Juros altos ameaçam o crédito e a atividade econômica
Novo ciclo de alta da Selic esfriará a economia pelos próximos meses. Comprar a casa própria ou um televisor ficou mais caro: o juro da prestação subiu
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Caiu o dólar, mas subiram os juros. O cenário da economia brasileira para este ano mostra desafios que terão de ser enfrentados e vencidos. O novo ciclo de alta de juros, que foi acelerado no final do ano passado, deverá esfriar a atividade econômica ao longo dos próximos meses – é o que prevê o economista José Maurício Caldeira, sócio conselheiro da Colpar Brasil e Adone Holding, grupos que atuam nas áreas da indústria e do agronegócio no Brasil e exterior.
Na sua opinião, e na da maioria dos analistas, a Selic, que agora está no patamar de 13,25%, seguirá em aclive, alcançando 15% no fim deste ano.
Em mensagem a esta coluna, Caldeira diz que a política monetária restritiva elevará o custo do crédito. “Juros altos desestimulam investimentos privados, o que desaquece a economia e desacelera o Produto Interno Bruto (PIB)”, adverte ele.
Hoje, a expectativa dos agentes financeiros é de crescimento do PIB em 2% neste 2025 – o resultado de 2024 será conhecido na próxima semana e deverá ficar em torno de 3,5%. O Ministério da Fazenda projeta um avanço de 2,5% para este ano.
“Embora o desempenho da economia tenha surpreendido positivamente nos últimos anos, em 2025 haverá menos impulso fiscal por parte do governo, além do forte aperto monetário que será sentido, sobretudo, no segundo semestre. Aguardemos para ver se teremos nova surpresa em 2025”, diz Maurício Caldeira.
Em 2024, o setor industrial foi um dos vetores positivos que puxaram o PIB. As estimativas são de que a indústria avançou 3,6% no ano passado. Neste ano, porém, esse crescimento ficará em 1%, de acordo com as projeções dos especialistas.
“O crédito caro afeta diretamente o desempenho da indústria, pois o setor não tem mecanismos alternativos de financiamento”, explica Caldeira, adiantando que, além dos juros, os gastos públicos e a inflação também serão desafios para este exercício de 2025.
“O pacote fiscal apresentado pelo governo no fim do ano passado não convenceu os agentes financeiros de que a trajetória da dívida pública entrará numa rota sustentável. O mercado espera o anúncio de mais medidas de contenção de gastos”, acrescentou ele. (O próprio presidente Lula disse ontem que, se depender dele, não haverá mais medidas fiscais).
A inflação, pelo segundo ano consecutivo, fechará 2025 por volta dos 5%, acima do limite superior da meta. Em 2024, a taxa ficou em 4,83%, estourando o teto máximo, que é de 4,5%. A meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3%. A espiral de aceleração do dólar nos últimos meses e o preço dos alimentos são fatores que seguirão pressionando a inflação neste ano.
De acordo com José Maurício Caldeira, outro item a ser considerado é o cenário externo que se apresenta, de maior incerteza global, sobretudo por causa dos Estados Unidos, agora sob nova administração. O presidente Donald Trump prometeu na campanha eleitoral um reajuste generalizado das tarifas de importação para proteger os bens fabricados nos EUA. (Ontem, ele já anunciou que os produtos oriundos do Canadá e do México serão taxados em 25% a partir de amanhã, sábado, primeiro de fevereiro).
“Uma eventual guerra tarifária pressionará a inflação mundial, levando a uma subida dos juros internacionais, o que se traduziria em um ambiente mais desafiador para as economias emergentes. Até que a névoa de dúvidas se dissipe, teremos meses de incerteza à frente”, conclui José Maurício Caldeira.
Bem, para esta coluna a cena da economia brasileira tem cores cinzentas. O pedreiro da construção civil que deseja comprar um novo televisor, já se defronta com taxas mais altas de juros. O casal recém-saído da festa matrimonial com o sonho de adquirir sua casa própria já está vendo a subida dos juros da Caixa Econômica, que são hoje bem diferentes dos que existiam no seu tempo de noivado.
Com juros nas alturas, o crédito torna-se mais caro, o consumo se retrai e o investimento é cancelado ou postergado. E sem uma política fiscal convincente, confiável e crível, a política monetária manter-se-á contracionista, independentemente de quem esteja à frente do Banco Central – Roberto Campos Neto ou Gabriel Galípolo.