Se quiser progredir, Ceará terá de desenvolver a Economia do Mar
Estudioso de como a riqueza do oceano pode criar novos negócios, o economista Célio Fernando indica as melhores e novas opções para investimentos marinhos
Portugal, que desenhou e percorreu o caminho das Índias, que descobriu o Brasil e dominou os mares do mundo, está agora cuidando de tirar o melhor proveito das potencialidades marinhas, para o que criou e começa a explorar e a exportar, na prática, a teoria da Economia do Mar, também chamada de Economia Azul.
De olho nesse novo horizonte de bons negócios, o Ceará, sua indústria e seu governo deram partida a um projeto cujos objetivos são os mesmos dos irmãos portugueses: obter do Oceano tudo o que ele tem para oferecer -- petróleo, energia eólica, peixes, água dessalinizada, turismo, esportes náuticos, pesquisas científicas e até aventuras para quem gosta de explorar os naufrágios centenários e mais recentes em sua costa.
Será isto possível? - perguntou a coluna ao economista cearense Célio Fernando, um requisitado consultor de empresas e, também, um dedicado estudioso da Economia do Mar – ele se encontra, coincidentemente, em Lisboa, participando da WebSummit, maior conferência de tecnologia da Europa.
“O Ceará é abençoado por Deus, pois reúne condições singulares para liderar a Economia Azul no Brasil: dispõe de 573 quilômetros de costa viva, de uma plataforma continental generosa e de um maretório (área de influência das marés) aproximadamente 1,7 vez maior que o território terrestre. Com 9,2 milhões de habitantes mirando o horizonte salgado, dos quais mais de 4 milhões vivendo próximos à costa, o Ceará é chamado a transformar o mar em infraestrutura natural e tecnológica, mas também em linguagem e memória”, foi a resposta dele, por meio da qual abre uma ampla cesta de oportunidades, todas elas na superfície, no meio e no fundo do mar que banha o estado.
Esta coluna está sendo publicada hoje, segunda-feira, 10, dia da chegada em Lisboa de uma Missão Empresarial organizada pela Federação das Indústrias do Ceará (Fiec) que, a partir de amanhã e durante cinco dias, fará uma total imersão na Economia Azul nas salas de aula da Nova SBE School of Business and Economics, principal escola de negócios de Portugal e uma das mais prestigiadas da Europa, reconhecida com a Triple Crown Acreditation, ocupando posição de destaque nos rankings internacionais.
A Fiec e seu presidente Ricardo Cavalcante não escondem os objetivos da missão: unir seus interesses estratégicos aos do governo, do empresariado e da academia de Portugal, que neste momento investem em importantes projetos de obtenção de maior conhecimento da Economia do Mar, alguns dos quais já saíram da teoria acadêmica para a prática empresarial.
Célio Fernando considera essa missão da Fiec como “importantíssima” para que, no curto prazo, o Ceará também passe a dominar as tecnologias e os novos negócios que estão surgindo de dentro do mar para o continente.
De acordo com Célio Fernando, “a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) define a Economia do Mar como o conjunto de atividades que dependem dos oceanos e de seus serviços ecossistêmicos, e as Nações Unidas a envelopam na Economia Azul, que, na Década do Oceano, exige uso sustentável e inclusão”.
No caso cearense, isso começa pelo reconhecimento do valor de seu bioma marinho:
“Manguezais que filtram a vida, recifes e lajes que amparam cardumes, pradarias marinhas que sequestram carbono, macroalgas que se transformam em fármacos e cosméticos, e a megafauna que batiza ventos e marés. ‘Necesito del mar porque me enseña’, escreveu o poeta chileno Pablo Neruda; o Ceará precisa do mar porque ele ensina ciência, sustento e futuro”, acrescenta o economista Célio Fernando.
Na sua opinião, tudo está chegando com a devida e necessária urgência.
“O aquecimento global, as ondas de calor oceânicas e a poluição pressionam ecossistemas, elevam o nível do mar, aceleram a erosão costeira e inauguram zonas de desertificação marinha, quando ambientes complexos se simplificam, ouriços e algas oportunistas tomam o lugar da diversidade e corais embranquecem acima do limite térmico. O Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, orgulho do litoral cearense, é também laboratório vivo de monitoramento e restauração. A resposta combina conservação ativa, ordenamento do uso, redução de impactos na costa e uma economia que valorize o que preserva”, analisa Célio Fernando.
Para ele, a transição energética é alavanca decisiva, porque parques eólicos offshore, “amparados por licenciamento sólido e segurança jurídica, podem integrar-se a linhas de transmissão de alta capacidade — inclusive em corrente contínua de alta tensão — e a hubs de montagem, operação e manutenção no Complexo do Pecém e no entorno do Porto do Mucuripe”.
Célio Fernando diz que projetos piloto de energia das ondas e das marés, com avaliação independente, testam soluções adaptadas às condições locais, “ao mesmo tempo em que “combustíveis de baixa emissão, como o hidrogênio de fonte renovável e seus derivados, descarbonizam manobras portuárias e rotas de cabotagem, aproximando logística e clima”.
Ainda segundo Célio Fernando, a conectividade digital deve avançar junto com a elétrica. Ele explica, já mirando o futuro próximo da economia do Ceará:
“Um Cinturão Azul Digital pode interligar portos, parques offshore, polos tecnológicos costeiros, centros de pesquisa e cidades litorâneas por cabos submarinos de potência e de comunicação. Fortaleza, já ancorada em múltiplas rotas transoceânicas de dados, tem vocação para hospedar portais digitais costeiros, telemetria oceânica em tempo real e centros de operações remotas. Em horizonte experimental, o Ceará pode liderar estudos e pilotos de micro data centers submersos para águas tropicais, em pequena escala, com engenharia térmica apropriada, manutenção robótica, auditoria ambiental independente e transparência de dados. Jules Verne, ao imaginar os segredos abissais, disse que ‘o mar é um deserto de ondas, onde só a imaginação pode erguer castelos’; agora, ciência e engenharia fincam o alicerce desses castelos.”
Tudo isso parece ficção, mas não é. O que Júlio Verne escreveu há muito tempo acontece hoje. Por isto mesmo, Célio Fernando tenta antecipar o futuro próximo, indicando em que setores devem o governo e a iniciativa privada cearenses fazer suas apostas, e tudo tirando bom proveito da Economia do Mar:
“A segurança alimentar e a inclusão social pedem cadeias do pescado organizadas da origem ao prato. Fortalecer a pesca artesanal e a aquicultura responsável — com cooperativismo, crédito, seguro, infraestrutura de frio, rastreabilidade digital e combate ao desperdício — consolida o pescado como proteína de qualidade e preço acessível para as famílias mais vulneráveis. A indústria de alimentos do mar deve agregar valor no território com filetagem, conservas, refeições prontas, proteínas funcionais e colágeno marinho certificados. Defesos cumpridos, recifes artificiais bem planejados e zonas de exclusão protegem berçários, manguezais e lajes recifais, enquanto a Pedra da Risca do Meio se firma como vitrine de educação e turismo científico.”
Célio Fernando olha o mar do Mucuripe à sua frente e prossegue prospectando o por vir:
“A cultura marítima é força econômica e símbolo. Um calendário estadual de regatas de jangadas, inspirado na memória do Dragão do Mar, complementa a renda dos pescadores, movimenta a construção naval leve e atrai visitantes. O turismo náutico-esportivo — kitesurf, vela, canoagem oceânica e mergulho em pontos autorizados — floresce com limites de carga, guias capacitados e infraestrutura de baixo impacto. Arte e economia criativa ampliam a travessia com festivais costeiros, residências artísticas, cinema, fotografia e gastronomia marinha, costurando vilas litorâneas em rotas culturais e educativas.
“Na logística e no comércio, o Complexo do Pecém e o Porto do Mucuripe formam a quilha do desenvolvimento. Integrados a cadeias frias e zonas de processamento, sustentam cabotagem e rotas intercontinentais cruciais para o escoamento de produtos agroindustriais e do mar, além de suportarem montagem offshore, estaleiros leves e terminais de combustíveis de baixa emissão. O ordenamento espacial marinho e a mediação porto–cidade–costa reduzem conflitos e elevam a produtividade. Em frentes de alto risco, como a mineração no ambiente marinho, vale o princípio da precaução: mapeamento abrangente, transparência, zonas de exclusão e prioridade a alternativas em terra e reciclagem de minerais críticos.”
Para concluir o que mais parece uma tese acadêmica, Célio Fernando oferece mais pistas para quem, no governo e fora dele, principalmente na Fiec e na Faec, mostra algum interesse em fazer do mar cearense um forte aliado do desenvolvimento de sua economia sustentável. Ele propõe:
“Governa-se bem quando se governa com ciência. O Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar) atua como nó de pesquisa, desenvolvimento e formação, com dados abertos em oceanografia operacional, bioeconomia marinha e engenharia costeira. A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos integra previsões de tempo e mar, correntes e eventos extremos ao licenciamento e à operação. A Marinha do Brasil assegura navegação, hidrografia, sinalização, busca e salvamento e fiscalização ambiental, compondo uma arquitetura de confiança para o maretório. A Federação das Indústrias do Estado do Ceará, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) escalam qualificações orientadas pela iniciativa Wind For Future e pelas Rotas Estratégicas da Economia do Mar do Observatório da Indústria, conectando diagnóstico e entrega.
“Formar gente é abrir marés. Acelerando a institucionalização do currículo azul no ensino básico, técnico e superior, o Ceará cria passagens reais para carreiras em navegação, manutenção offshore, biotecnologia marinha, ciência de dados oceânicos, sensoriamento, segurança no mar, cadeia do pescado, empreendedorismo e economia criativa. Escolas de empreendedores do mar, feiras de ciência e hackathons costeiros aproximam jovens, universidades e empresas. Parcerias internacionais com “costas-irmãs” do Atlântico e do Mediterrâneo erguem portais digitais de cooperação e intercâmbio. Na fronteira da inovação, o Projeto Atlantis — um campus modular fora das zonas núcleo da Pedra da Risca do Meio — integra estudos de data centers submersos, laboratórios nacionais e internacionais e hotéis no mar de baixo impacto, concebidos para turismo científico e residências de inovação, onde pesquisa, ensino e hospitalidade se encontram à beira do azul.”
Célio Fernando conclui assim:
“Métricas claras mantêm o rumo: qualidade das águas e número de praias certificadas; estoques pesqueiros e renda das comunidades; capacidade offshore instalada; extensão, disponibilidade e resiliência de cabos de dados e de potência; valor adicionado da indústria de alimentos do mar; visitantes em rotas náuticas; publicações, patentes e startups ligadas ao mar; emissões evitadas por cabotagem e energias limpas. Se ‘necessitamos do mar porque nos ensina’, que o Ceará aprenda rápido e bem: com portos eficientes, cinturão digital de alta capacidade, energia limpa, pesca responsável, turismo sustentável, ciência aberta e uma pedagogia do mar enraizada nas escolas e nas praias, o Estado pode fazer de seu maretório não apenas fonte de riqueza, mas poema vivo de prosperidade, identidade e proteção dos oceanos.”
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