No agronegócio, Ceará tem uma vantagem: o cearense

O agro cearense descobriu mais uma fronteira, a do cultivo protegido, e é nele que o governo e a iniciativa privada investirão

Escrito por
Egídio Serpa egdio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 14:34)
Legenda: A mais alta tecnologia está embarcada no cultivo protegido do tomate na Holanda. Sensores controlam o crescimento da planta
Foto: Egídio Serpa
Um oferecimento de:

Amasterdam (Holanda) – Cinco dias de intensa atividade neste maravilhoso país, que tem 70% de sua geografia abaixo do nível do mar, cujas águas são contidas por uma extensa rede de barragens e canais, conduzem a uma reflexão. A Missão Técnica Abid/Faec, encerrada ontem, leva esta coluna a uma conclusão: o futuro da agricultura não será definido apenas por quem tem mais terra agricultável, mas por quem consegue colocar mais tecnologia, produtividade e organização econômica, sabendo produzir mais com menos água e menos área. Ou seja, tirar do metro quadrado o melhor e o maior que ele pode dar.   

Foi isso que os missionários cearenses observaram nas visitas técnicas realizadas durante a jornada. A chamada greenhouse, ou cultivo protegido, não é apenas uma estufa. É, como disse mais de uma vez o secretário do Desenvolvimento Econômico (SDE), Fábio Feijó, “um sistema agrícola de alta tecnologia, capaz de controlar temperatura, umidade, irrigação, luminosidade, nutrição das plantas e qualidade da produção, muitas vezes com sensores, automação, softwares e conhecimento científico aplicado”.  

Os Países Baixos transformaram esse modelo em uma das suas maiores vantagens competitivas. Mesmo sendo um país pequeno, com clima desafiador, terra escassa e mão de obra cara, tornaram-se uma potência mundial na produção e exportação de flores, hortaliças, frutas e tecnologias agrícolas.  

O que, porém, mais chamou atenção do time cearense foi o fato de que o sucesso holandês não está apenas na tecnologia, e sim na forma como o país organizou essa cadeia produtiva. As greenhouses estão inseridas em verdadeiros clusters econômicos, reunindo produtores, fornecedores de equipamentos, empresas de irrigação, centros de pesquisa, universidades, logística, compradores e serviços especializados em uma mesma região. Essa concentração reduz custos, acelera a inovação, melhora a produtividade e cria reputação internacional de qualidade.  

Durante a missão, representantes de universidades, empresas e investidores relataram que a Holanda começa a enfrentar limites importantes para continuar expandindo esse modelo dentro do próprio território: pouca disponibilidade de áreas economicamente viáveis, energia mais cara e mais escassa, mão de obra qualificada, porém de alto custo, e um ambiente cada vez mais competitivo para novos investimentos produtivos.  

Não por acaso, investidores holandeses já vêm implantando greenhouses fora da Holanda, em países africanos como Marrocos, Turquia e Tunísia. Isso mostra que o modelo pode ser internacionalizado e que há uma demanda europeia crescente por produção agrícola de alta qualidade, previsível e competitiva.  

“É nesse contexto que o Ceará pode enxergar uma oportunidade real”, diz, com o mesmo entusiasmo de Flávio Feijó, o seu secretário Executivo do Agronegócio, Sílvio Carlos Ribeiro.    

O Ceara tem disponibilidade de áreas, vocação agrícola, posição geográfica estratégica no Atlântico, potencial de energia renovável, câmbio favorável ao investidor europeu e uma parceria institucional muito relevante com o Porto de Roterdã por meio do Complexo do Pecém. Essa relação com Roterdã gera credibilidade, aproxima o Ceará do mercado europeu e pode ajudar a construir uma logística mais eficiente para produtos de maior valor agregado.   

Há ainda um fator novo e importante: o avanço do acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Para o Ceará, esse movimento pode ampliar oportunidades comerciais e fortalecer a lógica de integração produtiva com o mercado europeu. Em outras palavras, o Estado pode deixar de ser apenas comprador de tecnologia agrícola e passar a ser também uma plataforma de produção, inovação e exportação para a Europa. 

Para concluir: além dessas vantagens citadas, há outra vantagem comparativo: o Ceará tem o cearense, que é o seu melhor e inigualável produto.  

Veja também