Cultivo protegido: Ibiapaba poderá ser a Almeria brasileira
Região já tem mais de 600 hectares de estufas. As da Itaueira e da Trebeschi são melhores do que algumas que a coluna viu na Espanha
Zuza de Oliveira, um profissional da agronomia que hoje presta consultoria em agropecuária a grandes empresas do Ceará, não tem dúvida: “A Chapada da Ibiapaba pode ser a Almeria brasileira, mas para isto será necessário o financiamento bancário, algo que o BNB pode oferecer”. O que disse Zuza foi ouvido por 25 empresários da agricultura e pecuária e por quem mais lhe interessava: Eliane Brasil, superintendente do Banco do Nordeste no Ceará, que, de bate-pronto, lhe deu resposta com uma frase curta, mas decisiva: “O BNB está pronto para apoiar projetos de cultivo protegido.”
Almeria, localizada no litoral Sudeste da Espanha, na belíssima região da Andaluzia, pode ser considerada a capital mundial do cultivo protegido, que, segundo o Google, é a “técnica agrícola que utiliza estruturas, como estufas e telados, para controlar o ambiente de produção (luz, temperatura, umidade)”.
Este colunista integrou, em outubro do ano passado, missão empresarial organizada pela Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (Abid) que, coordenada pelo seu presidente, o cearense Sílvio Carlos Ribeiro, percorreu toda a área andaluza, incluindo, evidentemente, Almeria. E ficou encantado com o que viu.
Em Almeria, há mais de 40 mil hectares de estufas, cobertas com plástico ou teladas, sob as quais os hortifruticultores espanhóis plantam e colhem, utilizando biodefensivos e irrigação por gotejamento, frutas, legumes e verduras (FLV). É lá e no resto da Andaluzia que a Espanha planta, colhe e exporta FLVs para toda a Europa, utilizando a mais moderna tecnologia do cultivo protegido e, de quebra, uma sofisticada logística de transporte aéreo, rodoviário e ferroviário. O oceano branco formado pelas estufas de Almeria já foi visto e fotografado pela tripulação da Estação Internacional da Nasa.
Em Huelva, 500 quilômetros além de Almeria, estão sediadas a Cooperativa Cuna de Platero, a maior da Espanha, e a Emcocal, norte-americana com negócios em várias partes do mundo. Ambas têm lá suas fazendas de produção, onde são desenvolvedoras de berrys, as chamadas frutas vermelhas, como morango, mirtilo, fambroesa e amora. Diretores das duas empresas estiveram nesta semana no Ceará.
A Emcocal celebrará na próxima semana um Acordo de Entendimento com o Governo do Ceará, por meio d sua Secretaria Executiva do Agronegócio da SDE, com o objetivo de trazer para cá suas mudas de uma nova variedade de mirtilo apropriada ao clima e ao solo cearense. São alvos dos técnicos da Emcocal a Chapada da Ibiapaba, as empresas do Perímetro Irrigado Tabuleiros de Russas e o projeto de cultivo protegido que a família do empresário José Roberto Nogueira está empreendendo naquele município do Leste cearense.
Na opinião de Zuza de Oliveira, a aposta no cultivo protegido em toda a Serra da Ibiapaba, do ponto de vista técnico, tem 100% de sucesso, como já o provaram a Trebeschi e a Itaueira, que produzem lá, sob estufas, tomate e pimentões coloridos. O cultivo sob estufas (ambiente fechado, com clima controlado) e sob telas (estrutura aberta, sombreada, com livre circulação do ar) vem crescendo na velocidade do frevo na geografia Ibiapaba, e hoje ocupa uma área superior a 600 hectares. A diferença de uma para outra é o preço: a estufa de plástico ou de vidro é mais cara.
A coluna pode afirmar que as estufas da mineira Trebeschi, maior produtora nacional de tomates, e da Itaueira Agropecuária, grande produtora de pimentões coloridos, têm padrão técnico e estético melhor do que algumas que viu em Almeria.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, não esconde seu entusiasmo diante da perspectiva de a Ibiapaba tornar-se, no curto prazo, um grande centro nacional do cultivo protegido, e alogia o esforço que o secretário Sílvio Carlos Ribeiro e seu time desenvolvem para atrair capital e tecnologia para aquela região serrana.
Por sua vez, Erildo Pontes, coordenador de Recursos Hídricos da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, responsável pelos contatos com a diretoria da Cuna de Platero e da Emcocal reforça o discurso de Zuza de Oliveira e de Amílcar Silveira, apostando “todas as minhas fichas” nesses projetos, incluindo o da Agritec, do empresário José Roberto Nogueira, em Pereiro, e da DS Agro, do Perímetro Irrigado Tabuleiros de Russas. O primeiro receberá mudas da Emcocal para o cultivo protegido de mirtilo; a segunda já planta mirtilo sob estufas teladas e promete fazer experiência para o cultivo a céu aberto, algo que os espanhóis pensam em fazer, também, aqui.
Edson Brok, que produz e exporta banana nanica na Chapada da Ibiapaba e tomate cereja na Chapada da Ibiapaba diz que as duas regiões têm solo e clima semelhantes. O problema para a obtenção do financiamento bancário está na excessiva e demorada burocracia do licenciamento ambiental, razão pela qual sugere que o Banco do Nordeste procure interagir com mais presteza junto à Semace aos produtores. Quando isto estiver ocorrendo, “não tenho dúvida de que o cultivo protegido nas duas regiões será grandemente acelerado”.
José Maria Pimenta, agrônomo também apaixonado pela agricultura, diz à coluna que esteve em Almeria e o impressionou lá um detalhe importante: ao lado das estufas do cultivo protegido desenvolvem-se projetos de apicultura. "Sem abelhas, não há a produçao de frutas". Ele te razão..
Dá gosto transmitir boas notícias sobre investimentos privados no agro cearense, cujo empresariado está sempre a buscar novos nichos de negócios, e o cultivo protegido é um deles.
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