Victoria’s Secrets aposta em corpos novos, mas tropeça em questões antigas
Victoria’s Secrets continua tentando trazer corpos maiores e discursos atualizados, mas ainda deixa uma dúvida: inclusão real ou marketing com renda?
Mais um desfile da Victoria’s Secret, realizado no dia 15, e mais uma tentativa de reeguer-se e recobrar sua reputação. Após anos de boicotes, cancelamentos e um hiato constrangedor, a marca apareceu na passarela como quem bate à porta da festa que ela mesma destruiu, tentando convencer que mudou o comportamento, os moldes e, principalmente, o olhar.
Entre luzes estouradas, trilha meticulosamente cool e uma estética reciclada dos anos 2000, vimos algo diferente na história recente da marca: corpos maiores ocupando o mesmo palco que, até pouco tempo atrás, era reservado a mulheres com abdominais definidos por bisturi e contrato milionário.
As modelos “plus size”, finalmente, apareceram. Por si só, muda a paisagem, mas não esconde o que ainda há por trás.
Veja também
Mas calma, não dá pra falar em revolução sem levantar a sobrancelha. A presença de manequins maiores foi celebrada, é fato, mas pareceu, por vezes, mais uma estratégia de rebranding do que uma convicção genuína.
A Victoria’s Secret passou décadas vendendo um ideal de corpo inalcançável, ignorando críticas e corpos que fugiam da curva. Só quando a conta chegou (em vendas, imagem e processos) veio a tal guinada "inclusiva”. Mas será se é inclusivo mesmo?
Ainda assim, uma das modelos plus size desfilou com segurança e sem que a marca tentasse escondê-la atrás de um styling que “disfarça volumes”. Outro highlight foi a diversidade de tons de pele, cabelos e alturas, algo que, em outros tempos, seria prontamente vetado pelo comitê de anjos de ossos visíveis.
O público pareceu dividido entre o entusiasmo do “antes tarde do que nunca” e a lembrança incômoda de que essa é a mesma empresa cujo ex-diretor dizia que corpos maiores “não vendiam fantasia”. Agora vendem ou a fantasia mudou?
O desfile também entregou beleza, claro: peças com renda estruturada, cores mais sóbrias, menos glitter e um ar de “mulher real” cuidadosamente roteirizado. O problema é que, quando a autenticidade envolve planejamento estratégico e PowerPoint, o encantamento vem com nota de rodapé.
Por fim, o retorno da Victoria’s Secret é um estudo de caso sobre como marcas tentam sobreviver aos novos tempos: cedendo onde antes criticavam, adaptando discurso e, quem sabe, aprendendo algo no processo. Algo que eu, particularmente, continuo duvidando.
As modelos plus size não resolvem o passado da marca, mas abriram a fenda necessária para que o futuro não seja feito só de cinturas inexistentes.
* Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora