Os heróis da atualidade: pais que mostram humanidade no lugar de perfeição
Ao abandonarem o papel de perfeitos, pais ajudam os filhos a desenvolver confiança, empatia e segurança emocional.
Durante muito tempo, a figura da mãe e do pai ocupou um lugar quase mítico no imaginário infantil. Para uma criança, os pais sabiam tudo, resolviam tudo e raramente erravam. Eram fortes, coerentes, inabaláveis. Os heróis da vida real.
Mas alguma coisa mudou.
Talvez pela forma como as relações familiares vêm se transformando. Talvez pela necessidade de construir vínculos mais verdadeiros. O fato é que a maternidade e a paternidade parecem cada vez menos interessadas em sustentar a imagem da perfeição e mais comprometidas em revelar a humanidade que existe por trás dela.
Hoje, muitos pais já não têm receio de admitir que estão cansados, que não sabem todas as respostas ou que também cometem erros. E isso não diminui sua autoridade. Pelo contrário. O lado heroico não desapareceu. Apenas ganhou novos contornos.
O herói contemporâneo não é aquele que nunca falha. É aquele que reconhece suas limitações e, ainda assim, continua disposto a aprender, evoluir e oferecer o melhor de si para os filhos.
Para a psicóloga e psicanalista Beatriz Breves, expor emoções de forma equilibrada demonstra uma fortaleza interna e a capacidade de lidar com os próprios sentimentos. Segundo ela, isso é diferente da vulnerabilidade associada à dificuldade de compreender e administrar as próprias emoções.
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“A mensagem que esses pais passam para os filhos é exatamente essa: isso faz parte da vida, você também vai sofrer como eu, como qualquer ser humano. Trata-se de uma força interna, emocional, capaz de lidar com as intempéries da vida."
Na figura materna e paterna existem defeitos, manias, inseguranças e marcas herdadas de suas próprias histórias. Existem experiências que moldam a forma como educam, acolhem e enfrentam os desafios diários. E talvez seja justamente essa consciência que os torne mais preparados para criar filhos emocionalmente saudáveis.
Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, acelerado e urgente. Mas não existe tecnologia, inteligência artificial ou inovação capaz de substituir aquilo que uma presença afetiva oferece: o sentimento de pertencimento, o acolhimento diante das dificuldades e a segurança de saber que existe alguém disposto a caminhar ao lado. É nesse espaço que se formam não apenas crianças, mas os adultos que elas se tornarão.
A quebra da expectativa
Um dos maiores aprendizados que podemos oferecer aos nossos filhos é mostrar que errar não é o fim do caminho.
Como ensinar que o erro faz parte do crescimento se fingimos não errar?
Vejo pais cada vez mais verdadeiros com seus filhos. E, na medida certa, isso pode ajudar uma geração que cresce cercada pela comparação, pela pressa e pela necessidade de acertar sempre.
Quando digo à minha filha que não sei responder determinada pergunta, estou ensinando que ninguém precisa saber tudo. Quando explico por que não posso atendê-la naquele momento, estou mostrando que os limites também fazem parte das relações. Quando peço desculpas por um erro, ensino que reconhecer falhas não diminui ninguém. Não há nada mais respeitoso do que isso.
."É retornar, é reassumir a condição humana e se afastar cada vez mais desse ideal robótico de perfeição. Isso não existe. Nós somos seres humanos, e a característica principal do ser humano é que a gente sente, e a gente sente de tudo. Sentir não é uma coisa ruim, e poder administrar o que se sente é a grande riqueza humana."
Nesse processo, minha filha não aprende apenas sobre mim, aprende sobre si mesma, entende que pode errar, aprender, recomeçar e continuar sendo digna de amor. O respeito baseado no medo perde espaço. Em seu lugar surge algo mais sólido: a confiança. E é ela que transforma pais em referências.
No fim das contas, não quero que minha filha me enxergue como alguém perfeito. Quero que ela veja alguém verdadeiro. Alguém que tenta, corrige rotas e continua crescendo. Alguém que ela admire não por nunca cair, mas por sempre encontrar um jeito de se levantar.