Aeroporto de Fortaleza perde competitividade na atração de sul-americanos
Ao mesmo tempo em que se consolida como o principal hub do Nordeste para a Europa — com incremento de voos da Latam, TAP, Air France e Iberia —, Fortaleza perde espaço na expansão da malha aérea para a América do Sul.
Fortaleza já tem destaque em conectividade para a Europa e é a única capital nordestina com ligações aos Estados Unidos. No entanto, está atrás de outras capitais do Nordeste na atração de turistas sul-americanos.
Outros estados vizinhos empilham companhias aéreas voando para o cone-sul, e o Ceará segue apenas com a Gol, com dois voos semanais para Buenos Aires e um voo por semana para Montevidéu.
Em algumas semanas, a Latam confirmou o fim do voo a Santiago em Fortaleza e priorizou Natal, Maceió e Recife para implementar novas frequências para Argentina. Além disso, a Jetsmart escolheu Maceió para inaugurar nova rota para Buenos Aires.
Reforço Nordeste-Argentina
A América do Sul continua relevante para várias companhias aéreas a partir do Nordeste. O resultado disso é o crescimento do turismo argentino na região nos últimos anos.
Prova disso é que a própria Latam decidiu expandir suas operações na região, criando voos para Buenos Aires a partir de Natal e Maceió e reforçando a oferta em Recife. Mas não a partir de Fortaleza, sua principal base no Nordeste.
Fortaleza tem a melhor capilaridade doméstica da Latam e a maior capacidade de alimentar voos internacionais. Em condições normais, seria natural que concentrasse também as conexões com a América do Sul.
Ainda assim, a cidade ficou completamente fora desse movimento, permanecendo com suas duas frequências semanais a Buenos Aires e uma semanal a Montevidéu com a Gol.
Partidas para Argentina por cidade
Dezembro de 2026
- Salvador: 42
- Natal: 28
- Recife: 42
- Fortaleza: 8
- Maceió: 15
Janeiro de 2027
- Salvador: 78
- Natal: 58
- Recife: 42
- Fortaleza: 10
- Maceió: 26
O cenário dos benefícios fiscais e os ganhos econômicos das companhias
O mal resultado do voo Latam para Santiago depõe contra a capacidade cearense de atrair sul-americanos.
Além disso, uma possível explicação passa pela lógica econômica e pelos incentivos tributários. A Latam é uma companhia ainda pragmática e direciona seus investimentos para onde a equação financeira realmente faz mais sentido.
Assim, com a expansão das frequências para Lisboa, é provável que a empresa já tenha atingido o nível máximo de benefícios fiscais disponíveis no Ceará, especialmente relacionados ao combustível de aviação.
A partir desse ponto, novos voos deixam de trazer ganhos adicionais nesse aspecto e passam a depender exclusivamente da rentabilidade da rota.
Enquanto isso, estados como Rio Grande do Norte e Alagoas ainda podem ter espaço para oferecer incentivos adicionais ou condições mais atrativas, sobretudo para operações sazonais e sensíveis a preço, como voos para Buenos Aires. Nesse cenário, deslocar a expansão para esses mercados passa a ser uma decisão lógica do ponto de vista empresarial.
O efeito dessa estratégia é um desequilíbrio. Fortaleza tornou-se forte para atravessar o Atlântico, com operações maduras e bem estruturadas, mas segue com presença limitada naquilo que deveria ser mais natural a integração com a América do Sul.
“Fortaleza consolida seu papel como hub internacional estratégico da companhia, enquanto Natal, Maceió e Recife ampliam sua conexão com um dos mercados emissores mais relevantes para a região durante a alta temporada”, disse a Latam em nota.
O Ceará está, portanto, deixando muito dinheiro na mesa. Os argentinos inundam destinos de praia brasileiros. Só entre janeiro e maio de 2026, por voos diretos, chegaram ao Brasil 961.332 argentinos, segundo números da Embratur.
Os voos diretos da Gol no Ceará responderam por apenas 5.565 argentinos. A Bahia atraiu 50.196 turistas, Pernambuco, 35.709, o Rio Grande do Norte, 25.929.
O Ceará perde competitividade com esse resultado de atração de turistas sul-americanos, uma vez que os visitantes movimentam a economia e toda a cadeia produtiva.
Fontes de setores diversos explicam que já tentativa de criar novos incentivos a companhias aéreas para impulsionar a vinda desses turistas. Os incentivos fazem muito sentido, nesse caso.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.