Tarifaço de Trump dá a Lula oportunidade de reverter a queda de popularidade
Resgatar o discurso nacionalista de "soberania" geralmente socorre bem governos em crise
A ameaça de Donald Trump de tarifas de importação ao Brasil, o que preocupa o setor produtivo cearense, pode cair, por mais paradoxal que pareça, como oportunidade política no colo do presidente Lula, em um momento de desgaste crescente na popularidade e de questionamentos à capacidade de articulação de seu governo.
O presidente americano, ao prometer retaliações comerciais a partir do próximo mês, acabou oferecendo a Lula a chance de retomar o discurso de defesa da “soberania nacional”, um papel que, historicamente, mobiliza apoios e fortalece governos em momentos de crise. Na política, às vezes, o adversário certo é o melhor aliado.
O gesto de Trump ainda produziu um efeito colateral, principalmente nas redes sociais: exposição a possíveis contradições do discurso nacionalista, até recentemente capturado pelo bolsonarismo.
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Ao associar o clã Bolsonaro às pressões americanas contra o Brasil e contra o Supremo Tribunal Federal, a narrativa pode se inverter.
Ironicamente, a medida anunciada por Trump dá ao governo brasileiro a possibilidade de difundir o discurso político alimentado após a derrubada dos decretos do IOF no Senado sobre a taxação dos super-ricos. Segundo o discurso que circula entre aliados de Lula, o governo queria cobrar maior contribuição aos milionários, mas Bolsonaro e seu aliados querem taxar e prejudicar a economia inteira.
Lula ganha tempo, mas vai precisar de habilidade
No jogo bruto da política, Lula ganha tempo e narrativa, mas terá de mostrar habilidade para transformar o episódio em capital político. Caso contrário, o mesmo fato que ele serviu como respiro pode ser cobrado adiante como mais uma omissão diante de ameaças externas.
Para agora, Trump deu munição a um Lula acuado. As formas de resolver a crise e capitalizar estão nas mãos do presidente brasileiro.