Fertilização in Vitro: "Vaca boa é a que dá uma bezerra a cada 13 meses"

Pequeno agropecuarista elogia o FIV da Faec, mas adverte: “50 litros de leite não compram hoje um saco de milho de 60 quilos!”

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:15)
Legenda: O programa Fertilização in Vitro em execução pela Faec pretende acrescentar mais 500 mil litros de leite/dia à pecuária leiteira do Ceará
Foto: Fabiane de Paula / SVM
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Esta coluna foi abordada ontem por um pequeno agropecuarista que desenvolve sua atividade em cerca de 15 hectares em um dos municípios da Região Metropolitana de Fortaleza, cuja pluviometria anual média é de 700 milímetros (mais do que o dobro do que chove em Israel). Sua abordagem foi motivada pela matéria, aqui divulgada, a respeito do programa de Fertilização in Vitro (FIV), em execução, com êxito, pela Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec). 

“É uma ótima ideia, que vem sendo bem desenvolvida em municípios do Sertão Central, cuja vocação é mesmo a da produção leiteira”, afirma ele, que se declara “um fã de carteirinha do Amílcar Silveira”, presidente da Faec. Ponto, parágrafo, pois aí ele – engenheiro agrônomo graduado pela famosíssima e disputadíssima Escola de Agronomia de Viçosa, em Minas Gerais, expõe seu ponto de vista crítico em relação ao FIV e no que se refere à alimentação do rebanho. 

“O avanço genético do FIV é inconteste e grandioso. E quanto mais se avança em busca de altíssimas médias de produtividades, maior é a dependência por grãos, e cito, principalmente, o milho e a soja. Estes são alimentos para humanos e monogástricos (aves e suínos) e não para bovinos”, instiga o pequeno produtor.  

Ele tem mais argumentos técnicos: 

“Os ruminantes (bovinos, caprinos e ovinos – os parêntesis são dele) possuem o sistema digestório composto de quatro estômagos. A natureza, por meio da mão divina, projetou-o. E não foi por acaso. Boi e vaca leiteira existem para comer fibra de boa qualidade e para transformá-la em carne e leite. Do jeito que estão fazendo, o desavisado produtor continuará escravo das comodities, cuja preço é atrelado ao dólar, e venderá em real seu produto e seu labor. Ora, 50 litros de leite não compram hoje um saco de milho de 60 quilos!” 

De acordo com este anônimo protagonista, “a realidade da imensa população de pequenos e médios produtores de leite é esta”. Ele segue adiante: 

“É por esta razão que eu estimo que, daqui a alguns dias, vacas que produzem 50 ou 60 litros diários de leite por cabeça também não resolverão a questão. Repare: o custo de produzir o leite está sempre crescendo, mas o industrial que o beneficia parece insensível a este detalhe. Sei que há o problema da importação do leite, mas temos de enfrentar e resolver o nosso problema interno, e para isto temos de pressionar todo mundo, do governado ao deputado, do senador às nossas federações do agro e da indústria”. 

Com a mão na massa cinzenta que produz esta observação, o agropecuarista lembra que “esta novela é antiga”, e ainda acrescenta a opinião de que “a vaidade humana só dá para quem é rico financeiramente e tem seu capital de giro em outras atividades não primárias, basta verificar no campo”. 

E para apimentar o debate, ele discursa para os pecuaristas leitores desta coluna. E faz uma previsão: 

“A técnica de embriões in vitro sexada é fato! Seu resultado, porém, é de no máximo, na média, 30%! Ou seja, de cada 10 animais que receberam embriões de reprodutores de alta linhagem já nasceram ou nascerão, no máximo, três indivíduos fêmeas. Utilizando-se, contudo, tecnologia mais moderna, o resultado chegará aos 60%”. 

O agrônomo conclui sua exposição, dizendo que “vaca boa é aquela que despeja um bezerro no chão a cada 13 meses e produz em média de 10 a 12 litros por animal/dia, comendo fibra de boa qualidade, isto é, forragem”. 

Esta coluna correu atrás do presidente da Faec, Amílcar Silveira, que disse: 

“No ano passado, tivemos 41% de prenhez. Este é o percentual, não são 30%, mas 41%. E mais: nós pagamos pela prenhez. O avanço genético entre uma monta natural e a Fecundação in Vitro (FIV) é de sete gerações. São animais puros. Geralmente, quando fazemos meio sangue, sai uma vaca pura Gir (Girolando) com touro holandês puro de boa avaliação genética, e isto faz com que o produtor receba um animal de alta linhagem. E é o produtor quem escolhe o que quer, se quer três quartos ou meio sangue, que é Gir com holandês. Estamos tranquilos, pois o FIV vai muito bem, obrigado.” 

CRIME AMBIENTAL NO INTERIOR DO CEARÁ 

Há um crime ambiental sendo cometido há vários meses nas áreas rurais dos municípios de Tabuleiro do Norte e São João do Jaguaribe: pequenos produtores rurais, sem outorga da Cogerh, estão usando a água do rio Jaguaribe para a produção de arroz. Tido estaria correto, se essa produção não estivesse sendo feita, como está, por inundação, ou seja, com o uso excessivo de água.  

Esta denúncia foi feita ontem por agricultores que produzem no Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi, durante reunião que juntou o secretário Executivo da Secretaria de Recursos Hídricos do governo do estado, Ramon Rodrigues, e 30 empresários da agropecuária cearense.  

Quem fez a denúncia foram diretores do Distrito Irrigado Jaguaribe-Apodi, o Dirja, que, também, se manifestaram preocupados com a informação de que a Cogerh decidu reduzir em 5 metros cúbicos por segundo a oferta de água para as atividades econômicas do Vale do Jaguaribe, exatamente onde se encontra o Perímetro Irrigado do Apodi, no qual está consolidado um polo produtor de frutas.  

Outra informação colhida dessa reunião, testemunhada por esta coluna, foi relacionada às obras do Ramal do Salgado, último e derradeiro trecho do Projeto São Francisco de Interligação de Bacias, que se aproximam de sua conclusão, que poderá acontecer no fim deste ano.   

Para isto, porém, será necessário fazer uma alteração no projeto original, para o que o ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional convocou Ramon Rodrigues para uma reunião nesta semana, em Brasília.  

O Ramal do Salgado é obra importantíssima para o sofisticado sistema hídrico do Ceará: ele encurtará em 150 quilômetros a viagem das águas do rio São Francisco até o açude Castanhão.  

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