Governo Trump: Brasil vê a Venezuela e teme pela Colômbia
A nova política externa dos EUA, baseada na tese de “a América para os americanos”, já chegou à Venezuela. A Colômbia está ao lado. O Brasil acompanha tudo com lentes de lupa.
No próximo mês de maio, haverá eleições para a presidência da República da Colômbia, hoje governada pelo socialista e ex-guerrilheiro do M-19 Gustavo Petro, que tentará a reeleição. Ele terá como opositora a senadora Paloma Valencia, do partido Centro Democrático, ideologicamente de direita. As pesquisas indicam ligeiro favoritismo de Paloma. A Colômbia, é preciso deixar claro neste parágrafo de abertura, é o maior produtor mundial de cocaína e, também, um país que, nos últimos quatro anos, deteriorou sua economia e suas instituições. Ao seu lado, na mesma geografia do Noroeste da América Latina, está a Venezuela, em cuja selva se homiziaram, sob a proteção de Nicolás Maduro, facções colombianas do crime organizado e uma parte da dissidência do Exército de Libertação Nacional (ELN) e das Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
O vencedor da eleição colombiana terá de adotar medidas muito duras, principalmente na área fiscal. Números macros da economia da Colômbia revelam: sua dívida pública fechou 2025 por volta de 64% do PIB (a do Brasil está em 79%); o déficit alcançou 7% do PIB. Todas as agências de risco rebaixaram a nota da Colômbia, que, ainda assim, tem grau de investimento, algo que o Brasil não tem (e não tem porque as mesmas agências mantêm o olho na deletéria política fiscal do governo brasileiro). A Ecopetrol, que é a Petrobras colombiana, apontada como a principal investidora do país, perdeu mais de 30% do seu valor de mercado, consequência da soma da má gestão com a corrupção.
Por culpa do chavismo, a corrente de comércio da Colômbia com sua vizinha Venezuela foi, igualmente, deteriorada: de US$ 7,5 bilhões em 2008, caiu para apenas US$ 1,1 em 2024. Na selva amazônica dos dois países prospera a ação dos produtores e dos traficantes de cocaína, que abastecem o mundo por meio de sofisticada infraestrutura logística, agora ameaçada pelos EUA. A população da Colômbia é de 46 milhões de habitantes; a da Venezuela é de 29 milhões de almas.
O que aponta no horizonte próximo da Colômbia é o que podemos chamar de “pegar ou largar”. Na vizinha Venezuela, o cavalo está passando selado, e a amazona Delcy Rodriguez, nova presidente do país, e seu séquito de generais já sinalizaram que o montarão tão logo se vistam com os trajes da cavalgada com os quais receberão de braços abertos as prometidas grandes empresas norte-americanas que explorarão e comercializarão o seu petróleo, para o que farão investimentos superiores a US$ 20 bilhões para tornar o país um dos principais produtores mundiais de óleo (a Venezuela tem as maiores reservas do mundo).
O socialismo bolivariano, criado por Hugo Chaves e ampliado por Nicolás Maduro, parece ter o DNA do pragmatismo, algo que o socialismo de Gustavo Petro, na Colômbia, não tem.
Se for bem-sucedida a empresa de Donald Trump junto à ditadura venezuelana, e tudo está caminhando neste sentido, a Colômbia, após as próximas eleições presidenciais de maio, e sob o atual ou sob um novo governo, terá de buscar entendimento imediato com os EUA. Se Paloma Valencia vencer, esse entendimento será proclamado logo no seu discurso de posse. Ela não perderá a oportunidade – que precisa de ser aproveitada agora por Gustavo Petro – de buscar o apoio norte-americano para o enfrentamento de todos os problemas do país, da violência ao narcotráfico, da economia à segurança pública.
E o que isto tem a ver com o Brasil? Tem tudo a ver.
Uma possível eleição de Paloma Valencia terá repercussão na política brasileira. Os EUA e sua nova política exterior, baseada no lema de “a América para os americanos”, já demonstraram todo o interesse pelo pleito colombiano. Na Argentina, no Chile, na Bolívia, no Paraguai e no Equador, Trump tem governos aliados.
O presidente Lula e sua arte de bem negociar reverteram um quadro de má relação com os EUA e conseguiram uma química excelente com Donald Trump, que é também apreciador da arte da negociação. A separá-los, porém, há o verniz ideológico, que, nas últimas conversas entre ambos, foi deixado de lado em benefício do interesse dos seus países.
Lula já confessou aos seus assessores que teme – em virtude da nova geopolítica latino-americana – a interferência do governo Trump na eleição brasileira de outubro.
Assim, diante do acima exposto, é possível concluir o seguinte: o que se passará, nas próximas semanas, na Venezuela e na Colômbia, terá imediata e direta consequência no resto da América Latina, o Brasil no meio.
Que estejamos atentos aos atos e fatos que estão por vir.
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