Meninas vestem rosa e meninos… também!

Tem cor mais mal compreendida que o rosa? Hoje, símbolo de feminilidade, delicadeza e romance, a cor de rosa não foi criada para o público feminino e, sim, para os homens,

Escrito por
Elaine Quinderé verso@svm.com.br
Legenda: Patrick Schwarzenegger usa rosa em desfile da Fenty como marca de ousadia
Foto: Angela Weiss/ AFP

Quem acha que o rosa é “cor de menina”, respira! Parabéns, você caiu numa das maiores fake news cromáticas da história. Antes de ser sequestrada pela indústria dos brinquedos, o rosa era… masculino. Isso mesmo, criada especialmente para os homens.

Vamos voltar no tempo, mais especificamente para a época em que homens usavam meias-calças rendadas e perucas que fariam qualquer amante da Barbie chorar de inveja.

O rosa é, nada mais, nada menos, que uma versão mais clara do vermelho, que era associado à força, paixão, poder. Vermelho era a cor do sangue, da guerra, do fogo. E rosa? Um vermelho jovial. Ideal para meninos em formação que um dia se tornariam chefes de família, generais e, com sorte, reis. Já o azul era mais delicado, celestial. Azul era a cor da Virgem Maria. Azul era feminino.

Veja também

Mas aí veio o século XX e foi aí que tudo desandou. Odiar a cor rosa virou um produto, a indústria percebeu que iria lucrar muito mais se criasse uma “versão para menino” e uma “versão para menina”. Brinquedos, roupas, papéis de parede, até escova de dente começaram a ser coloridos por gênero. E adivinha quem ficou com o rosa? Ela mesma: a menina indefesa, frágil e submissa.

O rosa foi feminilizado. Transformado numa prisão visual que grita “delicadeza obrigatória” e passou a carregar os mesmos estigmas impostos à ideia de “ser mulher”. E os meninos? Foram expulsos do paraíso rosa e empurrados para um azul sério e viril.

Pior que isso, foi a patrulha que se formou em volta: homem de rosa? Afeminado. Menina que não gosta de rosa? Rebelde.

Homens passaram a rejeitar a cor como forma de manter distância daquilo que era considerado “fraco” e mulheres fizeram o mesmo para não parecem “femininas demais”. Como se gostos fossem cláusulas pétreas da Constituição Biológica.

Mas o rosa é subversivo. Do punk ao queer, do tapete vermelho ao protesto político, o rosa está voltando ao seu lugar: o da ousadia.

Hoje, é usado por quem entendeu que cor nenhuma deveria carregar a cruz de um gênero e que nada é mais perigoso do que um sistema que transforma até uma tinta em ferramenta de controle.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora