A solidão silenciosa das tentantes

O relato de Sheron Menezzes revela desafios emocionais que muitas mulheres enfrentam longe dos holofotes

Escrito por
Eliziane Correia eliziane.correia@diaridonordeste.com.br
Legenda: Sharon Menezzes é mãe de Benjamin e tenta há três anos uma nova gravidez
Foto: Reprodução Instagram

Entre testes negativos, expectativas e o medo do tempo, mulheres que tentam engravidar enfrentam uma jornada marcada por ansiedade, renúncias e uma espera que quase ninguém consegue compreender por inteiro.

“Será que é esse mês?”

“Esse sintoma quer dizer alguma coisa?”

“Será que eu consigo?”

“O meu prazo acaba quando?”

E então vem mais um teste negativo.

Essas são algumas das perguntas que atravessam diariamente a mente de uma tentante - pessoa ou casal que está tentando engravidar. Percebe a profundidade dessa palavra? Não se trata apenas de uma tentativa, existe um sonho inteiro sendo construído ali.

Recentemente me deparei com um vídeo publicado pela atriz Sheron Menezzes em suas redes sociais. No relato, ela se define como “tentante” e compartilha a jornada de três anos tentando engravidar.  No desabafo, Sheron fala sobre o quanto é difícil perder a espontaneidade da vida, transformar a rotina em cálculos, controlar expectativas e abrir mão de tantas coisas para continuar acreditando no processo.

Nesse relato, dá pra sentir o desejo de formar ou ampliar uma família, de continuar uma história, de viver uma experiência imaginada durante anos. Existe aqui uma mulher reorganizando emoções, rotina, corpo, carreira e expectativas em torno de uma esperança que passa a ocupar todos os espaços da vida.

Por isso, frases como “uma hora acontece” ou “tente relaxar” quase nunca conseguem acolher verdadeiramente quem atravessa esse processo. Porque a dor da espera não se resolve com frases rasas. Ela nasce justamente da ausência de respostas.

A maternidade deixa de ocupar apenas o campo do desejo e passa a atravessar o corpo, o tempo e a identidade da mulher. É o corpo que já não se reconhece completamente fértil ou capaz. É a sensação de estar correndo contra o relógio enquanto o mundo continua avançando normalmente ao redor. É a mulher que, muitas vezes, coloca outros sonhos em pausa porque o desejo de maternar se torna urgente, inquieto e emocionalmente avassalador. 

Em cada expectativa frustrada, existe um luto que quase nunca é validado socialmente porque nada chegou a existir concretamente para o outro. Mas, para aquela mulher, existiu. Existiram planos, projeções, nomes imaginados, futuros desenhados em pensamento. A ausência também cria vínculos. E talvez por isso até o cansaço que tantas mães relatam chegue a fazer falta para quem ainda espera viver essa experiência.

Entre uma tentativa e outra, existem detalhes que precisam ser discutidos com mais responsabilidade e acolhimento:

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A pressão estética. A ansiedade diante da espera. O medo de que o tempo esteja passando rápido demais. As cobranças, muitas vezes silenciosas, da família e da sociedade. Os impactos financeiros dos tratamentos. O desgaste emocional que pode atingir os relacionamentos. A culpa que surge sem motivo real. E a comparação constante com outras mulheres, alimentada por histórias, expectativas e pelas redes sociais.

Tudo isso atravessa a rotina de quem tenta engravidar. E ainda assim, muitas vivem esse processo em silêncio. Porque existe uma solidão específica na mulher que espera. Ela aprende a decifrar sintomas, calcular períodos férteis, controlar emoções diante de anúncios de gravidez e, ao mesmo tempo, continuar funcionando normalmente na vida cotidiana. Como se nada estivesse acontecendo, mas está.

Existe uma mulher inteira tentando sustentar a própria esperança. A parte difícil é justamente aceitar que nem tudo depende apenas de esforço, planejamento ou desejo. Existe uma dimensão da maternidade que foge completamente do controle humano. O milagre.

Independentemente das crenças de cada família, gerar uma vida também atravessa aquilo que não conseguimos explicar totalmente. Há encontros, tempos, processos e mistérios que não obedecem à lógica da urgência. E aceitar isso pode ser doloroso. Mas também pode ser um caminho possível de respiro.

A atriz Sheron Menezzes decidiu congelar óvulos, uma escolha que vai além do desejo pessoal e revela os dilemas de muitas mulheres que tentam conciliar maternidade, carreira e tempo. Após um novo teste de gravidez negativo e o convite para protagonizar a novela “Por Você”, ela refletiu sobre os próximos passos. A decisão expõe o que nem sempre é visível: pausas, renúncias e rearranjos silenciosos em uma jornada marcada por esperança e incertezas

Se você está tentando engravidar, espero que encontre acolhimento no meio dessa espera. Que encontre profissionais responsáveis, relações que ofereçam apoio e espaços seguros para falar sobre seus medos sem julgamento. E, principalmente, que consiga preservar quem você é para além desse processo. Porque a espera também molda a mulher que você se torna. 

Nenhuma trajetória é pequena só porque ainda não chegou ao destino esperado. E, caso a vida escolha outro caminho, que exista amor suficiente para compreender que continuar sonhando também pode significar encontrar novas rotas para florescer.