Aeroporto de Fortaleza perde competitividade na atração de sul-americanos

Escrito por
Igor Pires igor.aer.ita@gmail.com
Legenda: Aeroporto de Fortaleza virou hub internacional para voos para Europa, a exemplo da Air France.
Foto: Renato Bezerra.

Ao mesmo tempo em que se consolida como o principal hub do Nordeste para a Europa — com incremento de voos da Latam, TAP, Air France e Iberia —, Fortaleza perde espaço na expansão da malha aérea para a América do Sul.  

Fortaleza já tem destaque em conectividade para a Europa e é a única capital nordestina com ligações aos Estados Unidos. No entanto, está atrás de outras capitais do Nordeste na atração de turistas sul-americanos.  

Outros estados vizinhos empilham companhias aéreas voando para o cone-sul, e o Ceará segue apenas com a Gol, com dois voos semanais para Buenos Aires e um voo por semana para Montevidéu. 

Em algumas semanas, a Latam confirmou o fim do voo a Santiago em Fortaleza e priorizou Natal, Maceió e Recife para implementar novas frequências para Argentina. Além disso, a Jetsmart escolheu Maceió para inaugurar nova rota para Buenos Aires.  

Reforço Nordeste-Argentina 

A América do Sul continua relevante para várias companhias aéreas a partir do Nordeste. O resultado disso é o crescimento do turismo argentino na região nos últimos anos.  

Prova disso é que a própria Latam decidiu expandir suas operações na região, criando voos para Buenos Aires a partir de Natal e Maceió e reforçando a oferta em Recife. Mas não a partir de Fortaleza, sua principal base no Nordeste. 

Fortaleza tem a melhor capilaridade doméstica da Latam e a maior capacidade de alimentar voos internacionais. Em condições normais, seria natural que concentrasse também as conexões com a América do Sul.  

Ainda assim, a cidade ficou completamente fora desse movimento, permanecendo com suas duas frequências semanais a Buenos Aires e uma semanal a Montevidéu com a Gol. 

Partidas para Argentina por cidade 

Dezembro de 2026

  • Salvador: 42
  • Natal: 28
  • Recife: 42
  • Fortaleza: 8
  • Maceió: 15

Janeiro de 2027

  • Salvador: 78
  • Natal: 58
  • Recife: 42
  • Fortaleza: 10
  • Maceió: 26

O cenário dos benefícios fiscais e os ganhos econômicos das companhias

O mal resultado do voo Latam para Santiago depõe contra a capacidade cearense de atrair sul-americanos. 

Além disso, uma possível explicação passa pela lógica econômica e pelos incentivos tributários. A Latam é uma companhia ainda pragmática e direciona seus investimentos para onde a equação financeira realmente faz mais sentido.  

Assim, com a expansão das frequências para Lisboa, é provável que a empresa já tenha atingido o nível máximo de benefícios fiscais disponíveis no Ceará, especialmente relacionados ao combustível de aviação.  

A partir desse ponto, novos voos deixam de trazer ganhos adicionais nesse aspecto e passam a depender exclusivamente da rentabilidade da rota. 

Enquanto isso, estados como Rio Grande do Norte e Alagoas ainda podem ter espaço para oferecer incentivos adicionais ou condições mais atrativas, sobretudo para operações sazonais e sensíveis a preço, como voos para Buenos Aires. Nesse cenário, deslocar a expansão para esses mercados passa a ser uma decisão lógica do ponto de vista empresarial.  

O efeito dessa estratégia é um desequilíbrio. Fortaleza tornou-se forte para atravessar o Atlântico, com operações maduras e bem estruturadas, mas segue com presença limitada naquilo que deveria ser mais natural a integração com a América do Sul.  

“Fortaleza consolida seu papel como hub internacional estratégico da companhia, enquanto Natal, Maceió e Recife ampliam sua conexão com um dos mercados emissores mais relevantes para a região durante a alta temporada”, disse a Latam em nota. 

O Ceará está, portanto, deixando muito dinheiro na mesa. Os argentinos inundam destinos de praia brasileiros. Só entre janeiro e maio de 2026, por voos diretos, chegaram ao Brasil 961.332 argentinos, segundo números da Embratur. 

Os voos diretos da Gol no Ceará responderam por apenas 5.565 argentinos. A Bahia atraiu 50.196 turistas, Pernambuco, 35.709, o Rio Grande do Norte, 25.929. 

O Ceará perde competitividade com esse resultado de atração de turistas sul-americanos, uma vez que os visitantes movimentam a economia e toda a cadeia produtiva.  

Fontes de setores diversos explicam que já tentativa de criar novos incentivos a companhias aéreas para impulsionar a vinda desses turistas. Os incentivos fazem muito sentido, nesse caso.  

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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