O Brasil e os brasileiros brigam sobre a carne seca
O jovem empresário cearense Tiago Guimarães, ex-presidente da AJE e um intelectual de vanguarda, reflete sobre a sociedade brasileira em tempos polarizados.
No texto a seguir, Tiago Guimarães diz que, “em poucas gerações, nosso padrão de vida aumentou de forma absurda, mas reconhecer o avanço não é aceitá-lo como teto; é prova de que somos capazes de subir, e de que ainda há muito degrau pela frente”.
Pela sua lógica, pela sua oportunidade, pelo seu denso conteúdo, o que ele escreveu, exclusivamente para esta coluna, deve ser lido com muita atenção. Eis o texto de Tiago Guimarães, leiam-no com atenção:
"Lendo recentemente Why Nations Fail, Acemoglu e Robinson mostram que nações não fracassam por falta de talento ou recursos. Fracassam quando suas elites gastam energia disputando entre si o controle do que existe, em vez de cooperar para criar o que não existe. O Brasil repete esse padrão há séculos, e o campo dessa batalha é sempre o mesmo: as costas da população.
Enquanto o povo carrega impostos, violência e serviços precários, quem está em cima disputa afirmações desnecessárias. Quem aparece mais, quem leva o crédito, qual região merece prestígio. Inveja regionalizada travestida de orgulho, como se a pobreza do vizinho fosse vitória de alguém.
Há ainda os que lutam por um passado glorioso. Mas o Brasil nunca esteve tão bem quanto hoje. Se o presente, com todos os seus defeitos, é o melhor que já tivemos, então aquele passado não foi glorioso. Foi tenebroso. Saudade de escravidão, coronelismo e miséria é saudade fabricada. Quem defende esse retorno defende privilégio, não história.
É importante retratar o tamanho do avanço que tivemos. Em poucas gerações, nosso padrão de vida aumentou de forma absurda: mais acesso a saúde, educação, energia, comunicação e oportunidades do que qualquer geração anterior sonhou. Isso precisa ser reconhecido. Mas reconhecer o avanço não é aceitá-lo como teto. É prova de que somos capazes de subir, e de que ainda há muito degrau pela frente.
A história do mundo é cheia de exemplos do retrato de instituições extrativas, em que a energia da nação é consumida na disputa pela fatia, nunca no crescimento do bolo. Veneza foi a cidade mais rica da Europa enquanto suas instituições eram abertas e qualquer comerciante podia prosperar. Quando a elite fechou o acesso e reservou o comércio para poucas famílias, a cidade entrou em decadência da qual nunca voltou. A Espanha imperial, afogada em ouro das Américas, empobreceu porque sua riqueza servia à coroa e não ao povo. As repúblicas latino-americanas herdaram o modelo e passaram dois séculos trocando de elite sem trocar de lógica. Já a Inglaterra, sem ouro nenhum, prosperou ao criar regras que limitavam o arbítrio dos poderosos.
O imaturo com autoridade confunde função pública com palco pessoal. O cargo deixa de ser instrumento de serviço e vira cenário de vaidade: cada decisão pensada pela audiência, não pelo impacto. Quando o poder cai em mãos despreparadas, o público paga pelo ingresso de um espetáculo que não pediu.
E o mundo assiste a isso rindo. Somos pequenos e ignorados no cenário global, e ainda oferecemos o espetáculo de brigar internamente pela carne seca. Olhar para fora ensina duas coisas: o tamanho real da nossa insignificância e o que ainda precisamos construir. Não se coloca insignificância em pedestal.
A verdade é dura: aqui não há o que repartir. Disputar migalha é matemática de pobre permanente. Riqueza precisa ser criada, e criação exige cooperação, regras estáveis e gente comprometida com entrega, não com vaidade.
O Ceará tem o caminho na frente. Fortalecer instituições: transparência nos contratos, mérito nos cargos técnicos, continuidade de políticas entre gestões. Criar riqueza nas vocações reais: energia renovável, hidrogênio verde, economia do mar e o hub do Pecém, com regras estáveis em vez de favores. Expandir a educação integral e profissional que já deu resultado, conectando escolas e universidades ao setor produtivo. Cooperar em vez de disputar crédito: municípios integrados em projetos comuns, Nordeste articulado como bloco, gestores medidos por entrega e não por palanque. E olhar para fora: comparar o estado com regiões que saíram da pobreza, usando nossa posição geográfica para alcançar mercados externos.
A saída não é esperar pessoas melhores. Inveja e cobiça existem em toda sociedade, há milhares de anos. A diferença está nas instituições: regras que tornam a cooperação mais vantajosa que a captura, a verdade mais forte que a mentira, o mérito mais poderoso que o sobrenome.
E o ódio não é caminho. O ódio é sintoma de instituições extrativas: grupos lutando para controlar o Estado e extrair dos demais. É esse ciclo que mantém nações pobres. O conflito que constrói é outro: a disputa política canalizada por boas regras, em que adversários não se aniquilam, mas se unem em torno de um interesse maior. Ódio alimenta o ciclo extrativo. Cooperação sob boas regras é o que quebra esse ciclo.
Podemos parecer novos diante de civilizações milenares. Mas juventude também é liberdade. Os Estados Unidos tinham menos de um século quando já superavam impérios antigos, justamente porque nasceram com menos vícios enraizados para desmontar. E a Revolução Gloriosa de 1688 não venceu porque um grupo derrotou outro. Venceu porque comerciantes, proprietários e cidadãos comuns encontraram um interesse maior que suas diferenças: limitar o poder de quem podia tomar tudo.
Um país em desenvolvimento não tem sobra para guerra interna. Cada disputa vazia entre elites é paga por quem está embaixo. A luta maior não é contra o vizinho. É contra o atraso que empobrece a todos. A escolha é antiga: continuar brigando sobre a carne seca ou finalmente cozinhar juntos.
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