Lula quer fim da energia fóssil, mas apoia Petrobras no mar

Na COP 30, o presidente faz um discurso para os ambientalistas do mundo; no front interno, corretamente, apoia a extração do petróleo da Margem Equatorial

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 04:16)
Legenda: Lula e a Petrobras querem, corretamente, explorar o petróleo da Margem Equatorial, onde pode estar nova província petrolífera brasileira
Foto: Divulgação
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Há menos de um mês, o Ibama emitiu para a Petrobras a Licença Ambiental necessária para o início da perfuração de um poço exploratório na Margem Equatorial, 500 quilômetros mar adentro do litoral do Amapá. Demorou cinco anos para que isso acontecesse. E apenas seis horas depois de licenciada, a estatal iniciou o serviço de perfuração, tão grande e urgente era, e segue sendo, a sua pressa para encontrar e, depois, extrair o petróleo que existe na região. 

O próprio presidente Lula teve de peitar o Ibama, o PT e suas ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e de Relações Institucionais, Gleisi Hoffman, que se declararam e se mantêm contra qualquer exploração de petróleo na Amazônia ou em sua Margem Equatorial, sob o argumento de que isso poderá causar problemas ao meio ambiente da área a ser explorada.  

Em outras palavras: Lula teve de empunhar a bandeira da Petrobras e de pronunciar o discurso a favor do desenvolvimento do país, ou seja, pela exploração da Margem Equatorial. 

No dia 12 de fevereiro deste ano, Lula disse o seguinte à Rádio Diário FM, de Macapá sobre o assunto: 

“Não é que vou mandar explorar (petróleo), eu quero que ele seja explorado. Agora, antes de explorar, temos que pesquisar, temos que ver se tem petróleo, a quantidade de petróleo, porque muitas vezes você cava um buraco de 2 mil metros de profundidade e não encontra o que imaginava. Talvez na semana que vem ou nesta semana haja uma reunião com a Casa Civil, com o Ibama e precisamos autorizar que a Petrobras faça a pesquisa. É isso que nós queremos. Se depois a gente vai explorar, é outra discussão. O que não dá é pra ficar nesse lenga-lenga, o Ibama é um órgão do governo parecendo que é um órgão contra o governo”. 

 

Mas aconteceu o improvável: na quinta-feira, 6, ante-ntem, em Belém, ao abrir a cúpula de chefes de estado da COP 30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não tem problema de amnésia, disse o seguinte na reunião de cúpula de chefes de estado na COP 30: 

“Precisamos de mapas do caminho para, de forma justa e planejada, reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para esses objetivos”.  

Pode não parecer contraditório, mas é ambíguo! 

Lula poderia ter dito, de novo, que, neste momento, o Brasil precisa, urgentemente, de saber se há petróleo na camada pré-sal da Margem Equatorial, uma possível grande província petrolífera que, segundo as pesquisas, se estende do Amapá até o Rio Grande do Norte. É dessa Margem Equatorial que a Guiana, na geografia marinha ao lado, está extraindo o óleo que já multiplicou por três o seu PIB nos últimos cinco anos. É por esse valioso petróleo que o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, ameaça abrir guerra contra os guianenses para tomar deles essa riqueza fóssil. 

Lula tem razão quando pede esforços para que energias renováveis, como a solar, a eólica, a hidráulica, a de biomassa e o hidrogênio verde, substituam definitivamente a energia oriunda do petróleo e do gás natural. Mas isto ainda demandará muito tempo, algo como mais 30 anos, no mínimo, dizem os especialistas.  

Assim, o Brasil e seu presidente, em quaisquer fóruns, principalmente na COP 30, têm de dizer que não podem abdicar da exploração e da extração do petróleo de sua Margem Equatorial, pelo menos enquanto durar o ciclo da energia suja – no qual se inclui, também, a produzida pelo mineral. 

O presidente Lula tem um discurso que varia de acordo com a plateia. A de quinta-feira passada, em Belém, era mundial, e 90% dela manifestava-se, como Lula, pelo fim da energia fóssil e a favor da energia limpa. Mas o presidente brasileiro está de olho no único alvo que enxerga e no qual mira: o projeto de sua reeleição, que lhe poderá dar seu quarto mandato presidencial, algo inédito em regimes democráticos. Por isto, seu discurso varia conforme a natureza do ambiente, de acordo com a tendência da audiência. 

A Petrobras, empresa com ações negociadas nas bolsas de valores brasileira e norte-americana, agora sob uma gestão até aqui voltada para resultados, tapou os ouvidos para o discurso de Lula na COP 30 e segue perfurando o primeiro de uma série de poços exploratórios na Margem Equatorial, onde espera catapultar sua produção e seus lucros que beneficiam, principalmente, o sócio majoritário -- o governo brasileiro. 

A própria presidente da Petrobras, Magda Chambriard, agora mais forte, do ponto de vista político, pelos excelentes resultados financeiros da empresa, não deixa dúvida de que a prioridade da estatal continuará sendo a exploração e a extração de petróleo, principalmente na Margem Equatorial e na sua faixa de pré-sal como em outras fronteiras.  

É preciso deixar, e esta coluna o pretende, que a Petrobras é, provavelmente, a empresa que tem a melhor expertise para tratar do meio ambiente no meio do oceano estão estão suas sondas de exploração e suas plataformas de extração de petróleo. Não tem razão, pois, o discurso de petistas e de ambientalistas contrários à extração do petróleo da Margem Equatorial - se ele for mesmo encontrado.  

E por falar em Petrobras: a empresa registrou, no terceiro trimestre deste ano (julho-agosto-setembro), lucro líquido de 32,7 bilhões de reais. A direção da Petrobras informou que pagará dividendos de R$ 12 bilhões. Neste ano, os lucros da Petrobras já ultrapassaram os R$ 90 bilhões.