ArcelorMittal: com aço plano, Ceará fabricará automóveis, também
Uma planta laminadora em Pecém ainda depende de "processos de engenharia", mas é uma das melhores notícias do ano para a economia cearense
Vlaardingen (Holanda) – Este colunista está aqui, nesta cidade holandesa ao lado de Roterdã, cujo famoso porto se vê da janela do hotel, para acompanhar, a partir desta segunda-feira, 6, uma missão técnica da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (Abid), presidida pelo cearense Sílvio Carlos Vieira, e da qual faz parte o secretário do Desenvolvimento Econômico do governo estadual, Fábio Feijó. Mas de olhos e ouvidos atentos ao que se passa na paróquia econômica do Ceará.
E é com alegria que posso afirmar que uma das melhores notícias deste ano para a economia cearense foi transmitida sexta-feira, 3, pelo colunista Victor Ximenes. Ele anunciou a decisão da direção da ArcelorMittal de construir em sua siderúrgica do Pecém uma unidade de fabricação de aço laminado. A decisão contempla o investimento de R$ 35 milhões para a realização dos “processos de engenharia necessários”, algo que demorará no mínimo um ano, após o que o projeto será submetido à análise e aprovação do Conselho de Administração da empresa, que é a maior produtora mundial de aço.
Por que é importante esta informação? Porque a indústria cearense, e a do Nordeste como um todo, principalmente o seu setor metalúrgico, passará a dispor, a poucos quilômetros de distância, de um grande e internacionalmente qualificado fornecedor da matéria prima essencial à fabricação de automóveis, caminhões e ônibus, além de fogões, refrigeradores, máquinas de lavar, ou seja, de toda a chamada linha branca de eletrodomésticos.
Outra consequência: o Ceará, que hoje é um dos estados que mais importam aço plano, deixará de sê-lo, uma vez que o terá no Pecém, provavelmente a preço mais baixo. Será a soma da fome de sua metalurgia com a vontade comer da ArcelorMittal.
Não se trata, propriamente, de uma novidade: quando tomou posse, em março de 2023, da posição de CEO da ArcelorMittal Pecém, Erick Torres disse, no seu discurso, que um dos objetivos da empresa seria a instalação de uma laminadora na sua unidade cearense. Agora, ele reafirma a promessa, que, porém, “está condicionada à conclusão satisfatória dos trabalhos de engenharia e a processos adicionais de aprovação interna, incluindo a aprovação pelo Conselho de Administração da ArcelorMittal”, como disse o comunicado da empresa distribuído logo após a reunião de sua alta direção com o governador Elmano de Freitas, em ato que teve a presença do presidente da Federação das Indústrias (Fiec), Ricardo Cavalcante, um entusiasta do novo empreendimento.
A Fiec – de cujo Laboratório da Indústria e de cujos Sesi e Senai a ArcelorMittal tem recebido informações estratégicas e cursos de qualificação de sua mão de obra – entende, desde quando a empresa comprou da Vale e dos seus sócios coreanos Posco Holding Inc. e Dongkuk Steel Mill a antiga Companhia Siderurgica do Pecém, que a futura unidade de laminação agregará valor ao aço produzido no Pecém, “e isto, por via de consequência, permitirá que nossa indústria metalúrgica acrescente ao seu portfólio novos e mais sofisticados produtos”, como disse à coluna Ricardo Cavalcante, na opinião de quem “o lado social desse projeto também deve ser aplaudido, pois criará centenas de novos e estáveis empregos”.
O governo cearense e a liderança de seu setor industrial caminham juntos no projeto de fazer do Ceará um polo fabricante de veículos automotores. Por enquanto, o Polo Automotivo de Horizonte, na Região Metropolitana de Fortaleza, é só um núcleo que monta peças e equipamentos de empresas chinesas que os fabricam na China, para o que gozam de incentivos fiscais. O Palácio da Abolição e a Casa da Indústria reconhecem que este é o primeiro passo para a próxima instalação de plantas industriais que congreguem toda a cadeia produtiva do setor automobilístico. Esta coluna, por sua vez, torce para que a fase atual de CKD (Completely Knocked Down) dure pouco tempo, e que o Polo de Horizonte se transforme mesmo num Polo Fabricante de Automóveis.
MISSÃO DA ABID COMEÇA HOJE NA HOLANDA
Presidida por Sílvio Carlos Ribeiro, secretário Executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE) do governo do Ceará, a Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem – integrada por 15 empresários, técnicos e pesquisadores acadêmicos, entre os quais o secretário titular da SDE, Fábio Feijó – inicia hoje a programação de sua Missão Técnica na Holanda, que está aqui para conhecer e apropriar-se das novas tecnologias de irrigação e do cultivo protegido.
A Holanda, maior exportadora mundial de hortifrutis, tem a melhor e mais desenvolvida tecnologia do cultivo sob estufas, área na qual o Ceará já investe na Ibiapaba e no Cariri.
(O colunista viajou à Holanda a convite da ABID)