Lições práticas de um empreendedor que tem suas próprias teorias
Dono da F. S. Rocha Pescados e Mariscos segue regras da dura vida empresarial, a primeira das quais é desprezar o luxo
Este colunista teve ontem mais um dos bissextos encontros com o empresário Francisco da Silva Rocha, sócio majoritário da F. S. Rocha Pescados e Mariscos e da Somariscos, as duas grandes lojas do varejo desse setor nesta capital.
Ele e seu irmão Manoel, coincidentemente, haviam lido na véspera o texto de Diego Mourão, especialista em Reposicionamento de Marcas & Negócios, publicado aqui, para o qual o maior erro das empresas cearenses não é a falta de dinheiro, mas de posicionamento.
Homenageados, em 2020, pelo Sistema Verdes Mares que reconheceu neles um bom exemplo de empreendedorismo a ser copiado, os irmãos Rocha, mais acostumados à prática do que às teorias do seu negócio, concordaram com a tese de Mourão, mas acrescentaram – com fundamento na sua própria e dura experiência empresarial – que o êxito de uma empresa, seja ela grande, média “ou pequena como a nossa”, depende de simples tomadas de decisão.
Com outras palavras, Francisco Rocha explicou, como se estivesse numa sala de aula, falando para seus parentes de Camocim, no Noroeste do Ceará, de onde veio para Fortaleza com o irmão em meados do século passado. Ele disse:
“A primeira dessas decisões pode ser entendida como a pedra fundamental e o alicerce de um negócio, e nós a adotamos desde o dia em que, há mais de 30 anos, decidimos empreender: nunca gastaremos mais do que o arrecadado. A segunda é ainda mais elementar: o lucro, quando e se ele vier, será reinvestido na melhoria do negócio. Sinais exteriores de riqueza, o luxo, são e serão sempre um item proibido na nossa empresa”.
Surgiu uma pergunta natural: o lucro veio? E a resposta de Francisco foi pronunciada como um raio, como se ela já estivesse na ponta de sua língua, decorada, para atender à curiosidade dos alunos da imaginada sala de aula camocinense:
“Veio e tem vindo como produto do nosso dedicado esforço diário, que começa junto com os primeiros raios do sol. E para nós vale muito o ditado que diz: ‘É o olho do dono que engorda o gado’. Aqui na F. S. Rocha, um real é tratado com a mesma atenção e cuidado de quem lida com um dólar. Se, no fim do dia, na nossa prestação de contas, faltar um real, algo de errado terá acontecido. E vamos investigar a causa desse desvio aparentemente insignificante. Infelizmente, não é assim que acontece na maioria das empresas, as quais, depois de se tornarem gigantes, não prestam mais atenção às pequenas coisas, como o desaparecimento de um real.”
E como vocês veem o posicionamento da empresa nesse mercado muito disputado, que é o do varejo de mariscos e pescados? – foi a indagação seguinte. Resposta de Francisco Rocha, novamente com outras palavras:
“Temos aprendido que, na prática, as teorias são diferentes. O que serve para uma grande empresa industrial talvez não sirva para uma organização farmacêutica. Aqui, na nossa empresa, a oitiva nos orientou por algum tempo. Com o passar dos anos, porém, foi a convivência diária com sua excelência o cliente, o entendimento correto do que eles pensam e nos dizem, do que eles veem e nos contam, do que eles sugerem, tudo isso moldou a nossa maneira de conduzir nosso negócio. E o resultado prático está à vista. Temos progredido com os pés no chão, dando um passo de cada vez, e sempre um passo limitado ao tamanho das nossas pernas. Nosso ramo é muito disputado, envolve produtos perecíveis, razão pela qual estamos permanentemente cuidando da qualidade do que comercializamos. Temos fornecedores e clientes que estão conosco desde o nosso início, e este é um detalhe muito relevante.”
Como vocês posicionam a marca de sua empresa? – foi a terceira pergunta, em linha com as teorias do professor Diego Mourão a respeito do reposicionamento de marcas. Francisco Rocha, outra vez, respondeu didaticamente, usando outras palavras:
“Nossa marca é a razão social da nossa empresa, ou seja, F. S. Rocha Pescados e Mariscos. Hoje, nossos clientes e quem nos conhece usam, no ‘boca a boca’, a fórmula reduzida F. S. Rocha, e está aí a nossa marca, sem nenhum grande esforço de marketing. Ela está sempre posicionada na direção Norte do nosso negócio. Aliás, nosso marketing são as opiniões de nossa clientela, que vai do rico da Aldeota ao mototaxista do Uber, do grande restaurante do Meireles ao modesto ‘self service’ do bairro São João do Tauape. Tudo para nós é simples assim.”
Pelo que acima foi dito, é mesmo!
Veja também