Escândalo do Master: o diabo veste os três poderes

Tudo parece caminhar para que a Operação Compliance Zero tenha o mesmo e lamentável fim da Lava Jato

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
Legenda: Sede do Banco Master em Brasília. Seu dono, Daniel Vorcaro, preso, comprou quem quis nos três poderes da República.
Foto: Agência Brasil / Rovena Rosa.
Um oferecimento de:

Num país moderno, republicano ou não, as instituições costumam funcionar com precisão suíça. Deveria ser assim, também, no Brasil, mas infelizmente não é: aqui, os agentes econômicos, cuja atividade subordina-se ao que a política faz ou deixa de fazer, não sabem para onde ir diante da 1) insegurança jurídica, 2) incerteza do que dirão amanhã as investigações da Polícia Federal sobre os escândalos do INSS e do Banco Master e dos desvios de emendas parlamentares, 3) envolvimento de ministros do STF nas tenebrosas transações do banqueiro Daniel Vorcaro, 4) elevadas taxas de juros e crédito muito caro e 5) dúvidas quanto à próxima eleição presidencial e a presença do crime organizado nas instituições do país. 

Nos últimos três dias, a mídia nacional publicou um incrível conjunto de informações que revelaram irregularidades (para não dizer apropriação e desvio do dinheiro público) praticadas pelas mesmas personalidades de sempre: deputados e senadores, com mandato ou não, mas com doutorado e pós-doutorado na arte de utilizar-se das pornográficas emendas parlamentares para abastecerem seus colégios eleitorais com verbas para obras que nunca terminam. Em ano eleitoral como este 2026, esses desvios acontecem amiúde, e a respeito deles a imprensa tem dedicado bom espaço para revelar fraudes, obrigando a Polícia Federal a mergulhar profundamente na investigação, algo que se repete há, no mínimo, duas décadas. Os suspeitos são os mesmos, e já deveriam ter sido punidos, mas, ao contrário, seguem livres, lépidos e fagueiros. 

No fim de semana, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) veio a público por meio de uma nota em que, reforçando seu apoio “à atuação das autoridades competentes e à condução firme e técnica do Banco Central na adoção das medidas necessárias para preservar a solidez, a estabilidade e a confiança no Sistema Financeiro Nacional”, considera de “extrema gravidade as informações objeto de investigação da Polícia Federal, veiculadas em decisão judicial do STF, sobre a elaboração de dossiês com a finalidade específica de atingir o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, e a jornalista Malu Gaspar”.  

Isso tem a ver com a “Operação Compliance Zero”, que desvendou uma teia de interesses manipulados por um homem de inteligência privilegiada, mas voltada para o mal, o dono do liquidado Banco Mater. A jornalista Malu Gaspar, do “O Globo”, teve a coragem de noticiar as bilionárias fraudes do sr. Daniel Vorcaro e suas pecaminosas relações com a elite da política e do Judiciário abrigada na Praça dos Três Poderes em Brasília, onde estão o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Palácio da Justiça.  

Diz a nota da Febraban: 

“Nesse contexto, a Febraban considera de extrema gravidade as informações objeto de investigação da Polícia Federal, veiculadas em decisão judicial do STF, sobre a elaboração de dossiês com a finalidade específica de atingir o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, e a jornalista Malu Gaspar. Assim, não se pode tolerar qualquer tentativa de intimidação, constrangimento ou desqualificação de pessoas por meio de práticas dessa natureza. Os fatos noticiados geram indignação por ocorrerem em um contexto em que autoridades, associações setoriais e agentes do mercado atuaram, com firmeza, para proteger a estabilidade do sistema financeiro, incluindo medidas relacionadas à governança e ao funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), sempre com o objetivo de resguardar depositantes, investidores e a confiança da sociedade no setor.” 

Esta coluna já disse, e o repete agora: parece estar em marcha um bem urdido esquema que, tal e qual aconteceu no Lava Jato, tem como objetivo, por meio de filigranas jurídicas, dar também o mesmo lamentável destino à Compliance Zero, o que significará um atestado de honestidade a todos os envolvidos. Pergunta: a sociedade aceitará, outra vez, um desfecho assim, que consolidaria o Brasil como o país da impunidade?  

Daniel Vorcaro, enganando milhões de pessoas físicas e jurídicas, das quais tirou o dinheiro com que se tornou bilionário e comprou quem quis na República, foi arguto, pois, de propósito, deixou os rastros que conduziram a PF ao covil dos ladrões, cujos nomes já foram divulgados. Está tudo esclarecido, menos para os que interpretam as alíneas, os incisos, os parágrafos e os artigos das complicadas leis brasileiras. Extasiada, a população aguarda o fim desta novela de corrupção em alto grau. 

Veja também