O mar e a economia circular: a chance que o Ceará não pode perder
A nova fronteira do desenvolvimento cearense não está só no oceano, mas na forma como a indústria trata aquilo que hoje chama de lixo.
O texto a seguir é de autoria de João Eduardo de Villemor Amaral Ayres, CEO da Sustainable Ventures Brasil/Portugal, e de Rebecca Alonso Nascimento, head of Compliance, Legal and Governance da mesma empresa, que tem estreita ligação com a Federação das Indústrias (Fiec) em projetos ligados à Economia Azul, ou Economia do Mar.
Ambos tiveram efetiva participação no recente Ocean Summit 2026, promovido pela Fiec, que juntou representantes de toda a cadeia produtiva cearense da Economia Azul. João Amaral e Rebecca Alonso chamam a atenção para um detalhe importante: a Economia Azul pretende copiar a eficiência dos ecossistemas para fazer mais com menos, transformar resíduo em receita e abrir múltiplas fontes de caixa a partir de uma mesma operação.
O tema é muito atual e em torno dela tem crescido o interesse de empresários deste e de outros estados e, também, de portugueses que também descobriram no mar cearense muitas potencialidades em diferentes áreas da atividade econômica. A leitura do texto abaixo é, pois, obrigatória para quem quer conhecer mais sobre o tema. Eis o texto:
“Na abertura do Ocean Summit 2026, na Casa da Indústria, em Fortaleza, uma instalação chamava atenção antes mesmo das palestras: peixes feitos de sobras de papelão e sacolas plásticas, nadando sobre telas de LED que simulavam o oceano. A obra da artista cearense Joana Cardoso dizia, em silêncio, o que o belga Gunter Pauli passaria os dois dias seguintes, de forma cativante, repetindo no palco: na natureza, não existe lixo, não existe desperdício. O que sobra de um processo sempre será matéria-prima de outro. Tudo se aproveita, em um verdadeiro ciclo sem fim.
“Pauli, criador do conceito de economia azul e autor do livro The Blue Economy, falou em português fluente para um auditório de quase 400 empresários. Sua mensagem foi menos ambiental e mais econômica do que muitos esperavam. A economia azul, disse, não é uma agenda de custo, é um verdadeiro portfólio de oportunidades. E o maior obstáculo para destravá-lo, na sua avaliação, não é dinheiro nem tecnologia: é a falta de conhecimento.
“Vale separar aqui duas ideias que costumam ser confundidas. A economia verde, na crítica do próprio Pauli, muitas vezes encarece a produção e fica restrita a quem pode pagar por ela. A economia azul propõe o contrário: copiar a eficiência dos ecossistemas para fazer mais com menos, transformar resíduo em receita e abrir múltiplas fontes de caixa a partir de uma mesma operação. Sustentabilidade tratada como ativo, e não como despesa.
“Essa lógica tem um nome quando sai do oceano e entra no chão de fábrica: economia circular. E os números explicam por que ela deixou de ser pauta de ONG para virar tema de conselho de administração. O Global Circularity Gap Report 2026, produzido pela Circle Economy com a Deloitte, estima que o modelo linear – extrair, produzir, descartar – faz a economia mundial perder cerca de € 25,4 trilhões por ano, o equivalente a 31% do PIB global. Para cada € 3 de valor gerado no planeta, aproximadamente € 1 é simplesmente jogado fora. Apenas 6,9% dos materiais que entram na economia mundial são reaproveitados. O desperdício, antes de ser um problema ambiental, é um rombo no balanço.
“Há quem já tenha decidido tapar esse rombo de forma sistemática. A Finlândia foi o primeiro país do mundo a publicar um roteiro nacional de economia circular, em 2016, sob a liderança do fundo público de inovação Sitra, documento que desde então inspirou mais de vinte países a fazerem o mesmo. E o governo finlandês não parou no diagnóstico: a agência Business Finland destinou € 300 milhões a um programa de quatro anos voltado à transição circular da sua indústria.
“O que mais interessa à indústria cearense, porém, é o método. A Finlândia opera um sistema chamado FISS (Finnish Industrial Symbiosis System), coordenado pela estatal Motiva, em que empresas de setores diferentes são conectadas para que o subproduto de uma vire insumo de outra. Massas residuais de celulose, rejeitos de mineração e entulho de construção deixam de ser custo de descarte e passam a ter comprador. Para destravar essas conexões, os finlandeses criaram até um "mercado de materiais" on-line, o Materiaalitori, no qual resíduos e sobras industriais são anunciados, comprados e vendidos. É exatamente a frase de Pauli – o que sobra de um é matéria-prima de outro – convertida em política pública e em modelo de negócio.
“O Ceará tem todos os ingredientes para trilhar esse caminho, e já provou que sabe fazê-lo. Foi assim com as energias renováveis: o estado partiu de uma vocação natural e se tornou referência nacional. A economia do mar pode ser o próximo ciclo. Os dados apresentados no próprio Ocean Summit mostram que a economia azul já responde por cerca de 3% do PIB cearense e sustenta perto de 8 mil empregos formais: um piso, não um teto. Pesca e aquicultura, beneficiamento de pescado, algas, logística portuária, construção naval e civil: cada uma dessas cadeias gera sobras que hoje viram custo e amanhã podem virar receita, se houver quem faça a ponte entre quem descarta e quem aproveita.
“E é nesse ponto que a experiência finlandesa ensina a lição mais útil: simbiose industrial não acontece sozinha. Ela exige articulação, dados e gente treinada para enxergar oportunidade onde os outros enxergam descarte. Não por acaso, Pauli aponta o conhecimento como o verdadeiro gargalo. Resolvê-lo é não só uma questão de importar tecnologia, mas essencialmente de ir aprender onde a coisa já funciona, e adaptar à nossa realidade.
“Foi essa convicção que nos levou, na Sustainable Ventures, a construir pontes entre o Brasil e a Europa: da imersão em economia azul que desenhamos com a FIEC e a Nova SBE, esta eleita pelo Financial Times a número 1 em educação executiva de Portugal, à vinda de Gunter Pauli ao Ceará. O passo natural, agora, é levar lideranças industriais cearenses para ver de perto, na própria Finlândia, como a circularidade saiu do discurso e entrou na linha de produção. E aprender com quem já faz não é apenas ganho técnico: no horizonte do Acordo Mercosul-União Europeia, falar a língua da circularidade é também o passaporte da indústria cearense para um mercado europeu cada vez mais exigente em pegada ambiental. Um país do tamanho da Finlândia transformou conhecimento em vantagem competitiva. O Ceará, com litoral, indústria organizada e ambição declarada, tem condições de fazer o mesmo, e em maior escala.
“E liderar, aqui, é compreender que a indústria do futuro não se constrói de forma isolada. O Ocean Summit foi um sinal do que vem pela frente: quando o Ceará atrai para o seu calendário grandes eventos – de indústria e ciência, mas também de cultura, arte e esporte –, ele deixa de tratar essas agendas como mundos separados e passa a costurá-las em um só projeto.
“A indústria da mobilidade, as energias limpas e as tecnologias que estão redesenhando a produção mundial não cabem mais em compartimentos estanques: conversam com o esporte de alto rendimento, com a economia criativa e com o turismo. E poucos lugares no país estão tão prontos para essa convergência quanto o Ceará, um dos protagonistas da matriz limpa brasileira, com forte presença em energia solar e eólica e como uma das principais portas de entrada dos cabos submarinos que ligam o Brasil diretamente à Europa. Mobilidade elétrica, competições sustentáveis sobre as águas e inovação industrial deixarão, muito em breve, de ser pautas paralelas para se tornarem um mesmo movimento de desenvolvimento.
“A Década do Oceano, declarada pela ONU, é uma janela que não ficará aberta para sempre. A pergunta que fica para a indústria cearense não é ‘se’ a economia azul circular vai acontecer, mas sim “quem” vai liderá-la.
"Entre continuar extraindo valor e começar a regenerá-lo, a escolha mais lucrativa talvez seja, enfim, também a mais sustentável.”
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