Tarifaço no Ceará: do limão de Trump à limonada da escola
Governador Elmano de Freitas, com apoio da Fiec e da Faec, sugere comprar pescados, mel e castanha e caju para a merenda escolar
Na azáfama a que estão dedicados, nos últimos dias, o governador Elmano de Freitas e as lideranças do empresariado Ceará, buscando – na velocidade da angústia - alternativas para evitar ou reduzir ao mínimo os prejuízos das empresas que exportam seus produtos para os Estados Unidos, surgiu uma ideia que merece louvores: a de que alguns desses produtos, como peixes, mel de abelha e até castanha de caju, poderão ser adquiridos pelo governo estadual e incluídos na merenda escolar, na dieta dos hospitais e na alimentação de alunos e professores das universidades públicas. Gol!!
Diante do inevitável, relaxe e busque soluções para o problema. E o que está aí é um problemão, pois a economia cearense é suportada, também, pelas suas exportações, boa parte das quais tem como destino o mercado norte-americano, agora restrito por causa do inexplicável - do ponto de vista econômico - embargo tarifário do mercurial presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Assim, o governador Elmano de Freitas – autor da ideia acima citada – está sendo incentivado pelo empresariado a torná-la prática.
Usar pescados, mel de abelha e castanha de caju na alimentação de crianças e adultos matriculados nas escolas de ensino fundamental e do ensino superior e, ainda, na dos pacientes e funcionários da rede hospitalar do governo do Ceará será diversificar o seu cardápio e dobrar a oferta de proteína a todo esse público. Eis aí um exemplo acabado e perfeito de bom uso do dinheiro público, ao qual poderiam ser adequadas, mas somente e exclusivamente neste caso, as emendas parlamentares.
Há uma emergência de ordem econômica que, no caso brasileiro, foi apimentada com uma dose de interesse pessoal e político conhecida em detalhes pelos leitores desta coluna. Se é uma emergência, a questão deve ser tratada emergencialmente, com providências que ultrapassem exigências burocráticas, entre elas as dos demorados processos licitatórios. Como toda emergência tem curta duração, as medidas a serem tomadas, se o forem realmente, terão, por isto mesmo, um caráter efêmero e de extrema e total excepcionalidade.
A não ser que o mercurial presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reveja sua Ordem Executiva da última quarta-feira, 30, e exclua mais produtos do castigo tarifário imposto ao Brasil (40% sobre a tarifa pré-existente de 10%), o cenário que valerá a partir da próxima quarta-feira, 6, será difícil para alguns estados, como o Ceará; muito difícil para outros, como São Paulo; e quase caótico para o Rio Grande do Sul, que será o mais afetado por esse tarifaço, segundo indicam seus respectivos governadores.
Aqui, vale ressaltar novamente, estão reunidos desde o primeiro momento da crise o governo do estado e as lideranças do seu setor produtivo, com destaque para a Fiec, pelo lado industrial, e a Faec, pelo lado agropecuário. A ideia de o governo comprar peixes, mel e castanha de caju nasceu durante uma das reuniões entre as partes. Evidentemente, o poder público não terá como adquirir todo o volume que era exportado pelas empresas cearenses para o mercado consumidor estadunidense, mas essa medida, sem dúvida, reduzirá bastante o prejuízo dos produtores e exportadores.
Mas, para essa providência, e como é curto o cobertor do orçamento estadual, o Palácio da Abolição saberá identificar as rubricas e dotações das quais tirará os recursos necessários para assegurar a execução da boa ideia do governador, a qual, quem sabe, poderá ser copiada por outros estados igualmente apenados pelo tarifaço do governo dos Estados Unidos.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária (Faec), Amílcar Silveira, não escondeu sua preocupação com a possibilidade de essa extraordinária e absurda tarifa perdurar além de um tempo razoável. Como essa possibilidade existe, Silveria e seu colega da Federação das Indústrias (Fiec), Ricardo Cavalcante, já prestam ajuda aos seus associados na busca de novos mercados para os seus produtos.
“Nada há insubstituível no mundo”, comentaram Silveira e Cavalcante. Ambos trabalham para fazer do limão do tarifaço uma boa limonada de comércio exterior. O presidente da Fiec cita o exemplo da Grendene, cujos calçados são exportados para os Estados Unidos e para mais 120 países. A empresa dos irmãos Grendene, que tem no Ceará praticamente 100% de sua produção, não terá dificuldade para superar esse desafio.
Veja também