Um Brasil quer energia limpa e renovável, outro quer energia suja

Último leilão de reserva decepcionou os brasileiros, pois privilegiou usinas de geração a carvão mineral e gás natural, fontes poluentes

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:10)
Legenda: Na foto, um parque eólico de geração solar e outro de geração eólica, ambos em plena e simultânea operação na região Nordeste
Foto: Thiago Gadelha / SVM
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Chega a levantar suspeita a gestão do Ministério de Minas e Energia (MME) que, há uma semana, realizou mais um leilão de reserva de capacidade (LRCAP), cujo resultado decepcionou e frustrou os brasileiros que querem mais energia gerada por fontes renováveis e limpas. E de quebra “escancarou um problema maior do que parece à primeira vista”, como disse, em uma rede social, o ex-presidente da Petrobras, Jean Paulo Prates. 

De costas para o meio ambiente, mas ao lado do poderosíssimo lobby do petróleo, o MME, simplesmente, contratou, por meio desse leilão, 19 GW de potência a ser gerada por usinas poluentes movidas a carvão mineral e, majoritariamente, a gás natural.  

O MME tem sido citado pelos empresários do setor energético como um dos que retardaram a regulamentação da Lei de implantação de usinas eólicas offshore (dentro do mar), retardo que agora prossegue em outro endereço: o Ibama. É o mesmo MME que vê, sem protestar, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) promover o desperdício de energia solar e eólica gerada na região Nordeste por empresas que investiram bilhões de reais em um negócio que parecia ter segurança jurídica, e agora veem que não tem.

Jean Paul Prates, um especialista em energia, solta o verbo: 

“Seguimos desperdiçando energia eólica e solar no Nordeste, enfrentamos restrições para conectar novas cargas (como data centers) e adiamos soluções estruturais como armazenamento e digitalização do sistema”, diz ele com a mesma indignação desta coluna, que não entende por que razão o governo do presidente Lula --  contradizendo seu discurso na recente COP-30 (a Conferência da Organização das Nações Unidas – ONU – sobre o meio ambiente, realizada em Belém) -- em vez de priorizar a energia limpa e renovável fornecida gratuitamente pelo sol e pelo vento, opta por permitir o investimento de R$ 64,5 bilhões em projetos energéticos poluentes, de efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global. Não há explicação diante da abundante e quase ilimitada oferta de projetos de geração de energia renovável.  

Usando uma linguagem de arquibancada, esta coluna diz que o MME, literalmente, suja suas mãos ao desprezar empreendimentos adequados aos princípios ESG, da ONU, e eleger, na contramão da contemporaneidade, fontes geradoras ainda mais sujas. Jean Paul Prates revolta-se, por justo motivo, com o resultado do leilão do MME. Ele diz: 

“Cortamos energia limpa e contratamos energia mais cara para ‘garantir segurança’. Isso não é falta de recurso. É falta de coordenação.” 

Para os leitores da coluna, uma explicação: aqui se tem defendido o direito de a Petrobras explorar as reservas de petróleo que existem na chamada Faixa Equatorial, que se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. É um ativo importante e estratégio que deve ser extraído e utilizado para a exportação, gerando divisas, e, também, para o consumo interno, depois de refinado e transformado em gasolina, óleo diesel e combustível e querosene de aviação.  

O que esta coluna rechaça é a má política do MME, que, em vez de incentivar a implantação de usinas geradoras de energias renováveis, estimula, erradamente, as de energia poluente. É como se o governo tivesse um discurso para os ouvidos dos ambientalistas estrangeiros nas COPs da vida e outro para o distinto auditório nacional, que paga a conta por esses erros de gestão. 

O Brasil é um país abençoado por Deus, que lhe deu uma exuberante e rica natureza, incluindo 8,5 mil quilômetros de costa sob parte dos quais há um oceano de petróleo; a maior floresta tropical do mundo, com uma biodiversidade única; a maior reserva de água potável do planeta; um povo extraordinário, criativo, inovador e trabalhador; um universo acadêmico notável com vários centros de excelência; um time empresarial que, em diversos setores, como o da indústria aeronáutica e do agronegócio, se equivalem aos globais; mas deu, também, infelizmente, uma elite política que, nos três Poderes da República, destrói o que a sociedade constrói ou tenta construir.  

O Brasil moderno quer energia elétrica gerada por fontes renováveis, mas o Brasil do atraso, com sede em Brasília, onde tudo acontece para o bem e para o mal, investe nas energias sujas. Lamentável.

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