Quando a força vira sobrecarga

Que espaço é esse, que para ocupá-lo precisamos nos abandonar?

Escrito por
Eliziane Correia eliziane.correia@svm.com.br
(Atualizado às 08:25)
Legenda: A força, então, deixa de ser recurso e passa a ser personagem. E o cansaço deixa de ser alerta para virar estilo de vida
Foto: Pexels/ Mateo Franciosi

Durante muito tempo nos ensinaram que força era sinônimo de resistência. Que mulheres fortes eram aquelas que suportavam mais. Que conseguiam equilibrar trabalho, casa, filhos, relacionamentos, autocuidado e ainda permanecer sorrindo. Aprendemos a admirar a mulher que resolve, que antecipa problemas, que não reclama, que encontra um jeito.

E eu entendo de onde vem esse discurso. Ele nasce de uma história em que mulheres precisaram ocupar espaços que lhes foram negados por muito tempo. Espaços de autonomia, liberdade financeira, reconhecimento e escolha. Existe conquista nisso. Mas existe também uma armadilha silenciosa.

Em algum momento, o direito de ocupar espaços começou a se confundir com a obrigação de provar que conseguimos ocupar todos eles ao mesmo tempo. E talvez essa seja uma das maiores contradições da mulher contemporânea: transformar liberdade em desempenho.

Sem perceber, começamos a acreditar que descansar é fraqueza. Que pedir ajuda é incapacidade. Que desacelerar significa perder espaço. E assim, o que nasceu como conquista passa, muitas vezes, a funcionar como mais uma cobrança.

Porque não basta trabalhar. É preciso performar excelência. Não basta ser mãe. É preciso viver uma maternidade consciente, produtiva, afetiva, presente e ainda preservar a própria identidade. Não basta cuidar. É preciso fazer isso sem parecer cansada.

A força, então, deixa de ser recurso e passa a ser personagem. E o cansaço deixa de ser alerta para virar estilo de vida, isso explica tantas mulheres exaustas sem conseguir nomear exatamente o motivo. É o peso emocional de sustentar expectativas.

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Na maternidade, esse cenário se torna ainda mais evidente. Porque quando um filho nasce, nasce também uma avalanche invisível de responsabilidades. Existe o cuidado concreto - alimentar, organizar, proteger, acompanhar. Mas existe outro trabalho que quase nunca aparece: lembrar consultas, antecipar necessidades, observar emoções, planejar rotinas, sustentar vínculos, organizar o invisível. E tudo isso costuma vir acompanhado de uma narrativa perigosa: a de que estamos conquistando espaço.

Mas que espaço é esse, se para ocupá-lo precisamos nos abandonar? Escrevo esta coluna não como crítica à força feminina. Mas para lembrar que existe uma diferença importante entre potência e sobrecarga, entre fazer escolhas e acreditar que precisamos dar conta de tudo para validar essas escolhas.

Solo fértil também precisa de cuidado

Mãe abraçando filho em uma floresta
Legenda: Para que, quando nossos filhos florescerem, a gente também esteja inteira para florescer junto.
Foto: Pexels/ Wallace Silva

Priorizar quem você é não diminui quem você cuida. Ao contrário, essa é uma forma coerente de cuidado. No início parece estranho, duro ou até egoísmo. Mas talvez seja apenas porque fomos educadas para acreditar que cuidar de nós mesmas deveria acontecer depois.

Depois do filho dormir.
Depois do trabalho terminar.
Depois de resolver tudo.
Depois de todo mundo.

Só que existe uma pergunta que a maternidade me ensinou a fazer: "Quem eu estou me tornando enquanto cuido de quem eu amo?"

Queremos tanto sucesso na criação dos nossos filhos que, às vezes, esquecemos de estar emocionalmente presentes para viver as fases que passam tão rápido. criar filhos tem menos relação com fazer tudo certo e mais relação com mostrar como se vive.

Os instantes. As conversas sem pressa. Os abraços espontâneos. Os erros reparados. Os dias comuns. São esses detalhes que permanecem!

Talvez exista uma energia silenciosa que deixamos nos nossos filhos, feita da forma como olhamos o mundo, como cuidamos de nós mesmos e como atravessamos a vida. E é por isso que acredito que nosso maior legado não seja mostrar a eles como suportar tudo. Mas ensinar que viver também é saber descansar. Que amar também é se preservar. E que flores bonitas não nascem de solo exausto.

Para que, quando nossos filhos florescerem, a gente também esteja inteira para florescer junto.