No Ceará, futuro do cultivo protegido pode estar no litoral
Missão Técnica que esteve na Holanda voltou disposta a investir na produção de hortifrutis sob estufas
De volta à paróquia fortalezense, após um mergulho muito rico na agricultura dos Países Baixos, principalmente no seu moderno sistema de produzir hortifrutis em ambiente protegido, sob estufas, esta coluna sente-se estimulada a antever um futuro mais do que promissor para essa atividade no Ceará, a que já se dedicam dezenas de produtores rurais e grandes empresas, como a Trebeschi e a Itaueira, cujos tomates e pimentões coloridos são comercializados não apenas aqui, mas também no Sul e Sudeste, por meio de famosas redes de supermercados.
O que se passa na Holanda – cujo povo, usando a melhor inteligência e a mais avançada tecnologia, protege 70% do seu território que está abaixo do nível do mar – pode passar-se, também, no Ceará, e a um custo bem mais barato. Lá, a área de dezenas de hectares nos quais se desenvolve o cultivo protegido é a soma de muito dinheiro (os holandeses são ricos) com um pouco de engenharia e muito de inovação tecnológica.
A estrutura que sustenta as estufas de vidro é metálica. Ela também suporta o pesado sistema de iluminação a Led que, usado quando o sol desaparece na metade do ano, permite a fotossíntese e o crescimento natural das plantas, cuja colheita é robotizada. Tudo isto é muito caro, assim como também é cara a sofisticada e eficiente logística de transporte que mobiliza rodovias perfeitas, bem-sinalizadas, seguras e interligadas aos portos de Roterdã e Amsterdã.
Com toda essa infraestrutura por trás, o resultado não poderia ser outro: a Holanda disputa a liderança mundial da produção e da exportação de hortifrutis – em um ano é líder, noutro ano é vice-líder.
Corte rápido para o que se passa no estado do Ceará, onde o cultivo protegido, que avança na velocidade do baião, ganhará a velocidade do frevo, se convergirem, como parece que acontecerá, os interesses da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), da Federação da Agricultura e Pecuária (Faec) e de empresários que acabam de visitar algumas das maiores e melhores empresas holandesas que produzem sob estufas.
Não se trata de nenhum sonho impossível: esta coluna testemunhou as tratativas de dois empresários cearenses com dois grandes industriais holandeses com os quais se associaram com o objetivo de investir no Ceará, um na importação de pellets oriundos de árvores da caaatinga no sertão de Canindé, outro em um projeto de cultivo de tomate em ambiente protegido em local a ser definido. Nos dois casos, os contratos já foram celebrados – o de pellets o foi na quinta-feira-feira, 9, à vista do acima assinado.
O debate sobre o cultivo protegido no Ceará ganhou nova dimensão e perspectiva depois que o economista Fábio Feijó tomou posse da SDE. Sua presença na recente Missão Técnica Abid/Faec na Holanda pode ser entendida como uma intervenção divina: no segundo dia da viagem, ele já dominava amplamente todos os aspectos do negócio.
Esse domínio foi ampliado no terceiro dia (quarta-feira, 8) com sua reunião com o executivo que representa o Porto de Roterdã no Conselho de Acionistas do Complexo do Pecém. E consolidado no dia seguinte quando conheceu e conversou com Mark Houweling, sócio e CEO da Royal Houweling, indústria centenária holandesa (só empresas com mais de 100 anos podem usar o Royal no seu nome) que importará os pellets de Canindé, para o que se associou ao cearense Lauro Carvalho, dono da Norpellets Biomass Energy.
Na mesma quinta-feira, Feijó foi oficialmente informado de que o empresário Edilberto Rodrigues, cearense de Piquet Carneiro e dono da Athos Construções, se associou ao holandês Johan Charles Fernand e ao brasileiro Luiz Eduardo Barros, donos da Equity Intenational Business, com os quais criou a joint-venture CN Agrotech Solutions, que investirá em um projeto piloto de cultivo protegido de tomate, usando tecnologia holandesa adaptada às condições do clima do Ceará. O local desse investimento ainda não foi definido.
Ao ler a edição de sábado, 11, desta coluna, o agropecuarista Luiz Girão, do alto de sua experiência, mandou em uma rede social a seguinte sugestão a quem interessar possa:
“O melhor lugar para o cultivo sob estufas é o litoral, onde há água doce no subsolo. Em Aracati, por exemplo, o Grupo J. Macedo tem grandes áreas que se adaptam perfeitamente aos objetivos dos futuros investimentos no cultivo protegido. Quem sabe se Aracati não pode transformar-se na Almeria cearense? Ou Beberibe? Ou Cascavel?”
A sugestão é boa, mas ela pode esbarrar na alta umidade do litoral, algo a ser ainda estudado do ponto de vista técnico.
(Almeria, na Espanha, é a maior produtora mundial de hortifrutis sob estufas, e estufas de plástico, como as que se utilizam na Ibiapaba e no Cariri).
EMPRESÁRIOS DO AGRO OUVEM RAMON RODRIGUES HOJE
Ramon Rodrigues, secretário de Recursos Hídricos (SRH) do governo do Ceará, reúne-se hoje com empresários cearenses da agropecuária, que lhes exporá sobre as condições deste e do próximo ano da principal insumo do setor: a água.
A estação de chuvas de 2026 foi muito boa para a agricultura, que está recolhendo boa safra. Mas foi ruim para a recarga dos grandes açudes, como o Orós, o Castanhão e o Banabuiíu, que estão hoje com menos de 30% de sua capacidade. Há uma expectativa de “El Niño” para este segundo semestre, com possibilidade de avanço pelo primeiro trimestre de 2027.
Se isto acontecer, a SRH enfrentará dificuldade para assegurar água para o abastecimento humano e a dessedentação animal prioridades legais) e para as atividades econômicas, máxime as que se desenvolvem na região do Baixo Jaguaribe. Assim, a palavra de Ramon Rodrigues, hoje, é aguardada com expectativa.
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