O Ceará deveria convidar Elon Musk. E com bons argumentos.
Tiago Guimarães, ex-presidente da AJE, empresário e intelectual de vanguarda, diz que o dono da Tesla e da Space X ficará impressionado com a natureza cearense
Na opinião de Tiago Guimarães, poucos lugares do mundo se encaixam tão bem no projeto de Inteligência Artificial de Elon Musk como o Ceará, que dispõe de conectividade, boa localização geográfica, sol e vento para oferecer elétrons, resfriamento e fibra óptica, que são os elementos vitais da próxima década.]
Eis, a seguir, o texto de Tiago Guimarães:
“Elon Musk passou 1h24 sendo confrontado recentemente por Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da The Economist, e uma tese sobreviveu intacta a todo o interrogatório: a corrida da inteligência artificial não é limitada por ideias, e sim por infraestrutura física. Chips e eletricidade. Fora da China, o gargalo é energia e refrigeração. Dentro dela, chips, por causa dos controles de exportação americanos.
“O Brasil não é citado uma única vez na entrevista. E, ainda assim, poucos lugares do mundo se encaixam tão bem nesse diagnóstico quanto o Ceará. É por isso que defendo aqui uma ideia simples: o estado deveria articular um convite oficial a Musk. Não por deslumbramento com o personagem, mas por frio cálculo estratégico.
“Comecemos pelos fatos. Musk afirma que a próxima década será decidida por elétrons, resfriamento e fibra óptica. O Ceará reúne, por geografia e por política pública, exatamente esses três ativos.
“Conectividade: Fortaleza é um dos pontos mais conectados do hemisfério sul, porta de entrada dos cabos submarinos que ligam o Brasil à Europa, aos EUA e à África. O Cinturão Digital, com quase 6 mil quilômetros de fibra, permite levar data centers para além do eixo Fortaleza-Pecém.
“Energia: o mesmo vento e o mesmo sol que colocaram o Pecém na rota do hidrogênio verde agora atraem centros de dados. Enquanto Musk especula sobre data centers em órbita, o Ceará oferece uma solução bem mais terrestre e disponível hoje.
“Escala: a ByteDance, dona do TikTok, investe US$ 9,1 bilhões com a Casa dos Ventos no Complexo do Pecém, um dos maiores projetos da América Latina, voltado à exportação de serviços digitais para Europa e EUA.
“E há um marco legal recém-aprovado: o PL 69/26 cria a política estadual de incentivo a data centers e baterias. No plano federal, o REDATA premia justamente centros de dados movidos a energia limpa, condição que o estado atende com folga.
“Há uma camada quase irônica nisso tudo. Musk elogia a eficiência das empresas chinesas e admite que a China já produz mais eletricidade que EUA, Europa e Índia somados. Pois o maior investimento de IA no Ceará vem de uma gigante chinesa buscando fora da China o que lhe falta dentro dela: acesso irrestrito a chips. E oferecendo ao Ocidente o que falta a ele: energia limpa barata.
“O Ceará virou, sem planejar, ponto de encontro das duas metades do diagnóstico de Musk. Ignorar essa posição seria desperdício.
“Primeiro, os interesses convergem. Se o gargalo ocidental é energia e refrigeração, mostrar o Pecém em funcionamento vale mais que qualquer estande em conferência internacional. Missões a Valência ou Washington têm seu papel, mas não colocam o estado no radar de quem decide onde a infraestrutura de IA será construída.
“Segundo, já existem pontos de contato. A Starlink opera no Brasil e cresce rápido no Nordeste. Uma visita abriria conversas concretas: estações terrestres, integração com o Cinturão Digital e, por que não, um data center da xAI na ZPE, no mesmo modelo exportador da ByteDance.
“Terceiro, o efeito vitrine. Musk tem cerca de 250 milhões de seguidores. Goste-se ou não dele, uma visita colocaria o Ceará no mapa mental de todo o setor global de infraestrutura digital.
“A composição dessa agenda exige pragmatismo: visita técnica ao Pecém e à Praia do Futuro, encontro com governo e setor produtivo, números claros sobre energia, conectividade e incentivos. Sem tapete vermelho ideológico. Proposta de negócio, que é a linguagem que a própria entrevista mostra que ele entende.
“Seria desonesto terminar sem a outra metade da entrevista. Beddoes cobra de Musk o que qualquer sociedade deveria cobrar de transições aceleradas: legitimidade, distribuição de ganhos, cuidado com quem fica no caminho. Musk responde deslocando tudo para um futuro de abundância. Não é resposta suficiente lá, e não seria aqui.
“A votação do PL 69/26 (22 a 6, sob protestos ambientais) e a análise do Ministério Público Federal sobre o data center do Pecém mostram que a mesma tensão entre velocidade e consequências já se instalou no estado. Atrair investimento sem enfrentar essa tensão é construir sobre areia.
“A oportunidade é real: cabos, vento, sol, porto e incentivos raramente coexistem no mesmo lugar. Mas ela só se sustenta se a comunidade vizinha ao data center e o trabalhador deslocado pela IA fizerem parte da conta. Convidar Musk faz sentido. Fazer isso com os pés no chão faz ainda mais.”
Veja também