não significa romantizar as dificuldades enfrentadas pelas instituições.

Escrito por
Italo Henrique producaodiario@svm.com.br
Legenda: Formar estudantes e treinar bons pesquisadores é apenas uma parte do processo: é preciso criar caminhos para o desenvolvimento desses talentos e para mantê-los no estado.
Foto: Monstera Production/Pexels.

A educação pública cearense é uma das grandes potências do país e, a cada ano, tem alcançado patamares cada vez mais altos. Exemplo disso é que, em 2026, a capital cearense, será a primeira cidade brasileira fora do estado de São Paulo a receber a aplicação das provas do vestibular da Universidade de São Paulo (USP), em uma edição inédita da Fuvest fora do estado. E um campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) está sendo construído também na capital, com previsão de início das atividades em 2027.

No entanto, os resultados da educação cearense já vêm se destacando há bastante tempo, e esses são apenas alguns exemplos atuais de como o estado do Ceará tem sido cada vez mais valorizado como um expoente na educação básica e superior.

Em 2025, nos resultados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), 24 escolas públicas cearenses que ofertam os anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) apareceram no ranking como as 24 melhores colocadas.

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E isso mostra como a educação básica cearense tem avançado e enfrentado os desafios educacionais, principalmente após os percalços causados pelo período pandêmico. Além disso, no ensino superior, o Ceará também se destaca nas mais diversas áreas do conhecimento, tendo a Universidade Federal do Ceará 
(UFC) e a Universidade Estadual do Ceará (Uece)
como importantes representantes desses resultados e presentes em vários rankings entre as melhores instituições de ensino e pesquisa do Norte-Nordeste e do Brasil.

Os pesquisadores dessas instituições também têm aparecido em importantes listas de cientistas mais influentes do mundo, como a organizada pela Universidade de Stanford (EUA) e publicada pela editora Elsevier: na edição publicada em 2025, 16 pesquisadores da UFC apareciam na lista.

Esses resultados são mais do que números isolados: representam o processo de longos anos de construção e fortalecimento da educação cearense, principalmente na educação básica, que é o alicerce da formação dos estudantes.

O Ceará tem se consolidado como um importante polo de ciência, educação e tecnologia fora do eixo Rio-São Paulo. Esse movimento tem trazido novas oportunidades para que cearenses e nordestinos de outros estados não precisem se deslocar milhares de quilômetros para sua formação ou para buscar empregos nos grandes centros tradicionais.

Porém, formar estudantes e treinar bons pesquisadores é apenas uma parte do processo: é preciso criar caminhos para o desenvolvimento desses talentos e para mantê-los no estado.

Isso evita fenômenos como a chamada “fuga de cérebros”, em que profissionais das áreas de ciência e tecnologia acabam indo embora de sua terra natal para buscar melhores oportunidades de emprego em outros estados ou até mesmo países.

Então, para isso, é necessário investir em infraestrutura, mais concursos para professores, a fim de criar oportunidades de emprego com mais estabilidade, evitando rotatividade entre diferentes escolas ou insegurança na busca de emprego; melhores salários, bonificações e melhores condições de trabalho em geral; além do investimento direto na qualidade do ensino, nas olimpíadas de ciência e nos indicadores de aprendizado das matérias de base, como português, matemática, história e geografia.

E, no nível superior, também é fundamental subsidiar melhores oportunidades, principalmente porque o estado forma excelentes pesquisadores em nível de mestrado e doutorado em suas instituições federais e estaduais.

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Mas é preciso fortalecer os programas de iniciação científica, mestrado e doutorado, com melhores condições de trabalho e bolsas que paguem valores adequados ao custo de vida, já que, na maioria dos casos, é necessária dedicação exclusiva para realizar uma pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado). Com os valores atuais das bolsas, é difícil se manter apenas com esse recurso, principalmente nos grandes centros, como Fortaleza.

Além disso, também é necessário criar mais oportunidades de concursos para professores no ensino superior, para manter esses talentos no estado, o que contribui diretamente para o desenvolvimento científico e tecnológico do próprio Ceará, e convocar os professores que foram aprovados em concursos e ainda não foram chamados.

E, principalmente, melhorar a infraestrutura das instituições públicas, seja com reformas ou com a construção de novos espaços para aquelas que já estão pequenas para as necessidades da universidade.

E outro ponto importante de se pensar é na descentralização desses investimentos para regiões além dos grandes centros, já que as regiões mais interioranas podem acabar ficando de fora, e isso impacta diretamente seus resultados, seja nos índices de educação, nos resultados no Enem, nos vestibulares tradicionais ou nas pesquisas nas universidades.

Além de que interiorizar essas oportunidades é também investir na população cearense e nas comunidades mais rurais. Levar as escolas, as universidades e seus estudantes e pesquisadores para mais perto da população fortalece o desenvolvimento da sociedade como um todo, para além do científico, do tecnológico e do econômico, pois possibilita o contato entre a academia (a universidade) e a comunidade, levando acesso à informação, projetos de extensão e pesquisa que fortalecem o desenvolvimento local e o consequente desenvolvimento do estado.

Isso permite que a população mais jovem, e a população em idades mais maduras, também possa se projetar nesses espaços e se ver no ensino superior, trabalhando nessas áreas, sendo pesquisadora e sonhando com melhores possibilidades de futuro.

Comemorar resultados não significa romantizar as dificuldades enfrentadas por essas instituições, principalmente no que diz respeito aos desafios enfrentados por estudantes e professores.

Significa, antes, valorizar os resultados, a história e a força dos envolvidos, além de abrir caminhos para que possamos pensar e cobrar dos representantes no poder melhores condições para a educação pública cearense e para quem vive dela.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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